domingo, 25 de julho de 2010

A família e o comportamento

Pergunta: "O comportamento é até sinônimo de cultura, determinismo, arbítrio e influência. Qual o papel da família nisso tudo?"

Via formspring.me/Comportamento
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Antes de falar da família, falarei de comportamento, cultura, determinismo, arbítrio e influência.

- Determinismo é a “teoria filosófica de que todo acontecimento (...) é explicado (...) por relações de causalidade”.
- Arbítrio é uma “determinação dependente apenas da vontade”.
- Comportamento é uma relação entre organismo e ambiente (Borges, 2009). Não é determinado pela vontade nem por relações de causalidade, mas sim por relações funcionais, isto é, interações probabilísticas com várias “causas” possíveis e nenhuma agindo de modo mecanicista (http://bit.ly/ackqPQ). O comportamento operante é função de níveis de seleção: filogenético, ontogenético e cultural (http://bit.ly/apdkoQ).
- Cultura é um conjunto de eventos ambientais sociais que contribui em um nível de seleção do comportamento (Skinner, 1981).
- Influência é a “ação de uma pessoa ou uma coisa sobre outra”. Logo, o responder de um organismo é influenciado pela ação das pessoas que fazem parte de seu ambiente cultural, de maneira multideterminada e probabilística.

ResearchBlogging.orgA família é um grupo de pessoas que participa do ambiente sócio-cultural de um indivíduo. Também fazem parte desse ambiente a escola, o trabalho, a religião, o governo, entre outras. Todas essas agências controladoras (Skinner, 1953) modificam o comportamento do indivíduo e do grupo. Mas como ela controla? Por contingências de reforçamento (ou por coerção). Falemos das contingências de reforçamento.

Reforçamento é o aumento da freqüência de respostas de um organismo em função de um reforçador. E reforçador é a função contingente de um evento ambiental, posterior a uma resposta, e que aumenta a probabilidade de ocorrência dela na presença de um outro evento ambiental antecedente.

A família é provedora de potenciais reforçadores às pessoas desde o nascimento até um período indeterminado da idade adulta. Os reforçadores podem ser sociais, como conversas amistosas, ou físicos, como dinheiro. Assim sendo, a família exerce sua influência sobre o indivíduo através de relações operantes.

Em Análise do Comportamento, há um conceito importante no estudo das relações comportamentais entre grupos culturais: metacontingências. Contingência é uma relação funcional entre eventos. No caso do comportamento, estamos falando de organismo e ambiente. A metacontingência é algo que está além de uma contingência simples que envolva o foco de análise nas respostas de um indivíduo, nas alterações que essas respostas ocasionam no ambiente e como o ambiente retroage sobre o indivíduo.

Metacontingência é o conjunto de contingências entrelaçadas, que gera um produto agregado a partir de operantes de vários indivíduos e um sistema receptor que seleciona essas relações (Glenn & Malott, 2004). Este produto agregado não é cumulativo, como no caso de uma macrocontingência. O produto agregado difere do acumulado na medida em que não é formado pela somatória do produto das respostas de cada indivíduo do grupo, mas sim pelas interações entre esses indivíduos.

Por exemplo, o sucesso de um time em jogo de futebol depende da ação de todos os jogadores. A vitória em tempo normal de jogo é um produto agregado, pois foi formado a partir das contingências entrelaçadas do comportamento de cada jogador. Caso a disputa fosse definida em pênaltis, a vitória seria um produto acumulado, pois seria fruto do somatório da ação de cada jogador separadamente. Ambos os tipos de produto fazem seleção do repertório comportamental de cada indivíduo.

Na família, há macrocontingências como quando você quer pintar seu quarto e daria muito trabalho fazê-lo sozinho. Se você, seus pais e seus irmãos pintarem juntos, a resposta de pintar será reforçada efetivamente pela conseqüência “paredes pintadas” e gerará um produto acumulado “quarto pintado rapidamente e com pouco esforço”. Também há metacontingências: em uma família com histórico de relações sociais reforçadoras, cada membro da família exerce controle sobre o comportamento do outro (contingências entrelaçadas), que promovem o bom convívio da família, a participação de todos nas atividades rotineiras como refeições, limpeza e entretenimento (produto agregado), sendo que esse modelo de interação social familiar é selecionado pela igreja, pelo governo, pelos programas de TV etc (sistema receptor).

Quanto ao nível de influência da família em detrimento da influência de outros grupos culturais, a Psicologia Social fala sobre dois tipos de inserção cultural: a Socialização Primária e a Socialização Secundária (Gomes, 1994). Socialização primária corresponde às primeiras influências na vida de um indivíduo, influências essas que compõe a “personalidade” (entendida aqui como algo em constante mudança em função das variáveis ambientais) desse indivíduo, isto é, que modela o repertório social básico, tornando o indivíduo apto a viver em sociedade. As influências ocorridas após esse período, ou as novas inserções sociais do indivíduo em novos grupos sociais é a Socialização Secundária. Em geral, a família faz parte do processo de Socialização Primária e é o grupo social que mais frequentemente perdura ao longo da vida do indivíduo.


Outros grupos como amigos de vizinhança, ou colegas e professores do colégio, que podem também fazer parte da Socialização Primária, na maioria das vezes se dissipa com o passar do tempo. A Psicologia Social diz que a Socialização Primária é mais efetiva e mais influente sobre a vida das pessoas, ou seja, há muitas coisas estabelecidas por essa Socialização que são difíceis de serem mudadas pela Socialização Secundária. Não entrarei nas discussões apresentadas pela Psicologia Social por não achá-las pertinentes à análise comportamental e por falta de repertório pessoal mais amplo sobre o assunto.

Pela Análise do Comportamento, por que a Socialização Primária seria mais efetiva que a Secundária? Porque essas influências iniciais são mais freqüentes por um período mais extenso que as demais. E família, quando é um grupo responsável pela Socialização Primária e mantém-se freqüente na vida do indivíduo por período indeterminado, as contingências de reforçamento (especialmente as entrelaçadas) estão bastante estabelecidas e garantem a manutenção de um mesmo tipo de repertório.

Logo, a família é personagem importante na formação do repertório comportamental. O seu grau de controle sobre esse repertório varia em função história das relações sociais mantidas entre os membros dessa família. Um indivíduo que sempre teve pouca interação com a família, ou manteve relações aversivas, provavelmente será menos influenciado pelas contingências (ou metacontingências) familiares enquanto estiver distante dela. Todavia, cada caso é um caso. Não há receita geral do grau de influência da família na vida de alguém, pois seu repertório é função de todas as muitas interações sociais e, na vida contemporânea, via internet, essas relações podem ser estendidas ao mundo inteiro, classificando a família como mais uma das possíveis agências controladoras do repertório social dos indivíduos.


Rubilene

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Referências


Borges, R. P. (2009). Comportamento: resposta ou relação? Anais do XVIII Encontro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental.
Glenn, S. S., & Malott, M. E. (2004). Complexity and Selection: implications for organizational change. Behavior and Social Issues, 13, 89-106.

Gomes, J. V. (1994). Socialização Primária: tarefa familiar? Cadernos de Pesquisa, 91, 54-61.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 213, 501-504.

Skinner, B. F. (1953).Science and Human Behavior. New York: Macmillan.

Sugestão de leitura sobre Metacontingências em família:

Naves, A. R. C. X. (2008). Contingências e metacontingências familiares: um estudo exploratório. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciência do Comportamento. Universidade Federal de Brasília. PDF

3 comentários:

  1. O conceito de metacontingencia parece dividir os Analistas do Compt.

    Já falei com entusiatas dele, dizendo que é o começo da exploração de uma nova fronteira da AC: o comportamento social complexo.

    Mas tbm já falei com doutores em AC que dizem se tratar de um conceito abstrato e confuso demais e sem grande utilidade e nem comprovação experimental.

    Não me posicionei nesse debate ainda.

    Gostaria de saber a opinião de vcs sobre essa aparente polêmica no meio academico Comportamental.

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  2. Certamente a metacontingência ainda não é de todo aceita na comunidade de analistas do comportamento, e não é de hoje, levando-se em conta que o conceito já paira pelos periódicos da área desde a década de 80. Entretanto, acho que só agora que a questão começou a ser adequadamente tratada, pois só agora as metacontingências estão sendo testadas empiricamente, em laboratório (em especial na PUC-SP e aqui na UFPA).

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  3. Concordo com o comentário do Hernando. E acrescento que também ainda não me posicionei sobre a relevância desse conceito na AC. Conceitualmente parece confuso, realmente, mas suponho que a maior dificuldade está na identificação e mensuração do que se chama produto agregado. De qualquer modo, pesquisas estão em andamento e serão elas a demonstrar que contribuições essa área pode ter para o estudo do comportamento, especialmente em nível cultural.

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