domingo, 20 de junho de 2010

Evolução, comportamento e reducionismo



A eficaz observação da seleção do comportamento por princípios operantes, quando bem embasada conceitualmente (sem condescendências com "sujeitos reforçados"), inevitavelmente cria um certo desdém, um ceticismo franco, com relação a outras explicações aparentemente mais parcimoniosas.

E assim, concepções de "homem genético" (também chamado de "homem somático") e "homem cerebral", duas grandes apostas das ciências biológicas (cf. este comentário), acabam tornando-se difíceis de engolir, principalmente quando as asserções envolvidas são grandiosas, e as evidências pouco palpáveis.

O homem genético foi a grande onda da segunda metade do século passado. O sonho de encontrarmos todos os problemas e todas as maiores façanhas da humanidade no DNA, de um humano qualquer, fora lançado ao mundo junto a belas representações artísticas de ácidos nucleicos:


Hoje, algumas poucas décadas depois, regadas a muitos milhões de dolares, o genoma humano está completamente sequenciado, e pouco do sonho restou (tanto que um dos principais desbravadores do genoma humano, Craig Venter, mudou-se para outra área, igualmente cheia de ficção a longo prazo). Os geneticistas, em sua grande maioria, já são bem mais céticos quanto a possibilidade de haver genes para comportamentos específicos, ou mesmo para padrões mais amplos de comportamento. Ninguém, que mantenha algum tipo de idoneidade intelectual, ainda procura, hoje em dia, o gene gay (mesmo que jornalistas incautos digam o contrário). O pêndulo oscilou, da determinação estrita e específica, para a determinação geral, heurística e elástica. Pelo menos nessa área, pois em outra, começou a busca pelo neurônio gay... Entretanto, eu posso estar errado quanto ao quão estéril é este tipo de investida. Aguardo sérias evidências (desde o século passado).


Vídeo 1. Brincando com a falácia, vídeo humorístico anuncia o isolamento do gene cristão por cientistas gays.

Isso tudo é o pano de fundo pouco debatido da nova Psicologia Evolucionista, uma apropriação da sociobiológia da década de 70, feita por Psicólogos.

Como Analista do Comportamento, contextual, pós-moderno e calcado em um modelo causal selecionista, facilmente me interessei pelo leitmotif anunciado pela Psicologia Evolucionista: não apenas o nosso organismo é o resultado parcial de uma longa macroevolução; a mente humana (e, por mero compromisso à teoria, a dos demais animais) também é o resultado da poderosa seleção natural. Ok, afirmação curiosa!

Agora, façamos algumas considerações. O primeiro ponto, todos já sabem: que conceito de mente é esse? Ah, é o de sempre. Ok, "mal de behaviorista", um desvio de caráter irreparável. Mas tudo bem, podemos deixar de lado os problemas ontológicos e aceitar que a mente nada mais é do que o repertório, no caso humano, o repertório verbal (até que maiores complicações surjam adiante...). Já aprendemos com a Psicologia Cognitiva que o que importa são os dados, pois querendo ou não, todos observam, registram e trabalham com comportamento, o que muda são as discussões (que também são comportamentos, facilmente analisáveis).

Agora, vamos com calma. É hora de analisar um exemplo, um bem caricato. Tomemos "X" como um padrão de comportamento complexo, como por exemplo, a depressão. Ok. Eles realmente estão querem dizer o que eles escrevem? Pois eles escrevem coisas do tipo: "o comportamento 'X' está estabelecido (ou 'hard-wired', como diriam os descartianos digitais) no cérebro humano pois é observado em humanos em todo o globo terrestre, logo, esse padrão foi em alguma medida selecionado". Reducionista? Ingênuo? Fatalista? É o que parece.

O exemplo da depressão é real. Em um artigo de 2009 (Andrews & Thomson, 2009), os autores argumentaram que a depressão é adaptativa, em alguma medida, pois possibilita que o sujeito pare e pense sobre os seus problemas, isolando-se do resto do mundo para se concentrar no problema em questão. Ok... Diferente. Plausível. Mas, e as evidências? Nada que preste.

Como apontado por Schlinger (1996), as evidências da Psicologia Evolucionistas são bastante frágeis, pois são baseadas quase que exclusivamente na lógica evolucionista (o tipo de lógica utilizada no exemplo da depressão dado anteriormente), o que não passa de especulação. As outras fontes de "evidências" da Psicologia Evolutiva residem na comparação anedótica entre diferentes espécies (isso mesmo, à lá Romanes e Morgan!); e em dados estatísticos que não provém de um método experimental (leia-se: questionários e outros instrumentos que precisam de estatísticas avançadas para fazer algum sentido), o que produz no máximo frágeis correlações.

Estes três pontos são bases bastante perigosas para sustentar qualquer tipo de teoria, e podem ser facilmente atacadas e desacreditadas, como já foram, repetidas vezes. A especulação e a lógica evolucionista geram hipóteses intrigantes, como a do "lado positivo da depressão", e outras mais meigas, como a hipotése da biophilia (Wilson, 1984). Entretanto, não podem ser mais do que são: especulações. A arqueologia e a antropologia já deixaram bastante claras as inconstâncias desse tipo de especulação: a cada novo achado, inúmeras teorias tem de ser revistas. A teoria é necessária, mas precisa ter alguma base factual. Para a antropologia e arqueologia, há fósseis e demais achados arqueológicos. E para a Psicologia Evolucionista? Comportamento não fossiliza, é impiedosamente efêmero.

O brilho já vai se perdendo, mas não para por ai. Um artigo publicado na Scientific American (Bueller, 2009) chama a atenção pelo título: "Quatro falácias da Psicologia Evolucionista Pop" (Four Fallacies of Pop Evolutionary Psychology). Nele, o autor ataca, sem medo de ser feliz, toda a base da lógica evolutiva para o comportamento humano. Não vou estragar o delicioso texto fazendo meus comentários sem graça, no entanto, deixo-o na íntegra para a leitura de quem se interessar. Segue o Link: http://ow.ly/215Q0

Bom, pelo menos o texto dá uma dica: essas são as falácias da Psicologia Evolucionista Pop! O ramo Pop da área, segundo o autor, inclui Steven Pinker e outros figurões. O que indica, para os mais otimistas, que talvez ainda haja esperanças em alguns laboratórios quase-esquecidos pelo mundo a fora.

ResearchBlogging.orgDe qualquer forma, parece que a Psicologia Evolucionista ainda não é a panacéia decisiva para as antigas questões psicológicas. A evolução é fato, para os organismos. Sua unidade de seleção é, por maioria de votos, o gene. Genes sozinhos dificilmente (eu diria nunca) codificam comportamentos complexos específicos. Falta à Psicologia Evolucionista (dita Pop) a maleabilidade da aprendizagem, pois parece que em seu percurso, pouco ou nada foi aproveitado de toda a gigantesca literatura sobre o poder da aprendizagem (ontogênese, para os íntimos) permeada pela nossa tão querida, vasta e variável cultura humana. Explicações socio-culturais, nesses casos, são bem mais parcimoniosas do que explicações que remontam à ambientes ancestrais especulativos, na tentativa de explicar ocorrências de comportamentos complexos invariavelmente multideterminados.

Obs.: Atente que o conteúdo que o autor aqui apresentou não foi avaliado por seus pares. O que caracteriza tudo como um mero exercício de crítica e mau humor. Note também que não há desmerecimento algum à teoria da evolução, uma das maiores conquistas da ciência. Há sim um ceticismo quanto ao empréstimo exagerado, e carente de evidências, desta teoria pela Psicologia (que por sinal, tem um longo histórico de importações de modelos de outras ciências, em sua maioria mal sucedidas).

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Bibliografia

Andrews, P., & Thomson, J. (2009). The bright side of being blue: Depression as an adaptation for analyzing complex problems. Psychological Review, 116 (3), 620-654 DOI: 10.1037/a0016242

Buller, D. (2009). Four Fallacies of Pop Evolutionary Psychology Scientific American, 300 (1), 74-81 DOI: 10.1038/scientificamerican0109-74 [PDF]

Schlinger, H. D. Jr. (1996). What is wrong with evolutionary explanations of behavior Behavior and Social Issues, 6 (1) [PDF]

Wilson, E. O. (1984). Biophilia: the human bond with other species. Cambridge, MA: Harvard University Press [Compre na EstanteVirtual!]
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Outras referências que evocaram o texto

Rose, C. (2000). Genetic risk and the birth of the somatic individual Economy and Society, 29 (4), 485-513 DOI: 10.1080/03085140050174750 [PDF]

Ortega, F., e Vidal, F. (2007). Mapeamento do sujeito cerebral na cultura contemporânea. R. Eletr. de Com. Inf. Inov. Saúde, v.1, n.2, p.257-261. [PDF]

Uttal, W. R. (2000). The war between mentalism and behaviorism: On the accessibility of mental processes. Lawrence Erlbawn publishing. USA.

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Update I:

Richard Dawkins, na contramão de toda a veiculação jornalística da falta de aplicações médicas do sequenciamento do genoma humano: http://richarddawkins.net/audio/483182-age-of-the-genome-episode-1

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Update II

Encontrei um livro que faz uma forte crítica ao reducionismo genético. Escrito por uma bióloga e um jornalista (que escrevem como behavioristas). Fácil e excelente leitura, que recomenda o tempo inteiro o duplo olhar, igualmente atencioso, para a os genes e para o ambiente. Segue a referência.

Hubbard, R., & Wald, E. (1993). Exploding the gene myth. Boston: Beacon Press. [Prévia no GoogleBooks]

Apesar do título chamativo (afinal, tem um jornalista envolvido), o livro versa uma discussão bastante parcimoniosa.
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Update III

Post sobre os resultados de um estudo em larga escala que não encontrou nenhuma relação significativa entre genes e personalidade: Bad News for Genetics of Personality, do blog Neurocritic.

Vale notar que entre os estudos que indicam correlação e os que não indicam correlação alguma, sobra somente a incerteza. Pragmatismo zero.
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Update IV

Adaptar e esclarecer. Em virtude dos comments, devo esclarecer que a idéia do texto não é desmerecer nem a teoria da evolução nem a psicologia evolucionista, mas sim, criticar a forma como são feitas conclusões absolutas sobre a determinação do comportamento humano nas duas áreas. O texto não é uma alusão da invalidade de nenhum dos pontos apresentados, mas sim um pedido. O pedido é: ao traçar conclusões, olhe para o contexto completo, levando em conta três níveis, filogenético (biologico, evolutivo), ontogenético (psicologico, história de vida) e cultural (social e demográfico). É um pedido de integração, não de exclusão. Se o texto por vezes parece querer dizer mais do que isso, é em virtude de se tratar de um texto de blog, e não de uma revista científica indexada e analisada por seus pares.
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Update V

Trecho que descreve bem a idéia do post:

"Suppose that instead of being about morality and why people find certain things morally good and bad, this article had been about sweetness, and why people find certain things sweet and certain things sour. The Humean-Darwinian would have argued that humans have an evolved digestive system that distinguishes between good and bad sources of nutrition and energy; and that the human ‘sweet tooth’ is an evolved preference for foods with high sugar-content over foods with low sugar-content. If one accepted this premise, it would make no sense to complain that evolution may have explained why humans find certain things sweet, it cannot tell us whether these things are really sweet or not. It follows from the premises of the argument that there is no criterion of sweetness independent of human psychology, and hence this question cannot arise.
Of course, one may object to the premise, and claim that there really is such a thing as sweetness that human psychology is latching on to. But then this would be a different argument. One would have to make the case for an independent criterion of sweetness, and not merely assume it." [Curry, O. (2006). Who’s Afraid of the Naturalistic Fallacy?. Evolutionary Psychology, 4, p.242.]

O post foca justamente nesse "different argument", que como os críticos da área apontam, são recorrentemente negligenciados na literatura especializada (negligenciado inclusive no artigo da citação, na medida em que o autor levanta a importância desde nível de análise, ontológico, e não diz nada sobre como ele é, ou como deve ser feito). Como o autor da citação deixa claro, e eu concordo, esta negligência não invalida a área. Entretanto, a "realidade psicólogica" deve ser levada em conta, caso a idéia seja de uma explicação completa do comportamento humano. Neste ponto, se você quiser entender a realidade psicólogica de uma forma científiica (sem incorrer na chamada falácia anti-naturalista, que ocorre quando eventos psicológicos são de origem sobre-natural, não-filogenética), as vertentes tradicionais da psicologia experimental (humana, e especialmente não-humana) são uma ótima literatura. Essa é a conclusão do post.
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48 comentários:

  1. Claro que comportamento pode se fossilizar! Foi o que aconteceu ao menos com a produção de ferramentas nos últimos milhões de anos, de tradições de Homo erectus às tradições de neandertais e sapiens.

    Você está fazendo, neste artigo, algo que se aproxima de uma falácia de generalização: tomando a parte como representativa do todo.

    É claro que há carência de evidências para afirmações ousadas de que a depressão seria adaptativa.

    Mas o problema não é da psicologia evolutiva, mas do pesquisador adaptacionista.

    O programa adaptacionista, tema clássico de discussões de filosofia da biologia, deve ser sempre colocado numa caixa com os avisos "este lado para cima" e "manuseie com cuidado" - Ernst Mayr respondeu brilhantemente a Gould e Lewontin sobre como manusear com cuidado o programa adaptacionista.

    As dificuldades da psicologia evolutiva são encontrar que partes - endofenótipos - da mente são, de fato, resultado de mecanismos evolutivos como os conhecidos na biologia molecular. A seleção natural é a escolha mais à mão porque parece ser o mecanismo evolutivo mais importante e está aí desde Darwin em seu "A expressão das emoções", no qual Darwin fazia o mesmo tipo de racionália que você está generalizando e condenando aqui.

    Você diz, na chamada do seu blog, que nomes não importam. Eu concordo: os nomes "psicologia evolutiva" ou "ciências cognitivas" ou "antropologia física" pouco importam.

    Mas, se você de fato valoriza a teoria da evolução como diz e como deveria, sabe que cronologicamente nossos comportamentos e nossa mente vieram tarde na história da vida, ou seja, têm antecedentes ontológicos que não podem ser descritos em termos que envolvam, em seu cerne, comportamentos e mentes.

    Isso está em pleno desacordo com sua recomendação de se aferrar à metodologia psicossocial para falar de comportamento e mente humanos. É, na verdade, uma recomendação de circularidade frente ao fato de comportamentos e mentes terem vindo de entidades anteriores que não eram nem comportamentos nem mentes em espécies animais ancestrais na linhagem humana.

    A psicologia evolutiva tem a seu favor ao menos a verossimilhança em explicações sobre por que hoje estamos tão gordos, ou então como funciona a aversão virtualmente universal ao incesto, tudo em termos de ambientes ancestrais e mecanismos evolutivos.

    Como, afinal, explicaríamos a compulsão pelo armazenamento de gordura tal como estatisticamente descrita, ou mesmo o tabu do incesto, em termos ingênuos de condicionamentos?

    Estou com aqueles que dizem que o behaviorismo skinneriano como programa de pesquisa já se degenerou. Posso estar errado, mas é verossímil, dado que comportamentos como estes são dificilmente explicados nos termos internalistas e dogmáticos da tabula rasa.

    Como eu já disse, parece circular, dado o estado de conhecimento sobre nossa história, recomendar que os investigadores das origens do comportamento fiquem estagnados em descrevê-lo a partir dele mesmo e não apelando para ancestralidade, genes, ambientes verossímeis das eras do gelo e savanas africanas.

    Estou com Tooby e Cosmides e não abro mão, ao menos que você possa me dar um motivo realmente plausível para ignorar a evolução no estabelecimento de ao menos parte relevante da mente humana.

    Abraço,
    Eli

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  2. Eli,

    Um evolucionista defendendo o criacionismo na psicologia? Darwin racharia o bico disso =)

    Condenar o behaviorismo radical como programa de pesquisa e defender o cognitivismo é postular um agente iniciador do comportamento, como deus era para as espécies. Colocando a seleção (filogenética, ontogenética e cultural) na equação, a gente não precisa mais do agente iniciador, assim como a seleção natural tirou deus da explicação sobre as espécies...

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  3. Anônimo: eu disse "provolone" e você entendeu "bicicleta roxa".

    Desconheço o que você chama de "seleção ontogenética", exceto se você tiver se referindo a seleção clonal de imunoglobulinas ou ainda à hipótese do darwinismo neural de Edelman.

    Enfim, o resto não tenho nem como responder, achei seu comentário apenas confuso. Abraço.

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  4. O Anônimo de confunde ao achar que a defesa do Eli é do cognitivismo e se confunde ainda mais ao achar que o cognitivismo pretende explicar o comportamento como os behavioristas, uma equação contendo início (não importando aqui onde ele se iniciaria), meio e fim (ou novo início). Não é por aí, meu querido.

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  5. (meu post acabou sendo divido) Para o Eli, a "seleção ontogenética" seria o que não-psicólogos chamariam de - simplificando muito! - "repertório formado a partir de respostas reforçadas em decorrência de certas contigências com que o indivíduo se deparou durante o seu desenvolvimento.". Mais ou menos por aí.

    O Anônimo por achar que você está defendendo uma teoria a qual ele não entende e chama de "criacionismo da psicologia" acaba por defender de que o behaviorismo seria o semelhante ao evolucionismo para tal criacionismo. Ingenuidade.

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  6. Hernando e Eli,

    o que é comportamento pra vcs? como ele é determinado?

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  7. "Porque eu não sou um psicólogo cognitivista" de Skinner: http://www.rebac.unb.br/vol3_2/rebac_skinner_2007.pdf

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  8. O famoso artigo de Skinner escrito antes da década do cérebro e do advento dos mais modernos exames de neuroimagem. Skinner não entendia nada de neurociências e psicologia cognitiva, normal, como todo behaviorista (também não sacava muito de filosofia da ciência, normal again).

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  9. Wow! Adorei os comentários! Dá pra fazer um simpósio em cima disso, hehe.

    Então vamos lá. Concordo com grande parte do que o Eli disse acima, mas não tudo, então, vamos debater!

    Começarei pelo comportamento fossilizado. Entendo e aceito muito bem quando Dawkins diz que a inferência científica é um caminho certamente válido e proveitoso. Entendo que é possível dizer, com determinada licença poética, que o comportamento se fossilizou ali, naquela ferramenta. Mas o que está lá, não é o comportamento, é a ferramenta. Os modos pelos quais a ferramenta foi construída, seus usos, seu papel social, isso tudo, é inferência. Me lembrei agora de uma notícia recente de que haviam descoberto um "vibrador das cavernas", um pedaço de pedra ou coisa parecida com formato fálico. Alguns poucos céticos pediam mais serenidade nas investigações acerca da sexologia das cavernas. Uma das poucas notícias que tratou do achado com sobriedade, sem chamar o objeto de vibrador e dai tirar piadinhas manjadas, foi este http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/4713323.stm
    Nos demais, incorre a elucubração sensacional, daquelas que incomodam até os céticos mais amadores.

    Artefatos arqueológicos dão sim pistas sobre tradições. São pequenos indícios do que ocorria naquele local em determinada época. São ricos exemplares, que em grandes números, dão uma boa idéia geral de como era a vida naquele momento. Entretanto, um martelo não é uma martelada. Fora essa ressalva, gostei bastante da 'chamada de atenção' para os registros fósseis de ferramentas e coisas do tipo. Não concordo plenamente que um objeto de pedra, com história reconstruída por inferências, seja um comportamento fossilizado, mas admito que talvez minha ênfase no 'impiedosamente efêmero' tenha sido exagerada.

    Também concordo que Skinner morreu e seu programa de pesquisa é defasado (ninguém mais estuda esquemas de reforçamento como Skinner estudou). Também concordo que o condicionamento não é uma explicação (é uma técnica). Entretanto, a Análise do Comportamento é uma empreitada que vai muito além de Skinner. Uma empreitada que claramente se aprimorou bastante desde a morte de seu pai até hoje. Tudo pautado no mais belo método experimental. A grande quantidade de periódicos especializados na área e as muitas conquistas na aplicação tecnológica da área são dados claros. Hoje em dia, nenhum analista do comportamento explica algo por condicionamento. O que explica o comportamento é a seleção por suas consequências. Nesse ponto, não há nada de defasagem. Trata-se de um modelo de vanguarda. Um dos poucos modelos não-mecanicista do comportamento. Bons filósofos já apontaram isso (Moxley e Abib, por exemplo).

    Dizer que a abordagem Skinneriana se defasou é tão verdade quanto dizer que o Darwinismo analógico (pré-genética, aquele do 'blending') é defasado. A sorte foi que muitos compraram a idéia inicial e a aperfeiçoaram a partir de novos dados.

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  10. As demais críticas quanto a circularidades e negacionismos biológicos não procedem. O modelo de seleção por consequências de maneira alguma postula algo como uma tabula rasa, e muito menos nega a base filogenética do comportamento. Entretanto, ele é honesto o suficiente para admitir que a filogenia é a base, e nada mais. A determinação biológica, genética e anatômica é inegável. Sua construção via processos evolutivos são levados em conta sim, em todos os casos. Entretanto, somente isso não explica os motivos da ocorrência de uma unidade de comportamento específica. Sim, por motivos filogenéticos podemos adquirir camadas e mais camadas de tecido adiposo. Inegável. Agora, isso nunca vai explicar porque um indivíduo específico, numa cultura específica, em uma condição de vida específica é gordinho, e o vizinho dele não é. A diferença é sutil, e está nas diferentes condições de vida de cada sujeito. Há casos mais gritantes, como a diferença de uma criança da Etiópia e uma criança Norte Americana regada a McDonalds. Tanto as ricas camadas adiposas quanto a subnutração tem os resultados que tem devido há história de nossa espécie, entretanto, a mera possibilidade de ocorrência não explica de forma alguma sua causa. A filogênese dá a base, dá a possibilidade. É necessária. Entretanto, a ontogênese é o caso específico (a seara do psicólogo).

    A ontogênese é a tão querida 'multideterminação' bem vista nas explicações biológicas. É a interação organismo-ambiente. Nenhuma história de vida (ontogênese) ocorre descolada da história da espécie (filogêsene). No caso humano, ainda há uma outra camada, a camada do tempo e local onde dado comportamento ocorre (cultura). É nesse ponto que nós, do lado da ontogênese temos de 'manusear com cuidado' e nunca esquecer da filogênese. Isso a Análise do Comportamento faz muito bem, com o modelo de seleção por consequências (muito aquém do condicionamento). Meu post é uma recomendação para os especializados em filogênese, que devem tomar a mesma precaução. Eu pessoalmente nunca vi uma boa explicação do que seria esse 'multideterminado'. Simplesmente é relegado ao ambiente parte do processo, mas nada dele é apresentado. É uma saída fácil, óbvia e mágica, e que justamente por isso, acaba dando vazão às inferências sensacionais. Analista do Comportamento nenhum (nun mundo intelectualmente ideal) rejeita ou nega que fazemos o que fazemos por determinações biológicas, evolutivas. Entretanto, assim como isso é claro, também é claro que só isso não explica ocorrência comportamental discreta alguma. Me lembra a velha polêmica da infidelidade. A argumentação clássica é que homens, por questões filogenéticas, são mais propensos à traição do que as mulheres. Entretanto, as excessões são tão frequêntes quanto a prescrição. Que validade tem uma afirmação tão relativa como essa? Qual a vantagem de se postular um homem vulgar imaginário e mulherengo sem se investigar quais condições ambientais 'disparam' esse perfil? Pior ainda (para deleite dos filósofos), onde fica esse homem dentro do homem? Nos genes? No cérebro? Eu aposto que ele fica nas inferências.

    Estou relendo o belíssimo Macaco Nu, de Desmond Morris. É impressionante ver a quantidade de comportamentos do homo sapiens vulgar nos quais ele conseque achar uma base em nossos ancestrais. É igualmente impressionante conferir o tanto de afirmações que hoje são desconcertantemente erradas a luz de novos achados (em especial da psicologia animal). O livro é da década de 60.

    Para fechar, concluo que a dica foi dada por ambos os lados da trincheira. Na biologia, a dica está no 'multideterminado'. Estude o ambiente, as causas proximais. Na Análise do comportamento, a dica fica na filogênese, atrelada ao modelo de seleção pelas consequências, estude a história da espécie, seja molar. Essa é a figura completa (até então!).

    Agradeço os comentários, e se possível, aguardo mais!

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  11. Devo dizer que Karl Lashley foi um behaviorista que entendia muito de neurociência! Também acho que os muitos behavioristas fundadores e mantenedores de programas de pós graduação em neurociência também devem saber alguma coisa, assim eu espero, hehe! Quanto ao Skinner, é verdade que ele realmente nunca estudou um cérebro.

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  12. Sobre a célebre acusação de que cognitivismo é o criacionismo da psicologia, deve ser dito que o cognitivismo ai tratado é o cognitivismo da primeira geração! É o cognitivismo que utilizava a metáfora direta do computador. Da mente como sofware, do homem-máquina-racional, produzido pelo processamento único (ainda não tinham inventado computadores com múltiplos processadores!). Esse cognitivismo já morreu, e foi enterrado pelo paradoxo computacional (cf. A nova Ciência da Mente, de Gardner e Mente, Cérebro e Cognição de Teixeira). Esse cognitivismo foi uma ficção científica, e hoje está tão bem sepultado quanto o behaviorismo que se limitava ao rato e a barra.

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  13. Pra finalizar, comportamento é uma interação entre um organismo e seu ambiente (imediato e histórico), que é determinado em três diferentes níveis de análise: o filogenético (história da espécie), ontogenético (história de vida do organismo) e cultural (seus determinantes sociais, de acordo com quando e onde o comportamento ocorre). Todo comportamento humano tem de ser avaliado nos três níveis, e todo comportamento é selecionado pelas suas consequências (novamente, filogenéticas, ontogenéticas e culturais). Nenhuma instância comportamental pode ser explicada adequadamente olhando somente para um nível de análise.

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  14. A conversa por aqui está muito interessante mesmo. Vou me intrometer.

    Eli,

    Concordo quando você diz que o problema é o pesquisador adaptacionista e não a Psicologia Evolutiva. Creio que o que meu amigo Hernando quis cutucar com seu post foi a postura ingênua em algumas publicações "Pop" (daquelas que são notícia na Folha Online) com inferências absurdas, pautadas mais na apelação analógica do que em dados correlacionados, que também não é uma opção necessariamente confiável de explicação de qualquer coisa que seja.

    E não entendi algumas coisas que você disse.

    "É, na verdade, uma recomendação de circularidade frente ao fato de comportamentos e mentes terem vindo de entidades anteriores que não eram nem comportamentos nem mentes em espécies animais ancestrais na linhagem humana."

    O que, exatamente, são essas "entidades anteriores"? O que seria antecessor ao comportamento? (e isso deve depender do que você está chamando de comportamento)

    Outra coisa: fiz uma leitura diferente do que você falou sobre comportamento fossilizado. Meu amigo entendeu que você quis dizer que fossiliza por causa dos vestígios arqueológicos, eu entendi que porque nós fazemos ferramentas até hoje. São duas coisas distintas, bem como é distinto o que o Hernando disse. Ele disse que comportamento não vira fóssil como restos de animais porque os animais são coisas, já o comportamento é um processo, não podemos pegá-lo, guardá-lo e logo, ele não pode ser preservado como uma coisa. Esse é o grande problema de se falar de comportamento no ambiente ancestral: não podemos observá-lo e nem há quem tenha sido testemunha e possa nos relatar como era.

    Outro ponto:

    "Posso estar errado, mas é verossímil, dado que comportamentos como estes são dificilmente explicados nos termos internalistas e dogmáticos da tabula rasa."

    Internalistas e dogmáticos da tábula rasa? Isso não é Behaviorismo Radical, não é a proposição de Skinner e menos ainda é Análise do Comportamento contemporânea. A evolução não é ignorada, pelo contrário, é ponto de partida. Não é à toa que é dito que comportamento é uma relação entre ORGANISMO e ambiente. Antes de mais nada, existe um organismo, que pertence a uma espécie e carrega consigo uma história filogenética, assim como cada organismo é diferente do outro prioritariamente pela sua genética. Entretanto, a genética faz o organismo mas não faz o comportamento. Aí que entra o ambiente que modifica esse organismo constantemente. É nessa modificação que vemos o comportamento.

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  15. Um último comentário, sobre o incesto.

    O incesto existe no mundo animal não-humano, e entre os humanos também. Ao invés de fazermos uma análise fechada na história evolutiva de nossa espécie, que tal fazermos uma análise da história social do incesto, com o devido papel da biologia nela? Desconheço o motivo pelo qual cães podem ter filhos normais dentro da reprodução entre consaguíneos e nos seres humanos, frequentemente, isso resulta em problemas como o ananismo. Veja bem, o tabu do incesto, pelo que me consta, vem do povo judeu (possivelmente veio do povo hebreu) e outras culturas (não a egípcia). Essas culturas, na falta de uma filosofia desagregada à crença em deuses (ou de um deus único), tinha sempre a mesma explicação para tudo de "ruim" que acontecia: é castigo de deus porque pecamos. O incesto é o mesmo caso da carne de porco. Sem o devido saneamento, comer porco e jogar os restos ao redor atraía pragas e isso causava doenças. Mas como saber a relação direta entre esses eventos? Mais fácil era explicar que deus não queria que os judeus comessem carne de porco. E eles não comem até hoje. Por que? Porque assim se passa esse conhecimento de pais para filhos. Além disso, dois irmãos podem ter sido criados separados e envolver-se sexualmente sem saber do incesto. Eles não se reconhecem como irmãos biologicamente. O incesto é um tabu cultural, com origens biológicas cuja interpretação foi deturpada em algum momento da história. Há ainda o incesto em que as pessoas sabem o que está acontecendo. Quantos casos vemos na tv de pais biológicos abusando de suas próprias filhas? Ah, mas ele é um psicopata! A moda psi ultimamente deu de justificar a falta de educação para se viver em sociedade e a criminalidade com mil patologias...

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  16. De qualquer modo, seus comentários foram muito pertinentes à polêmica do tema. O limiar entre o biológico, o pessoal e o cultural é realmente difícil de estabelecer quando estamos lidando com a vida real, fora do recorte das ciências em sua abordagem teórica e experimental. Sabemos que não estamos jogados no nada e que não viemos do nada. Sabemos que coisas estão acontecendo conosco e à nossa volta. Resta às ciências (no caso os cientistas) tomarem o cuidado de não se perder na especialização cega em seu recorte e deixar de dialogar com as outras. Precisamos dialogar porque não podemos estudar só a NOSSA parte do homem, temos que lembrar que ele é inteiro e só assim funciona. Ainda bem que aqui estamos nós, dialogando.

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  17. Sobre a tábula rasa (que não se aplica ao Behaviorismo Radical), ver:

    Carvalho Neto, M. B. (1999/2001). Fisiologia & Behaviorismo Radical: considerações sobre a caixa preta. In: Kerbauy, R. R., & Wielenska, R. C. (Orgs.), Sobre Comportamento e Cognição: psicologia comportamental e cognitiva - da reflexão teórica à diversidade na aplicação (pp. 262-271). Santo André: ESETec.

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  18. Não tive condições de ler todos os posts de comentários, então vou comentar só o post central.

    Sou de formação analítico comportamental e trabalho com a psicologia evolucionista atualmente. Começo dizendo que acho muito complicado, para não dizer arrogante, criticar uma área de pesquisa sobre a qual, NITIDAMENTE, você tem parcos conhecimentos.

    Primeiro de tudo, dizer que o projeto genoma morreu ou fracassou é no mínimo ingenuidade. A idéia de que genes determinam pontualmente comportamentos complexos realmente não faz sentido algum, mas resumir um projeto tão ambicioso e importante a isso é pura ignorância. Um dos principais focos e conquistas deste projeto é a medicina.

    Dizer que mente significa o repertório verbal é um erro muito grave. Não posso pegar um conceito usado em uma área, interpretá-lo como em outra e então mostrar os erros. Simplesmente não faz sentido. Fora que muitos analistas do comportamento também descordariam dessa simplificação exarcebada.

    A psicologia evolucionista não afirma que um comportamento está "hard-wired" porque aparece em todo o globo. Isso é super-simplificar demais os estudos realizados. O uso de dados estatísticos é significativo na psicologia evolucionista mas não resume toda a metodologia da área. Lembro ainda a relação com outras áreas, não só a sociobiologia, mas a etologia, a ecologia comportamental etc.

    Esse texto só me ressalta o quanto a AC perde ao agir de forma belicista e com críticas infundadas. Os laboratórios "esquecidos" de psicologia evolucionista estão crescendo, pois dialogam com diversas áreas, das ciências sociais às exatas. A AC produz conhecimentos maravilhosos que só são lidos por aqueles que nela trabalham.

    Lamento muito ler esse tipo de texto que se apresenta como fundamentado e é tão vazio.

    Acho que a ciência ganha muito mais com a construção do conhecimento de forma crítica, e não com a criação de rixas e acusações.

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  19. MAIS UM QUERENDO SER POP AS CUSTAS DE UMA POLÊMICA INFUNDADA, COMO TODOS OS OUTROS QUE A SELEÇÃO NATURAL NÃO FAVORECEU COM O TRAÇO CRIATIVIDADE !! :D

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  20. @Line Beck

    Ciência é feita com debate, então: não disse que o projeto genoma falhou, falei apenas de uma, até então, falsa promessa criada em cima dele; não disse que mente é equivalente a comportamento verbal; não afirmei que toda a psicologia evolucionista, sem possibilidade de excessão, aposta na ortodoxia 'hard-wired'.

    O texto não é fundamentado, pois é um comentário. A polêmica existe, está nas referências e nas referências das referências. Não adianta fechar os olhos.

    Concordo que a crítica do post não se aplica a toda psicologia evolucionista. Também concordo com alguns pontos levantados sobre o provincianismo da AEC. Agora discordo, da possível conclusão, que o diálogo deve ser feito evitando a crítica (sem crítica não há nem motivo para resposta).

    A idéia é debater e construir, em cima da crítica e da metacrítica.

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  21. Concordo com a Aline, principalmente quanto ao fato de vcs não saberem nada sobre aquilo que estão criticando, parecendo meros propagadores de opiniões populares. Essa crítica desconhecida esta mesmo na moda....

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  22. @Vivi

    Na moda está, tem até entrada na wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Evolutionary_psychology_controversy


    Este blog não é o primeiro e único a apresentar esta crítica. A lista de referências está ai, e com links para acesso. Ora, trata-se de uma área históricamente controversa, por que tanta aversão a crítica e ao debate?

    Se a crítica é tão equivocada e infundada assim, peço, por favor, esclarecimentos.

    (Em razão dos comments anteriores, foram adicionados no post os Update IV e V)

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  23. É por essa e outras que fico com a frase: "A ignorância é que atravanca o progresso", neste caso o da ciência.

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  24. Boas a todos.

    Antes de discorrer a respeito de Psicologia Evolucionista, assunto principal do post inicial de Hernando, gostaria de escrever o mais sucintamente possível (se assim eu conseguir) sobre o "Homem genético" e o "homem cérebro".

    Concordo com Hernando quando ele afirma que estas expressões decorrem de concepções que nascem (friso: nascem) nas ciências biológicas. Ainda assim, possuo séria discordância quanto à afirmação de Hernando de que tais expressões representem sou sejam “grandes apostas das ciências biológicas”. Esta asserção é falaciosa e procede, até onde meu conhecimento me permite afirmar, principalmente de três fatores, sendo um científico e os de mais desgraças: (1) pelo menos um século de pesquisa químico-biológica a respeito da “descendência” (hereditariedade) e outro século de estudos sobre a relação encéfalo-comportamento; (2) do desapreço, descaso e desconhecimento crescentes no meio científico quanto às influências e produções históricas das disciplinas científicas e das bases filosóficas das mesmas (incluindo aquelas nas quais o dito “cientista” realiza seu trabalho); e (3) das malditas distorções do conhecimento científico experimental-teórico acumulado que ouvimos, vemos e lemos diariamente em nossa sociedade ocidentalizada, incluindo-se “cientistas” como propagadores destas ojerizas.
    Todavia, só se entende isto quando se considera a Ciência pelo que ela é: uma atividade social humana como outra qualquer, logo sujeita e fomentadora de transformações históricas.

    Comecemos então pelo “homem genético” e tenhamos o discernimento de colocar isto em contexto histórico, já que pretensamente nos consideramos “contextualistas”. Antes, entretanto, gostaria de ressaltar que muito do que escrevo sobre este assunto está diretamente vinculado à história da Bioquímica (que venho estudando há mais ou menos dois semestres) ou, como Joseph S. Fruton refere, à relação entre Química e Biologia.

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  25. Quatro décadas separaram a publicação em 1859 de “On the Origin of Species by means of Natural Selection” por Charles Darwin e a redescoberta em 1900 dos estudos de Gregor Mendel (se bem me lembro, os estudos de Mendel aos quais me refiro são de 1865) pelos botânicos Carl Correns e Hugo de Vries. Neste ínterim, os trabalhos de Ernst Heackel, Carl Nägeli, Friedrich Miesch, August Weismann, entre muitos outros cientistas germânicos (principalmente estes), franceses e ingleses, tinham provido vislumbres sobre os possíveis processos pelos quais as propriedades morfológicas e fisiológicas das espécies biológicas são transmitidas dos genitores à prole.

    Ainda assim, a redescoberta e a interpretação dos estudos de Mendel diante do conhecimento citológico ganho até então reacendeu debates sobre as teorias (tais como a de Darwin e a Haeckel) que faziam a lincagem dos mecanismos de “descendência” e do desenvolvimento embrionário com a evolução biológica. O que emergiu disto tudo, ainda na década de 1910, foi uma teoria cromossomal da hereditariedade baseada na transmissão de unidades elementares (akin para Mendel, Biophore para Weismann ou pangens para Vrie).

    Da década de 1910 à de 1930, elucubrações a respeito da natureza dos cromossomos suscitaram novos debates. O conceito de genes já havia sido estabelecido e a síntese neo-darwiniana esta se concretizando, mas a relação cromossomos-cromatina havia sido obscurecida por discussões especulativas acerca da centralidade núcleo-citoplasma na citologia. Além disso, surgiam, se disseminavam e desapareciam, como “nuvens de gafanhotos”, proposições como a autocatalização gênica para propagação própria, o que só obscureceu ainda mais a pesquisa sobre a natureza cromossomica. Isto é devido aos resultados conflitantes obtidos em experimentos e, em verdade, a especulação bioquímica sobre a natureza dos genes não se centrou tanto na sua relação com a cromatina (assim nomeada por Walther Flemming em meados do séc. XIX) quanto na sua relação com as enzimas.

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  26. Por outro lado, a noção de progresso proveniente do neocolonialismo (batizada de positiva por Auguste Comte), que havia dominado o pensamento ocidental desde o segundo quartil do séc. XIX (a própria Teoria da Seleção Natural e a proposta Marxista do Materialismo Histórico-Dialético são herdeiros desta noção), ainda estava em voga na sociedade no início do séc. XX e já havia suscitado na genética a noção de eugenia, afincando em seu cerne o espúrio conceito de “raças humanas”. (Tal noção vinha sendo usada como justificativa sobre a superioridade da raça ariana e nórdica - os EUA tinham leis específicas quanto à redução de imigrantes provenientes do sul europeu, por exemplo, até meados da década de 1920; dos Estados Nacionais uns em relação aos outros nas disputas coloniais dos mesmos, bem como de projetos de “limpeza genética da sociedade”. Todavia, faz-se necessário dizer que a noção positiva de progresso e a própria eugenia não eram comuns somente à comunidade científica, mas à maioria das instituições de controle social e se configuravam, portanto, como fenômenos sociais mais amplos. Tanto é assim, que os movimentos de limpeza “gênica” são anteriores à eugenia em si e encontram expressão em alguns trabalhos de Karl Marx e fundamento anterior - não que lá existisse algum - no Trabalho de Thomas Malthus).

    Somente a partir de 1930-1940, o desenvolvimento mais profícuo do intercâmbio de dados e idéias entre as observações citológicas da morfologia cromossomal e dos experimentos de procriação (breeding experiments) trouxeram maior e mais interessante desenvolvimento à teoria genética que as especulações bioquímicas e eugênicas que dominaram o cenário científico até então. Em especial, devem ser citados os experimentos de Hermann Miller sobre mutação pelo tratamento do esperma de drosófilas com raio-X e, além disso, o uso das técnicas químicas e de espectrofotometria por outros pesquisadores que proveram dados quantitativos sobre o conteúdo nuclear (DNA) e sobre a localização da maior parte do RNA celular no citoplasma.

    Aliás, devo chamar atenção aqui para dois fatos históricos importantes para a Biologia e, no caso aqui tratado, para a genética. O primeiro diz respeito ao período que se estende entre a década de 1920 e a de 1940, durante o qual ocorre o grande êxodo de cientistas europeus para os EUA, especialmente dos cientistas germânicos (se não notaram, até aqui a maioria dos nomes citados são germânicos) considerados “subversivos” pelo Reich nazista. Este acontecimento firmou de vez nos EUA o modelo germânico de laboratório orientador-orientando(s) e trouxe ao Instituto de pesquisa Rockfeller (fundado em 1901, se bem me lembro) e para muitas universidades estadunidenses um corpo de pesquisa com um know-how de mais de dois séculos de pesquisa em Biologia, Química e Física.

    O segundo é o acontecimento do projeto Manhattan que desenvolveu as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Muitos dos cientistas que participaram no desenvolvimento da bomba de fissão, desiludidos com as conseqüências de suas pesquisas nesta área, mudaram de área de pesquisa e suma maioria deles rumou à biologia (inclua-se aqui Maurice Wilkins). Frente a isto, entre 1940 e 1970 há um boom no desenvolvimento e utilização variada de métodos físico-químicos altamente sofisticados em Biologia.

    Assim, não é de se surpreender que em 1953 James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins (sim, é o mesmo do projeto Manhattan) propusessem o modelo da dupla-hélice como a estrutura molecular do DNA e que, a partir desta proposta e das pesquisas subseqüentes, várias subáreas genéticas de pesquisa “aplicada” ou “pré-clínica” se consolidassem, principalmente a partir da década de 1970: Engenharia Genética, Bioinformática, História e Antropologia Genéticas, a “famigerada” Genética Comportamental, Genômica, Nanotecnologia de DNA e assim por diante.

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  29. Aliás, devo chamar atenção aqui para dois fatos históricos importantes para a Biologia e, no caso aqui tratado, para a genética. O primeiro diz respeito ao período que se estende entre a década de 1920 e a de 1940, durante o qual ocorre o grande êxodo de cientistas europeus para os EUA, especialmente dos cientistas germânicos (se não notaram, até aqui a maioria dos nomes citados são germânicos) considerados “subversivos” pelo Reich nazista. Este acontecimento firmou de vez nos EUA o modelo germânico de laboratório orientador-orientando(s) e trouxe ao Instituto de pesquisa Rockfeller (fundado em 1901, se bem me lembro) e para muitas universidades estadunidenses um corpo de pesquisa com um know-how de mais de dois séculos de pesquisa em Biologia, Química e Física.

    O segundo é o acontecimento do projeto Manhattan que desenvolveu as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Muitos dos cientistas que participaram no desenvolvimento da bomba de fissão, desiludidos com as conseqüências de suas pesquisas nesta área, mudaram de área de pesquisa e suma maioria deles rumou à biologia (inclua-se aqui Maurice Wilkins). Frente a isto, entre 1940 e 1970 há um boom no desenvolvimento e utilização variada de métodos físico-químicos altamente sofisticados em Biologia.

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  30. Assim, não é de se surpreender que em 1953 James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins (sim, é o mesmo do projeto Manhattan) propusessem o modelo da dupla-hélice como a estrutura molecular do DNA e que, a partir desta proposta e das pesquisas subseqüentes, várias subáreas genéticas de pesquisa “aplicada” ou “pré-clínica” se consolidassem, principalmente a partir da década de 1970: Engenharia Genética, Bioinformática, História e Antropologia Genéticas, a “famigerada” Genética Comportamental, Genômica, Nanotecnologia de DNA e assim por diante.

    Também é importante notar que em 1970, quando surgem mais claramente estudos genéticos do comportamento (a Behavior Genetics Associantion completa 40 anos em 2010), a Análise do Comportamento, enquanto sistema científico de estudo do comportamento, já estava em crise nos EUA e a “Revolução Cognitiva” estava “a pleno vapor” naquele país. E mais: a Etologia e a Ecologia comportamental vinham ganhando terreno na explicação do comportamento em situação natural desde a década de 1960 e já haviam se firmado em 1970-80 (Jane Goodall que o diga com a sociedade de chimpanzés de Gombe). Disto se tira quais foram os paradigmas científicos a respeito do comportamento que influenciaram (e que ainda influenciam majoritariamente) o projeto genético comportamental.

    Chamo ainda a atenção para o fato de que a Genética Comportamental ou Genética do Desenvolvimento, como queiram, é somente uma (se quiserem, duas: não vejo muita diferença) das muitas subáreas da genética e que uma (duas) subárea(s) sozinha(s) não responde(m) por toda a pesquisa realizada numa área, muito menos uma área responde por toda uma ciência. Se assim fosse, os estudos em genética de vírus, bactérias, fungos e drosófilas (dos quais genomas estão sendo mapeados) e os de mais dispares estudos genéticos realizados já teriam sido abandonados, o que não é o caso.

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  31. Ainda neste assunto, também é necessário dizer que o projeto genoma (prefiro “genoma” e não “genoma humano” porque os genomas de várias espécies estão sendo mapeados; se bem que Genômica fosse mais apropriado) é somente parte de toda uma trajetória (atentem a diferenciação de trajetória e tradição) de pesquisa celular que vem desde o séc. XIX, com a proposição da teoria celular por Theodor Schwann e Matthias Schleiden, e a qual está ainda muito longe de acabar. Se não houvesse diversidade, paralelidade e coadunação dos estudos celulares (os estudos de proteínas e enzimas, por exemplo, se iniciaram anteriormente ao do DNA e refletiram, refletem e refletirão sobre este, bem como sofreram, sofrem e sofrerão reflexão do mesmo), diria eu que o próximo passo é a Proteômica. Mas isto seria ingenuidade minha, pois a Proteômica já está aí há muito mais tempo que a Genômica, mas só agora ganha apelo midiático (novas distorções!!!).
    Por último, peço que notem que em momento algum eu neguei que falácias e bravatas sem sentido tais como a paridade gene - comportamento existiram e ainda existem em meios científicos de estudos biológicos, mais estritamente falando, e comportamentais. Só atento para o fato de que estas falácias foram na maioria das vezes pronunciadas por uma minoria científica - diria eu, inepta - mesmo dentro da genética comportamental, mas tiveram e ainda tem forte apelo midiático.

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  32. Agora, diante de tudo que foi exposto, eu pergunto: como o “Homem Genético” pode ser uma das “duas grandes apostas das ciências biológicas”, se a Genômica e a Genética Comportamental são estudos de partes ínfimas de algo certamente muito maior que até aqui, sem sabermos muito bem o que seja, viemos chamando capengamente de “o organismo como um todo”?


    Nota: No final do último post que farei, darei as referências de todos os posts. devo acrescentar que não possuo uma google account e por isto tenho aparecido como anônimo.
    Todavia, quem aqui escreve é Douglas Marques.

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  33. Passemos agora ao “homem cérebro”.
    O contexto histórico em que as Neurociências nascem é demais diverso para que seja melhor explicitado aqui e muito menos possuo eu conhecimento suficiente para tentar realizar tal exposição. Assim, o que posso dizer sobre o surgimento das neurociências é que entre séc. XVIII e XIX pelo menos cinco disciplinas científicas se coadunaram no estudo dos sistemas nervosos, principalmente do sistema nervoso central, e juntas embasaram (e até hoje embasam) as Neurociências: Bioquímica, Farmacologia, Anatomo-fisiologia, Embriologia e Psicologia. Logo, não me deterei sobre este assunto ou sobre todas as neurociências em si; deter-me-ei nos estudos neurocientíficos da “mente e do comportamento”: a Neurociência Comportamental. Ainda assim, devo ressaltar que esta explanação é, no mínino, superficial (tanto quanto a que foi realizada no post anterior) e que recomendo a leitura histórica mais minuciosa dos trabalhos realizados em neurociência comportamental.
    Ainda em meados do séc. XIX, as primeiras pistas sobre a relação entre o encéfalo (favor diferenciar encéfalo de cérebro: eles não são o mesmo conjunto tecidual) e o comportamento provieram do estudo de caso de Phineas P. Gage; dos estudos de Paul Broca e Karl Wernicke sobre afasia e dos estudos de Alouis Alzheimer, na década de 1910, sobre a Doença entitulada com seu sobrenome (da qual, aliás, possuo sérias dúvidas sobre a unidade patognóstica).
    Todos estes estudos compartilham uma natureza observacional de efeitos comportamentais radicais de lesões encefálicas - observadas post-mortem ou não - (este tipo de estudos ainda é realizado até hoje em dia e não desmereço os dados que eles nos trazem, apenas, com a exceção dos estudos de Luria, as conclusões que eles têm fornecido), o que mais que rapidamente deu ampla margem à interpretação de que no encéfalo, e especificamente no cérebro, haveria locis responsáveis por “atividades mentais” ou por “comportamentos específicos” (quem que estuda neurociências que, pelo menos, nunca ouviu falar da Frenologia?), visão esta proposta pelo próprio Broca: o localizacionismo restrito.

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  34. Este modelo de estudo em aliança com a Teoria dos locis encefálicos foi transportado ao laboratório em fins do séc. XIX e início do XX: animais experimentais tinham seus encéfalos lesionados em regiões específicas e então se observava as modificações comportamentais ocorridas em testagens, as quais muitas vezes eram oriundas de pesquisas psicológicas com humanos e animais, e concluía-se que aquela região lesionada era a responsável por dado comportamento afetado.
    Assim, esta interpretação manteve hegemonia até 1920-1930, quando os trabalhos de Karl Langley o levaram a propor sua teoria holística de “mass action”. Nesta proposição, o encéfalo como um todo seria responsável pelas operações “mentais” ou “comportamentais” específicas, sem haver para tanto especializações de locis (por ironia, os trabalhos de Langlay também originaram o mito popular de que só utilizamos 10% de nossa “massa encefálica” ou de nossa “capacidade mental”).
    Necessário dizer aqui que a tradição mentalista de explicação dos comportamentos era dominante no circulo de estudos científicos naquele contexto sócio-histórico e isto muito antes das neurociências aparecerem. Assim, quando se propõe no séc. XIX que o encéfalo mantém relação com o comportamento (encéfalo aqui entendido enquanto órgão que exerce controle, na falta de melhor vocábulo, sobre as atividades molares - atividades de outros órgãos e tecidos - de um dado organismo), rapidamente se atrela este órgão à mente. Se há uma desgraça que tem se abatido sobre a neurociência comportamental ao longo de toda a sua história é a falta de discussão sobre as conseqüências filosófico-epistemológicas que esta concepção tem trazido bem como sobre o aleijamento da própria tradição experimental da neurociência que esta tem gerado.

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  35. O embate foi fervoroso entre as duas teorias e só teria fim entre as décadas de 1950 e de 1960 por conta da utilização da técnica de estimulação intra-craniana. No ínicio dos anos de 1950, José M. R. Delgado aperfeiçoou esta técnica (Delgado, 1952) desenvolvida por W.R. Hess em 1932 (devo dizer que a II GM atrasou demasiadamente a utilização desta técnica) e a técnica foi utilizada em associação com paradigmas etológicos e de condicionamento clássico por Delgado, e em experimentos de condicionamento operante, elegante e pioneiramente realizados por James Olds e Peter Milner em 1962 e revisada por Olds em 1964.

    A técnica de estimulação intracraniana, aliada ao paradigma operante e ao conhecimento do funcionamento de fármacos no encéfalo abriu caminho na década dde 1960 à atual Teoria neurocientífica das redes neuronais e dos processamentos paralelo e seriado, a meu ver, a maior conquista conceitual das neurociências no séc. XX (não discorrerei sobre ela pois penso que os leitores deste blog já a conhecem).

    Mas aqui também o boom de metodologias físico-químicas na Biologia fez-se sentir: desenvolvem-se técnicas impressionantes como a microdiálise e a de registro múltiplo bem como as famosas técnicas de neuroimageamento (se não me engano, já existentes na década de 1950) aliadas à utilização de fármacos compostos de isótopos radioativos - e de outras que ainda desconheço -, todas já disponíveis para uso entre 1970-80.

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  36. Também na década de 1970, a crise da Análise do Comportamento teve conseqüências sobre a neurociência comportamental: a Teoria cognitivo-comportamental, cujas técnicas experimentais empregadas em modelos animais advêm majoritariamente da AEC, dominou rapidamente a neurociência comportamental (o que é compreensivo - não aceitável- diante de uma ciência que desde seu nascimento é engolfada por visões mentalistas). Em apenas uma década não se encontrava mais neurocientistas com “tendências” à Análise do Comportamento trabalhando em neurociências nos principais centros de estudo da mesma (aliás, o numero de Analistas trabalhando em neurociências sempre foi escasso). Assim, estava aberto terreno para despropósitos tais como a neuropsicanálise e teorias quânticas da mente (em 2004, li um artigo na Scientific American, edição de abril, se bem me lembro, que suscitava a possibilidade da mente residir nas atividades quânticas cerebrais, um absurdo completo que só poderia ser publicado numa revista cuja respeitabilidade decaiu, na minha opinião, desde a modificação de seu corpo editorial em fins década de 1980).
    Tudo isto eclode na década do Cérebro, assim chamada a década de 1990, na qual se pretendia acelerar o conhecimento acerca do encéfalo. Vale a pena dizer aqui que realmente o conhecimento acumulado a respeito do funcionamento do encéfalo e de sua relação com o comportamento é imenso até esta década (e maior ainda nesta que se finda). Mas também era já imensa a ignorância e o descaso dos neurocientistas, de maneira geral, quanto à história das neurociências, das disciplinas que a embasam e das filosofias, teorias e mesmo metodologias por trás de cada uma delas e, portanto, dos limites de emprego das mesmas (basta ler a literatura de modelos animais sobre abuso de drogas em neurociências para se ter uma vaga idéia disto).

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  37. Quer me parecer que este seja um problema contundente em toda a Biologia (para não dizer um problema contundente em toda a Ciência) e diria eu que talvez seja um dos pontos principais pelos quais os “entusiastas” da década de 1990 tenham proferido as neurociências como panacéia. Mas isto também tem haver com a mudança de foco ocorrida nestes últimos 50 anos quanto à forma e aos objetivos da construção do conhecimento científico: rápida e tecnológica, respectivamente, portanto mercadológica.

    Desta maneira, se há algum fundamento na asserção de Hernando quanto à expressão “homem cérebro” ser uma das “duas grandes apostas das ciências biológicas”, este fundamento só se encontra nos neurocientistas que anunciaram as neurociências como panacéia durante as décadas de 1990-2010 e no forte apelo midiático disto. Não vejo onde mais, diante do que foi exposto, possa haver embasamento para esta asserção.

    Por fim, gostaria de dizer que nenhum artigo neurocientífico sério que li realizou este tipo de divulgação. Se Hernando leu artigos neurocientíficos sérios em que tal alardeamento é realizado, eu, sinceramente, gostaria de obter acesso aos mesmos para revisar minha postura. Todavia, se a asserção do mesmo é embasada em revistas que, ao menos na minha opinião, se dizem de divulgação científica (aqui, no Brasil, possuímos Veja, Isto É, Super Interessante, Ciência Hoje e a edição brasileira da Scientific American) mas que não são ou em livros estilo manual de neurociência (neste estilo, até aqui, só respeito o Principles of Neurocience e mesmo este já está cambaleando) ou ainda em programas televisivos, então só tenho a lamentar por tal embasamento e formação de opinião.

    Cumprimentos.

    Douglas Marques.

    Nota: No final do próximo post, que farei amanhã ou depois, sobre o assunto principal, darei as referências de todos os posts.

    P.S.: Hernando, poderias me fazer o favor de apagar o quarto e quinto post que realizei? Devido à problemas de internet, estes posts são repetições do terceiro. Grato.

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  38. Woa! Que comentário completo! Estou sem palavras. Contextual e impecável. Um excelente levantamento histórico. Vou cobrar todas as referências possíveis, tem muita coisa que me interessou profundamente (sou um apaixonado por história da ciência, e tem uns nomes ao envolvidos que muito me interessam!).

    Então vamos lá.

    Realmente, você me pegou numa falácia! Não tinha visto dessa forma, mas, no global, o projeto genoma humano é realmente só uma pequena fração do empenho geral. Minha ênfase foi infundada e equivocada. Sua argumentação deixou isso bem claro. Obrigado pelo "insight" (seu comment contribuiu com um pré-requisito que faltava!).

    Quanto a década do cérebro: ela foi de fato um movimento de origem política. Foi lançada oficialmente quando um documento foi assinado pelo ex-presidente americano, George Bush. O documento traçava um plano de pesquisa americano (com parcerias internacionais) em grande escala, com financiamento maciço do National Institute of Mental Health e do National, National Institute of Neurological Disorders and Stroke e o Institutes of Health (espécies de Capes e CNPq de lá). E sim, encontrei muita referência direta, clara e precisa sobre "the decade of the brain" em diversos periódicos indexados e revisado por pares. Os do início da década de 90 são otimistas e de tom de alarde, os do meio da década são céticos e cautelosos, e os do início dos anos 2000 apontam sucessos e fracassos da investida. Alguns dos que conheço são:

    Jones, E.G. e Mendell, L.M. (1999). Assessing the Decade of the Brain. Science 30 April 1999:Vol.284. no. 5415, p. 739 DOI: 10.1126/science.284.5415.739 [ http://www.sciencemag.org/cgi/content/summary/284/5415/739 ]

    Herculano-Houzel, S. (2002). Do You Know Your Brain? A Survey on Public Neuroscience Literacy at the Closing of the Decade of the Brain. Neuroscientist,vol. 8 no. 2 98-110 [ http://nro.sagepub.com/content/8/2/98.abstract ]

    Lothman, E.W. (1999). Functional anatomy: a challenge for the decade of the brain. Epilepsia;32. [ http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1743169 ]

    Goldstein, M. (1994). Decade of the brain-An agenda for the nineties, In Neurology-From Basics to Bedside [Special Issue]. West J Med, 161:239-241. [ http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1011403/pdf/westjmed00061-0033.pdf ]

    Cacioppo, J. T. e Berntson, G. G. (1992). Social psychological contributions to the decade of the brain: Doctrine of multilevel analysis. American Psychologist, Vol 47(8), Aug 1992, 1019-1028. [ http://psycnet.apa.org/index.cfm?fa=buy.optionToBuy&id=1992-42900-001 ]

    Jessel, T.M. e Sanes, J.R. (2000). Development: The decade of the developing brain. Current Opinion in Neurobiology, 10(5). [ http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6VS3-41N57NK-D&_user=10&_coverDate=10/01/2000&_rdoc=1&_fmt=high&_orig=search&_sort=d&_docanchor=&view=c&_acct=C000050221&_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=c587cd173374dcb23e0d342eb8aa1f9b ]

    Laws, E.R.Jr. (2000). The Decade of the Brain: 1990 to 2000. Neurosurgery, Volume 47 - Issue 6 - pp 1257-1260 [ http://journals.lww.com/neurosurgery/Abstract/2000/12000/The_Decade_of_the_Brain__1990_to_2000.1.aspx ]

    BADDELEY, A. et al. (2000) The brain decade in debate: I. Neurobiology of learning and memory. Braz J Med Biol Res, vol.33, n.9, pp. 993-1002. [ http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-879X2000000900002&script=sci_abstract&tlng=pt ]

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  39. Não sei se alguns dos periódicos ai listados tem o índice "Veja" de desmerecimento-históricamente-estabelecido. Só conheço com intimidade a Science e a American Psychologist.

    Sob um olhar mais criterioso, realmente a literatura especializada é bem mais parcimoniosa do que a literatura de divulgação. Mas ainda assim, havia claramente uma aposta alta em jogo (dinheiro, muito dinheiro, e uma declaração presidencial).

    Agora, devo dizer que seu comentário me fez rever o que realmente eu critiquei nesse post. Talvez minha crítica nesses dois pontos (homens somáticos e cerebrais) tenha sido pertinente à literatura de divulgação, e não à literatura especializada (salvo algumas exceções, claro). Se este foi o caso, o erro foi grave. O que você acha? Vou ponderar, pesquisar e aguardar a continuação dos seus argumentos!

    No mais, agradeço pelo revigorante e precioso comentário.

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  40. Não concordo que o projeto genoma humana e o homem somático não foram uma grande aposta da ciência biológica. O PGH foi um dos projetos mais caros da história, e as ambições eram claras e as metáforas como "book of life" e "the holy grail" vinham dos próprios cientistas.
    Acho que foi um emprego científico heróico e de grande interesse político, sem interesses práticos a curto prazo, como pisar na lua.

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  41. Boas a todos.

    Anteriormente, quando da ocasião em que realizei a postagem acerca do "Homem Genético" e sobre o "Homem cerebral", havia me comprometido publicamente a realizar uma postagem ulterior sobre o assunto principal do post de Hernando e, além disso, de fornecer a bibliografia necessária às minhas afirmações na postagem antecedente.

    Infelizmente, não poderei realizar considerações quanto à Psicologia Evolucionista, pois o tratamento minimamente adequado do tema me demoveria demasiado tempo, o que agora, em vias de TCC, não possuo.

    Desculpo-me imensamente por tamanho transtorno e falta. Todavia, creio que o mesmo seja compreensível diante da complexidade contextual que se deve ter em relevância ao se tratar qualquer empenho social humano - incluindo-se aqui,obviamente, A(s) Ciência(s)-, atividade para qual não disponho, como já afirmado, de tempo.

    Ainda assim, antes de fornecer as bibliografias, sou compelido a realizar algumas considerações histórico-sociais quanto à postagens posteriores da inícial de Hernando e a realizar duas erratas referentes a afirmações por mim postas (o que muito me agrada, afinal todo e qualquer conhecimento só progride pela revisão de erros anteriores).

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  42. A primeira consideração é referente as afirmações de Rubilene realizadas no trecho citado a seguir:

    "Veja bem, o tabu do incesto, pelo que me consta, vem do povo judeu (possivelmente veio do povo hebreu) e outras culturas (não a egípcia)".

    Até onde meu conhecimento me permite afirmar, esta afirmação é, no mínimo, precipitada e ingênua. Na análise da mesma temos de considerar tanto o contexto sócio-histórico Hebreu quanto o Egípcio.
    A principal fonte acerca dos costumes que as Tribos de Israel possuíam no contexto histórico posterior ao de Moisés (infelizmente, processos mnemônicos deficientes me impedem de reaver a data mais exata) é o próprio Livro Sagrado desta cultura: a Torá. Bastará aqui olharmos para o Livro que no Pentateuco recebeu o nome de Gêneses. Pelo menos quatro passagens deste livro fazem referência ao incesto enquanto prática cultural: a passagem referente a Adão e Eva, já que Eva foi feita da “carne” (talvez “osso” fosse mais apropriado) de Adão; a passagem referente à tomada por Caim e Abel de suas irmãs como esposas; A passagem referente ao incesto de Ló com suas filhas logo após a destruição de Sodoma e Gomorra (ainda que nesta passagem já haja certa repreensão em relação ao incesto); e a passagem referente ao Dilúvio na qual somente a família de Noé sobreviveu.
    Obviamente que não considero a Torá, ou qualquer outro Livro dito Sagrado, como verídica em si, mas há neles uma clara referência histórica às práticas culturais exercidas em certos contextos, incluindo-se aqui o incesto, o sacrifício animal e humano e assim por diante. Deste modo, é difícil dizer que o tabu do incesto originou-se nesta Cultura.

    Por outro lado, afirmar que tal tabu não veio (entenda-se veio como “originou-se”) da Civilização Egípcia também é errôneo. Muito provavelmente tal afirmação deriva do mito popular contemporâneo de que a prática do incesto (nominalmente, casamento de irmãos e irmãs) era disseminada na cultura egípcia. Isto é uma falácia. Em primeiro, o incesto era restrito à Família Real por motivos religiosos (os quais são muito complexos para serem aqui detalhados). Em segundo, em toda a história das Dinastias Egípcias (no total 32, se incluir aqui a dinastia Ptolomáica, as quais cobrem o período próximo de 3000!!!), só conheço 12 relatos de incesto, divididos entre o Império Antigo (aproximadamente 3100-2600 a. c.) e o período Ptolomaíco (332-30 a.c.). Assim, tal prática era restrita à família real e pouco frequente (isto, obviamente, até que novas informações quanto ao assunto nos sejam dadas).
    O que quero dizer com tudo isto é que devemos ter muito cuidado ao afirmarmos alguma coisa quanto às práticas culturais exercidas por “povos” antigos ou quanto a qualquer assunto sócio-histórico. Se não tivermos uma firme base de conhecimento e se não considerarmos que estas bases estão sempre em processo de modificação histórica, então toda a nossa empreitada científica será vazia.

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  43. Este comentário foi removido pelo autor.

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  44. A segunda diz reipeito ao último post de Hernando no qual este me pergunta sobre a fidegnidade dos periódicos especializados. Minha resposta, Hernando é categoricamente contextual: a fidegnidade de suma maioria dos periódicos especialidos é histórica.

    Infelizmente, estes tendem a ser mais ou menos fidedignos com o passar do tempo. O que quero dizer com isto é que enquanto criamos sitemas nacionais de "impacto" dos periódicos para medir a sua relevância no meio científico pleno, estes são meramente representantes do impacto que estes periódicos possuem para a comunidade verbal nacional de cientistas que a criou.

    O grande problema aqui é possuir critérios claros para se definir funcionalmente ao que o termo "impacto" se refere e até aqui, sinceramente, penso que temos falhado.

    Assim, quando utilizei a expressão "revistas que, ao menos na minha opinião, se dizem de divulgação científica" estava me referindo à estas mudanças históricas de fidegnidade de impacto de uma revista ou de um trabalho e não prapriamente a algo imutável (pensei que isto estivesse claro quando fiz referência à mudança do corpo editorial da Scientific American na década de 1980). Espero que esta seja a resposta satisfatória à sua pergunta.

    De restou, agradeço o fornecimento da Bibliografia quanto ao "Homem Cérebro". Já esperava que me fornecesses a literatura da década de 1990, mas reconheço que muitos dos artigos aí presentes eu desconheço (tentarei lê-los o mais rapidamente possível depois do TCC).

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  45. Agora, as erratas:

    1) Os estudos de Breeding se iniciam na década de 1920 levados a cabo por Morgan;

    2) Os experimentos de Hermann Miller se iniciam na década de 1930;

    3) Fiz uma referência errônea ao afirmar que em 1953 James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins propuseram o modelo de dupla-hélice. Em verdade o modelo só foi proposto por James Watson e Francis Crick no mesmo ano, mas os estudos de Maurice Wilkins ajudaram à corroborar a hipótese do modelo, pelo que os três ganharam o Nobel de Medicina.

    Referências:
    Sobre a história da bioquímica:
    Ler Joseph Stewart Fruton.
    Molecules and Life: Historical Essays on the Interplay of Chemistry and Biology (1972)

    A Bio-bibliography for the History of the Biochemical Sciences since 1800 (1982)

    Contrasts in Scientific Style: Research Groups in the Chemical and Biochemical Sciences (1990)

    A Skeptical Biochemist (1992)

    Este senhor é abençoado!!! Nele vocês vão encontrar um pormenorizado relato histórico da empreitada da empreitada Biológica desde 1750 até a atualidade. Infelizmente Fruton morreu em 2007. Todavia, sua obra é indelével.

    Um bom site para se comprar estes livros ainda que usados, mas em excelente estado de uso é o
    http://www.abebooks.com/

    Outro excelente site para se reaver tesouros literários gratuitamente (incluindo muitas das referências que o Fruton nos fornece!!!!) é o

    http://www.archive.org/

    Desde último site citado, recomendo-vos a leitura quanto à história antiga do Oriente Próximo os seguintes textos:

    http://www.archive.org/details/patriarchaldyna00crawgoog

    http://www.archive.org/details/historyofegyptfr03petruoft

    http://www.archive.org/details/horaeaegyptiacae00pooluoft

    http://www.archive.org/details/ahistoryegyptdu00petrgoog

    http://www.archive.org/details/historyofegyptvo034953mbp

    http://www.archive.org/details/dynastiesduseco00manegoog


    Cumprimentos.

    Douglas Marques.

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  46. @Douglas MarquesÉ, confesso que quando falei da suposta origem do incesto foi baseado puramente em senso comum. No entanto, em qual cultura surgiu o incesto faz pouca ou nenhuma diferença em relação a parte relevante do meu comentário, que foi dizer que o incesto não é inato.

    E devo ressaltar que não corro risco de me engajar em "empreitadas científicas vazias", já que ciência se publica em periódicos indexados, para os quais faço a devida revisão da literatura. O blog é o passatempo das horas de folga e mau humor.


    Agradeço os complementos históricos. Aprender sobre qualquer coisa que seja nunca é demais. Fico devendo leituras adicionais para confirmar (ou invalidar) informações duvidosas.

    Abraço.

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  47. Aproveitando que está no tema, compartilho o link:

    Evolutionary psycho-logy: Commandeering genetics to explain why Obama really is a Muslim

    http://bit.ly/bhgRFF

    Que fique claro que estou apenas compartilhando.

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  48. Aproveitando que está no outro tema, o do incesto.

    Prós e contras do incesto régio

    http://bit.ly/9GFCKC

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