sábado, 3 de julho de 2010

Como o operante opera?

ResearchBlogging.org“Men act upon the world, and change it, and are changed in turn by the consequences of their action” é a primeira frase do Verbal Behavior de Skinner (1957). Essa seja talvez a definição mais famosa de comportamento operante dada por Skinner, apesar de ter trabalhado nela por várias décadas (ver Todorov, 2002). É nesse mesmo livro que Skinner insiste repetidamente em esclarecer que comportamento verbal é apenas um operante, sujeito às mesmas relações funcionais de qualquer operante não-verbal.

Um conceito que não pode ser excludente ao de operante é o conceito de tríplice contingência:

Sd ... R -> C equivale a dizer que um estímulo discriminativo (Sd) controla a probabilidade de uma resposta (R) produzir uma conseqüência (C). A diferença funcional entre o evento ambiental antecedente e o evento ambiental conseqüente sobre a resposta é bastante clara. Enquanto o primeiro mantém uma relação probabilística (e correlacionada ao segundo evento por meio da resposta), o segundo é deliberadamente produzido pela resposta que o antecedeu.

Os seguintes excertos de Moreira e Medeiros (2007) ilustram como a Análise do Comportamento trata o tipo de relação funcional que há entre o estímulo discriminativo e a respostas, bem como da conseqüência com as respostas:

“Classificamos como operante aquele comportamento que produz conseqüências (modificações no ambiente) e é afetado por elas” (p. 47, negrito adicionado)

“Quando há referência a um comportamento respondente, entendemos que um estímulo elicia uma resposta, o que é dizer que o estímulo produz a resposta, faz com que ela seja emitida. Já ao falarmos de um comportamento operante, de um operante discriminado, entendemos que o estímulo apenas fornece contexto, dá chances para que a resposta ocorra.” (p. 101, negritos adicionados)

Um terceiro excerto do mesmo livro dá dois exemplos da relação direta que há entre resposta e conseqüência, um em uma situação não verbal e outro em situação verbal.

“Um comportamento simples, como estender o braço, produz a conseqüência pegar (alcançar) um saleiro (mudança no ambiente: o saleiro passa de um lugar para outro). Em vez de estender o braço e pegar um saleiro, é possível emitir outro comportamento que produzirá a mesma conseqüência: pedir a alguém que lhe passe o saleiro. No primeiro exemplo, o comportamento produziu diretamente a mudança de lugar do saleiro. No segundo exemplo, o comportamento modificou diretamente o comportamento de outra pessoa e produziu a mudança de lugar do saleiro.” (p. 48, negritos adicionados)

Analisemos um esquema do segundo exemplo, com alguns complementos da interação entre os dois sujeitos (clique na figura para ampliar).



Temos, na figura acima, quatro eventos que podem ser classificados como ambientais ou biológicos (dito comportamental), dois emitidos por cada sujeito. O primeiro é o pedido de sal por S1, que funciona como estímulo discriminativo para a resposta de S2 em passar o saleiro. O passe do saleiro por S2, por sua vez, funciona como estímulo discriminativo para a resposta de agradecimento de S1, a qual é conseqüência (possivelmente reforçadora) para a resposta de S2 em passar o sal a S1. E ao final, o sorriso de S2 é conseqüência para a resposta de agradecimento de S1.

O momento crucial desse exemplo é a seqüência do evento “agradecer” de S1 após o evento “passar o saleiro” de S2. Quando colocamos o foco da análise em S1, temos que “agradecer” é uma resposta que leva a uma provável conseqüência reforçadora em função do Sd “passar o saleiro”. Mas quando mudamos o foco para S2, o “agradecimento” seria, por definição da contingência de três termos, uma conseqüência deliberada, isto é, diretamente produzida pela resposta “passar o saleiro”. Aí temos um impasse. Como pode dois mesmos eventos ter relações diferentes entre si a depender de quem é o sujeito da análise?

Afinal, “passar o saleiro” produz diretamente o “agradecimento”? Não seria a relação entre resposta e “conseqüência” tão probabilística quanto entre estímulo discriminativo e resposta? A relação entre eventos posteriores à resposta e ela mesma parece evidentemente direta quando estamos tratando de eventos do ambiente não biológico, como no caso do primeiro exemplo de Moreira e Medeiros (2007). O saleiro vir até a mesa parece ser resultado direto da resposta de “pegar o saleiro”. Mas poderíamos considerar que o saleiro poderia estar sujo por algo oleoso e escorregar da mão do sujeito, não havendo reforço. Ou o sujeito poderia ser vítima de algum tipo de brincadeira e levar um choque de um saleiro metálico, o que poderia reduzir a probabilidade de ele pegar saleiros metálicos no futuro. Ou seja, quando o sujeito emite uma resposta, nada garante que conseqüência irá haver, ainda que haja a presença do estímulo discriminativo correlacionado à conseqüência. Logo, dizer que uma resposta produz uma conseqüência, pode ser uma definição equivocada e anti-funcional. Sendo assim, talvez nem se devesse falar em “conseqüência”, mas sim em evento subseqüente ou posterior.

Rubilene.
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Referências

Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: 2007.

Skinner, B. F. (1992). Verbal Behavior. Massachusetts: Copley Publish Group. Publicado originalmente em 1957.

Todorov, J. C. (2002). A evolução do conceito de operante. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18, 123-127.

Um comentário:

  1. Boa observação. O "produz" pode dar um tom mecanicista e antiquado ao processo.

    Quando se trata de uma contingência específica e programada, como a liberação de um comedouro após uma bicada de um pombo nun disco colorido em uma caixa que só tem esse disco e mais nada, o "produz" se aplica bem. O problema é quando transferimos isso para situações onde inúmeras contingências simultâneas são possíveis. O "produz" parece que fica meio incompatível com toda a probabilidade envolvida.

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