quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Perspectiva etológica do estudo do desenvolvimento

Tinbergen (1963) define que Etologia é o estudo biológico do comportamento, o qual se dedica a compreender um fenômeno observável que deve ser investigado por meio da observação naturalística e pela experimentação. Tem por objetivo compreender o comportamento das espécies de modo a produzir procedimentos eficazes de predição comportamental, manejo e conservação dessas espécies.

A Etologia pode investigar relações comportamentais em quatro níveis de análise: valor de sobrevivência, evolução, causa imediata e ontogenia, (Tinbergen, 1963). O valor de sobrevivência trata da compreensão do impacto que sua ausência pode ter sobre a longevidade dos indivíduos e, consequentemente sobre a espécie; a evolução promove: 1) a elucidação do curso que a evolução pode ter tomado e 2) o entendimento da sua dinâmica. O primeiro aspecto relaciona-se à reconstrução da trajetória dos ancestrais humanos até o que se tornaram atualmente e o segundo à compreensão do papel da variação e da seleção natural sobre características comportamentais atualmente presentes; a causa imediata refere-se a quanto a interação direta do organismo com o ambiente evoca as ações momentâneas daquele que se comporta; e a ontogenia aborda as mudanças que ocorrem no “maquinário do comportamento” (behaviour machinery) durante o desenvolvimento dos indivíduos.

Desenvolvimento para a Etologia é concebido como ajustamentos que capacitam o organismo a aumentar suas chances de sobrevivência (Pontes & Izar, 2005). As maiores contribuições da Etologia para a Psicologia do desenvolvimento estão na produção de métodos derivados do estudo do comportamento animal, na identificação de princípios do desenvolvimento e da motivação, na elaboração de uma base comparativa entre as espécies e na perspectiva evolucionista sobre o comportamento (Archer, 1992)

Tinbergen, ao discutir as influências sobre a ontogenia do comportamento, pontua que o termo “inato” não deve ser tomado como oposto a “aprendido”, mas sim como oposto a “ambientalmente induzido” (Tinbergen, 1963). Desse modo, a compreensão dos aspectos biológicos do comportamento é tão importante quanto os aspectos ambientais que o influenciam. O estudo da ontogenia precisa abarcar ambos os fatores uma vez que o organismo não pode ser considerado geneticamente programado, bem como não pode ser visto como uma tabula rasa (Burton, 1977).

Há dois princípios biológicos importantes na compreensão do desenvolvimento: variabilidade e regularidade. Burton (1977) comparou repertórios comportamentais de papéis de gênero em 21 espécies de primatas e encontrou que não há padrão entre as espécies, mas que assim como outros tipos de comportamento, a variabilidade é que pode ser considerada um padrão nas relações sociais de primatas. Porém, apesar da variabilidade, existem repertórios ao longo do desenvolvimento dos espécimes que apresentam regularidades encontradas em todas as espécies.

Nesse sentido, a Etologia contribui para o estudo do desenvolvimento na medida em que estuda as causas tanto da variabilidade quanto das regularidades. Essas causas são investigadas através de princípios gerais do desenvolvimento como a interação entre variáveis biológicas e sociais (nature X nurture), interação entre maturação e experiência, períodos sensitivos e experiência precoce, alternância entre continuidade e descontinuidade (Archer, 1992).

Cole e Cole (2004) afirmam que a Psicologia do Desenvolvimento estuda a sequência de mudanças físicas, cognitivas, psicológicas e sociais do ser humano. Esses aspectos da vida humana são investigados tendo por foco três questões fundamentais: continuidade, fontes de desenvolvimento e diferenças individuais.

A continuidade refere-se às analogias de origem evolucionária entre as espécies, às mudanças qualitativas do desenvolvimento ao longo da linha do tempo da vida do indivíduo e às funções da influência do ambiente sobre o desenvolvimento em diferentes períodos da vida.

Quanto ao processo do desenvolvimento, a Etologia considera que a visão tradicional da psicologia para a descontinuidade qualitativa do desenvolvimento deve ser tomada como graus de variação da continuidade. Além disso, as mudanças ocorridas em um estágio juvenil não podem ser consideradas meramente um passo pré-requisito a um estágio maduro, mas sim um aspecto funcional do próprio período da vida do indivíduo em sua interação com o mundo (Archer, 1992). Contudo, a funcionalidade do ambiente sobre os diferentes períodos da vida de um indivíduo pode ter variações.

As fontes de desenvolvimento são aquelas advindas da interação entre o organismo e o ambiente. Pesquisas anteriores tratavam as fontes sob perspectivas extremistas que apontavam como determinantes isolados do desenvolvimento seus aspectos genéticos ou as influências do ambiente. Estudos mais recentes buscam compreender o desenvolvimento de maneira que tanto os fatores biológicos quanto os ambientais sejam parte constituinte do processo (Rutter, 2002). Modelos de processos evolutivos estão sendo amplificados para a compreensão de outros fatores além da genética, tais como a epigenética e a heredirariedade cultural (Jablonka & Lamb, 2005)

A interação entre os fatores biológicos e ambientais é também a responsável pelas diferenças individuais entre organismos. Geary (2006) defende que essa interação ocorre sobre o fenótipo, onde a variação se expõe ao ambiente e se esse fenótipo tiver um correlato genético, a seleção pode ocorrer e será transmitida. Portanto, o estudo do desenvolvimento envolveria a identificação de padrões típicos para uma espécie na mudança fenotípica, de suas fontes de variação genética e do ambiente e também análise comparadas com outras espécies.


Até a próxima!

Rubilene Borges

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Referências

Archer, J. (1992). Ethology and human development. Hemel Hempstead: Harvester Wheatshead.

Burton, F. D. (1977). Ethology and the development of sex and gender identity in non-human primates. Acta Biotheoretica, 26, 1-18.

Cole, M., & Cole, S. (2004). O desenvolvimento da criança e do adolescente. Porto Alegre: Artmed.

Geary, D. C. (2006). Evolutionary developmental psychology: current status and future directions. Developmental Review, 26, 113-119.

Jablonka, E., & Lamb, M. J. (2005). Evolution in four dimension: generic, epigeneric, behavioral, and symbolic variation in the history of life. Cambridge: MIT Press.

Pontes, F. A. R., & Izar, P. (2005). O estudo das relações sociais sob a perspectiva etológica. Em Fernando Pontes, Celina Magalhães, Regina Brito, & William Lee (Orgs.). Temas Pertinentes para a Construção de uma Psicologia Contemporânea (pp. 65-96). Belém: EDUFPA.

Rutter, M. (2002). Nature, nurture, and development: from evangelism through science toward policy and practice. Child Development, 73, 1-21.

Tinbergen, N. (1963). On aims and methods of ethology. Zeitschrift für Tierpsychologie, 20, 410-433.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Uma baboseira óbvia

“Óbvio” vem do latim obviu, definido pelo dicionário online da língua portuguesa Priberam como: que ocorre; que está adiante; patente; evidente, intuitivo; fácil de compreender. A obviedade vem sido tratada como se fosse um conceito claro e inerente ao substantivo, o qual é adjetivado pelo termo “óbvio”. Cotidianamente, é comum as pessoas dizerem que algo é óbvio: “é óbvio que eu nunca diria isso”, “você não acha óbvio que ele faria isso?”, “obviamente, você não estudou para a prova”.

Dizer que é óbvio que um cachorro bravo iria mordê-lo por você colocar a mão através da grade da casa do cachorro, torna o evento inerente ao cão e não à pessoa que pôs a mão pela grade. Contudo, por que é “óbvio” para um adulto que isso pode acontecer, mas o mesmo evento não é “óbvio” para uma criança pequena? Se a obviedade existe na coisa, por si só, ela deveria ser óbvia a todos, pois o sujeito em nada afetaria a propriedade de obviedade inerente à coisa.

Entretanto, o nível de obviedade parece ser variável de pessoa a pessoa. Sendo assim, não há obviedade inerente ao evento no mundo por si só. O que leva um adulto a dizer que é óbvia a mordedura do cão? Como saber que se pode ser mordido ao atravessar a mão pela grade? O sujeito pode ter aprendido isso em algum momento de sua vida por algum processo de aprendizagem direta ou indireta. Ele pode ter-se exposto diretamente a uma contingência aversiva, um dia ele atravessou a mão pela grade de uma casa que possuía um cão feroz e ele o mordeu. Ou então ele viu alguém fazê-lo e receber a mordedura, ou ainda, sua mãe dizia-lhe sempre que cães são perigosos, que eles mordem a mão de quem a atravessa pela grade da casa.

Provavelmente esse adulto observou (respostas verbais e/ou não verbais) que outras pessoas também evitam emitir a mesma resposta de risco. Toda uma sociedade, em geral, emite essa mesma resposta. O repertório parece ser básico e comum a todos. Daí a obviedade: todos daquela comunidade possuem repertório semelhante diante dessa situação específica, é algo que “qualquer um deve saber”, é óbvio!

A obviedade enquanto resposta verbal está sujeita aos níveis de seleção do comportamento: filogenético, ontogenético e cultural. O repertório verbal que tateia situações como sendo óbvias é aprendido em um convívio social, no qual há uma comunidade que partilha exposições topográfica e/ou funcionalmente comuns a contingências específicas.

O óbvio, por definição, exige que os membros da comunidade verbal tenham tido algum contato prévio com a contingência do óbvio. Se a comunidade não teve esse contato, com uma contingência qualquer, a qual um indivíduo se expôs, os demais membros da comunidade não podem dizer que é óbvio algo que eles desconhecem. A obviedade dos eventos no mundo, portanto, é intersubjetiva; é uma prática cultural; mais ainda, é uma resposta verbal de uma comunidade, que tateia consensualmente os eventos no mundo, sejam eles verbais ou não-verbais.

Essa é uma proposta de definição da obviedade que difere da definição usada pelo senso comum, a qual considera os eventos do mundo como tendo a propriedade de óbvio, e como sendo uma capacidade intelectual dos sujeitos reconhecer a obviedade inerente aos eventos. A obviedade não pode ser nem objetiva, no sentido de ser inerente ao objeto e nem subjetiva, como inerente à habilidade do sujeito de responder verbalmente ao óbvio.

Entretanto, a depender do recorte do que trata a obviedade, um evento pode ser óbvio a um único indivíduo, desde que ele responda a eventos a partir de sua própria ontogenia. Algo pode ser óbvio para um sujeito e não ser para nenhum outro. Mas o sujeito que considera algo óbvio a partir de sua própria história ontogenética não pode esperar que qualquer outro sujeito responda ao evento da mesma forma.

A obviedade subjetiva pode ser o tipo de resposta verbal subjetiva que se costuma atribuir os rótulos de “genialidade”, “esperteza”, “astúcia”, “perspicácia”, como atributos do sujeito, de suas habilidades cognitivas. Essa obviedade não é uma característica do sujeito, ela é um repertório aprendido por exposições diretas ou indiretas a contingências. A aprendizagem, entendida como processo constante de modificação do comportamento, ocorre de modo gradativo com ordem crescente de complexidade. Desse modo, as ditas habilidades cognitivas são repertórios modelados por contingências e ontogeneticamente característicos do sujeito.

Todos os repertórios ditos cognitivos que o sujeito classifica como óbvios e os demais sujeitos não podem emitir a mesma respostar de tatear o óbvio, não se deve ao fato de que o sujeito é mais genial que qualquer outra pessoa, ele apenas está falando sobre algo que somente ele teve acesso, ontogeneticamente.

Tanto a obviedade cultural quanto a obviedade subjetiva são respostas verbais modeladas ontogeneticamente. Algo só pode ser óbvio a um sujeito se ele se expôs às contingências necessárias em um processo de seleção cultural ou de seleção ontogenética. Uma mesma comunidade pode divergir frequentemente sobre a obviedade de diversos eventos, pois não necessariamente os mesmos eventos serão óbvios a todos os membros de uma comunidade.

A obviedade também não é imutável. Assim como algo passa a ser dito óbvio por um sujeito ou por uma comunidade, pode, a depender das mudanças contingentes, deixar de ser óbvio. A mordedura de um cão pode ser óbvia em um momento, todavia, em um local específico, depois de quinze anos sem registros de ocorrência de mordeduras caninas, a mordedura pode deixar de ser óbvia por parecer algo pouco provável de acontecer. Sendo assim, a obviedade é uma resposta verbal que não é inerente a um evento ou a uma capacidade pessoal dos sujeitos, isoladamente ou em comunidade, mas sim à ontogenia dos sujeitos.

Espero que essa postagem tenha sido bastante óbvia para você!

Saudações behavioristas!
Rubilene Borges