quinta-feira, 19 de março de 2009

AC tem futuro? Qual?


Eu poderia escrever um post bastante extenso sobre os equívocos encontrados na tabela comparativa entre aprendizagem por regras e aprendizagem por conseqüências. Mas não irei fazê-lo. Este não é um post direcionado a depreciar o trabalho do autor do site sobre Análise do Comportamento de onde a tabela na figura foi extraída (por isso nem citarei de onde a tabela foi retirada). Ele é apenas um exemplo do que acontece na academia. É depreciativo aos professores por seu descaso na formação dos alunos. Afinal, a culpa nunca é do sujeito, mas sim do ambiente. Não existem alunos brilhantes. Existem contingências brilhantes. Quer melhorar seu repertório? Não espere que ele surja como fruto da sua reflexão pessoal sobre a vida. Busque a variabilidade, busque contingências variáveis. Em analogia à teoria da evolução de Darwin, é preciso haver variação e seleção. Se você se expõe sempre ao mesmo tipo de contingência não espere que coisas distintas sejam selecionadas no seu repertório.

É triste ver como ser um professor universitário no Brasil não é visto e, em geral, não tem o mesmo mérito que um professor de universidades do primeiro mundo. Aqui, o professor/pesquisador das universidades públicas não foge da categoria superior: um funcionário público. Alguns professores podem achar que são grandes pesquisadores porque seu currículo está cheio produção bibliográfica e sua bolsa de produtividade do CNPq está garantida. No entanto, a "corrida armamentista" desses professores para marcar mais pontos que seu colega de trabalho na sala ao lado muitas das vezes acaba por consumir muito tempo e nada sobra para orientar os possíveis (mas não tão prováveis) futuros pesquisadores. Não se faz ciência sozinho. Não se faz com "vivências pessoais". Faz-se com método científico. Ciência não é opinião, é previsão e controle. Os professores precisam cuidar melhor da orientação dos jovens acadêmicos e assim poderemos ter mais jovens desses a ser tornarem professores/pesquisadores.

Os professores não fazem sites como ferramenta estudantil e de diviulgação para a comunidade. E alguns alunos tentam fazer sua parte, com ou sem equívocos. Este blog não é apenas um provocador, um resmungador ou um passa-tempo. Também não é um "plano infalível" que vai salvar mundo. É apenas um desabafo, que esperamos ser lido por alguns outros jovens, de modo que eles vejam o quão desuniforme é a ciência do comportamento e o quão descuidados estão sendos certos atuais "cientistas" do comportamento. Quem sabe algum desses jovens, como nós, comecem a procurar um modo de manter viva, coerente e aplicável a Análise do Comportamento, evitando a lástima de o mundo não poder tirar algum proveito do que esta ciência tem a oferecer. Esse era o sonho de Skinner, compôr uma ciência que pudesse tornar o mundo um lugar melhor de se viver. Ele morreu tentando. Até seus últimos dias de vida. Será que alguém mais está preocupado com isso?

Behaviorism 1930


Charles Robert Darwin (1809-1882) foi, sem dúvida, um grande anti-bíblico. Não que ele tenha saído pelas ruas, batendo às portas das pessoas e bradindo "Queimem suas Bíblias! Queimem suas Bíblias!", mas acertou um gancho de direita no Criacionismo bíblico. Tudo bem que o soco não resultou em nocaute, na verdade, a luta nunca foi vencida por nenhum dos lados na sociedade científica e não científica. A Teoria da Evolução postula, simplificadamente, que as espécies evoluem, isto é, modificam-se através dos processos de variação e seleção natural. Contudo, sem as leis de Mendel (1822-1884), Darwin não tinha como explicar muito detalhada e convincentemente como esses processos aconteciam. Entretanto, ainda assim sua teoria era o "hit do verão" (Neves Jr., 2009) e muita gente do meio científico queria falar bonito e parecer atualizada, mas não necessariamente estava sendo fiel ao que Darwin propunha. Deturpações acontecem. E como acontecem. Se não fosse assim, este blog nem existiria. Mas voltando ao Darwin e às deturpações, a mais perigosa delas foi o chamado Darwinismo Social, que se atreveu a considerar que os humanos brancos eram mais "evoluídos" que humanos negros. Seriam belas se não fossem brutais as justificativas da dinâmica social em função da dominância de um grupo sobre outro. São belamente absurdas e fora de propósito. Assim é o racismo, que fora justificado tantas vezes por motivos religiosos, econômicos e, forçadamente, até científicos. Sim, a ciência, ou parte dela, já se sujeitou a compactuar com tais deturpações, as quais algumas vezes são submetidas a tentativas de correção por alguns renegados dessa ciência contaminada.

A figura acima foi extraída de um volume de "Behaviorism" de John B. Watson (1878-1958), edição americana de 1930 (publicação original em 1924). Os grifos foram feitos pelo antigo dono em época bem anterior aos tempos atuais. Repare na indicação em vermelho, na parte que diz "All (normals including negroes) are XXXX equal". Repare também nas demais anotações, que parecem ter sido anotadas por serem informações incrivelmente pioneiras e reveladoras. Sim, o autor do grifo provavelmente achou importante anotar que negros têm as mesmas capacidades que outros humanos com desenvolvimento normal. Pena que essas informações que podiam ser facilmente "descobertas" no livro de Watson não chegaram às mãos de cada cidadão americano. O pensamento da maioria (branca) ainda era o de os humanos negros eram inferiores porque eles eram assim e ponto final. Nada que Watson pudesse mudar com sua ciência, é claro. O mundo não era e ainda não é o paraíso da ciência. Enquanto nosso pichador de livros anônimo lia em 1930 sobre comportamento humano em uma abordagem tão distinta do que se sabia ou se suspeitava sobre isso, o revolucionador do mundo negro americano estava ainda aprendendo a falar e a andar. Martin Luther King (1929-1968) "bateu nas portas", mas não para dizer "Queimem suas Bíblias", e sim para dizer "Leiam suas Bíblias, leiam a palavra de Jesus Cristo e amem ao próximo, sendo o seu próximo negro ou branco". E todos sabemos o que ele disse. E quem sabe o que Watson disse? Quem sabe o que Darwin disse? Talvez os cientistas não estejam cientes sobre o papel importantíssimo que podem exercer na sociedade. E quem se importa? O mundo já tem seus ídolos. Nunca deixamos de ser os "macacos totemistas" de certa fase de nossa evolução.

Em suma: Watson apresentou a igualdade pela ciência e é lembrado como o cientista malvado que assustava aquele bebezinho bonitinho (e branco), o "Pequeno Albert".
Luther King, que pregou a igualdade pelo "amor cristão", é um herói. Para haver evolução, é preciso haver seleção. Para haver seleção, é preciso haver variação dos organismos e do ambiente. O ambiente diz: Cientista mau. Pastor bom. Bem variado, não? Faça você o resto do jogo semântico. Segue a dica: tudo não passa de respostas verbais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Party time!


Aproxima-se a data do tal Forum Social Mundial, que será realizado na antes pacata cidade de Belém do Pará, a metrópole da Amazônia, que com isso, está com os dias contados para ser devassada com a turba de jovens sonhadores que irão se deparar com uma cidadela sem as condições necessárias pra segurar a balburdia toda.

Fora isso, serão dias de muito discurso, dos mais variados e demogógicos possíveis, e também, é claro, de bastante sacanagem.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Poder da Mente


Ele existe. Ontem eu tive a comprovação. Toda noite, eu entro na internet por volta de meia-noite. Antes disso, eu costumo reiniciar o computador, pois ele já está sendo usado por um período longo, com muitas janelas abertas, o que o deixa lento. Ontem, por volta das 23:10 eu estava com dor nas costas e deitei-me na minha cama para dar uma relaxada enquanto ouvia música no WMP. Tendo percebido a proximidade da hora de entrar na internet, eu PENSEI: tenho q reiniciar o computador. Cerca de dois segundos depois, o computador reiniciou, sem que eu tocasse em nada, sem eu tê-lo programado previamente. Sim, foi o poder da mente. É óbvio! Eu pensei e aconteceu!

Malditos eventos contíguos. Sempre nos deixando malucos. Qualquer tipo de resposta pode ser selecionado pela mera “coincidência” de eventos. Para o analista do comportamento, a distinção é (ou deveria ser) evidente. Eventos contingentes são aqueles produzidos pela ação do organismo; ele OPERA e modifica o ambiente, e esse ambiente retroage sobre a resposta do organismo. Assim se sustenta o comportamento operante. Eventos contíguos são aqueles que não têm relação com as respostas do organismo; eles simplesmente coincidem espaço-temporalmente com as respostas; ocorrem subsequentemente a elas. A contigüidade gera padrões comportamentais supersticiosos.

O comportamento religioso é chamado supersticioso, pois, supondo que as entidades imateriais (ou materiais dotadas de poderes místicos) são um delírio, a (não) relação entre as respostas dos religiosos e os eventos no mundo é contígua. O curioso é que o repertório se mantém por uma LONGA duração. Por que? Porque um evangélico (ou qualquer outro religioso que emite respostas religiosas com alta freqüência) passa a vida inteira respondendo a eventos contíguos?

Descartando a variável “reforço social” das pessoas que freqüentam a igreja, temos que: em alguns momentos, algo de “bom” deve ocorrer na vida dessas pessoas. E como elas estão SEMPRE respondendo, em algum momento essas respostas e as coisas “boas” vão ocorrer contiguamente. Olhemos para isso como um esquema de razão variável. Sabemos que esse esquema produz taxas altíssimas do responder. Por que estranhar que o religioso passe a vida inteira emitindo essas respostas?

Certa vez, alguém perguntou: “faz diferença pro rato eu dizer que ele foi reforçado ou que a resposta dele foi reforçada?”. Meu palpite: Nenhuma. Do mesmo modo: faz diferença para o sujeito o evento no mundo ter sido ou não produzido pela resposta que ele emitiu? Melhor ainda: ele SABE se o evento ambiental foi ou não produzido por ele mesmo? Um analista do comportamento provavelmente sabe. Nem sempre talvez. Mas pelo menos ele sabe que existem eventos que são contingentes e outros que são contíguos. Hummm... então o conceito de contigüidade serve para o analista do comportamento analisar o seu PRÓPRIO comportamento?

Para o sujeito, os eventos sempre são contingentes se causarem alguma mudança no seu repertório. Não importa se foi ele ou não que produziu o evento. Ele desconhece essa possibilidade. Então, se tudo o que altera o responder é contingente e o que NÃO altera é contíguo, qual a relevância desse termo para uma análise funcional do comportamento? Comportamento supersticioso é ou não um operante? Qual é a definição mais adequada de operante? Lacunas infinitas...


Rubi.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sair ou Não Sair?


Diversos autores do início do século 20 tentaram em vão, propor uma nova perspectiva dentro da Psicologia: o estudo do comportamento. Watson (1913) em seu manifesto tentou inaugurar um movimento que serviria como impulso inicial para a reforma da psicologia. Contudo, os frutos dessa empreitada acabaram gerando apenas uma nova “abordagem” do estudo psicológico, contando com uma minoria de adeptos fieis aos princípios de Watson. Sua metodologia ganhou mais espaço dentro da psicologia que a epistemologia. Psicólogos pesquisadores utilizam os métodos comportamentais para realizar suas pesquisas, entretanto, interpretam os dados sob uma ótica mentalista. O movimento falhou. Mas os preceitos da psicologia ainda precisam ser revistos e reformados. Seria o momento de tentar-se forçar novamente uma reforma? Ou seria o momento de partir para uma nova ciência, distinta e separada de fato da psicologia? O reformismo já falhou uma vez. Os “behavioristas” epistemológicos continuam sendo minoria e a perspectiva behaviorista vai de encontro à maioria dos conceitos absolutamente reconhecidos e aceitos pela população em geral (acadêmica ou não). Certo professor disse uma vez: “Cuidemos das gerações futuras para deixarmos decentes férteis”. Será tão simples? Apenas “catequizar” os jovens calouros dos cursos de psicologia? Há a alternativa do separatismo; que vantagens ela traria? Sejamos analistas do comportamento. Poderíamos conseguir estabelecer um Bacharelado em Ciências do Comportamento (Galvão, 2007), que, pela proposta original do professor Olavo, não seria uma profissão que competiria com a Psicologia. Mas vou propor que sim, que competisse. Todo “fiel” analista do comportamento acredita que possa fazer um trabalho mais eficiente que qualquer mentalista, então, suponhamos que de fato seja mais eficiente. Atualmente, quem procura um psicoterapeuta, em geral, não sabe a diferença entre uma abordagem e outra, sequer sabe que existem abordagens distintas. Todavia, se houver um tipo de “terapeuta” distinto do psicólogo, ele pode ter mais chances de ser visto como um profissional diferenciado do que trata o psicólogo. A população terá essas duas opções e poderá procurar uma ou outra aleatoriamente. Se os analistas do comportamento estiverem certos em sua abordagem do comportamento, solucionarão as demandas mais rápida e eficientemente: as respostas de “consultar o analista do comportamento” serão mais frequentemente reforçadas que as de “consultar o psicólogo”? Se sim, os analistas do comportamento perpetuaram a espécie e os psicólogos serão extintos. Bela utopia a minha, não? Não mencionei aqui o fato de que um curso que promova concorrência à profissão de outro curso já existente, provavelmente, não seria aprovado. Daí a estratégia de não se meter com o público-alvo da psicologia e ir atrás de outros “mercados”. Deixemos então que o futuro da psicologia siga seu curso na história e seja “infinito enquanto dure”?

Galvão, O. F. (2007). Bacharelado em Ciências do Comportamento: esboço de uma profissão de base transdisciplinar. Anais da 59ª Reunião Anual da SBPC. (Perdão pela referência incompleta).
Watson, J. B. (1913). Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, 20, 158-177.

Rubi.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Vossa Produção


O tipo de coisa que devia fazer qualquer psicólogo ter vergonha.



É isso que essa "ciência" produz? Um amontoado de dados anedóticos que servem somente pras mini-colunas de revistas do tipo Super-Interessante (diversão de leitor-de-banheiro). Admirável.

Fortalecimento X Reforçamento


"O comportamento é a relação entre organismo e ambiente"
"O comportamento é o produto da relação entre organismo e ambiente"
"O comportamento é o modo como as pessoas agem"
"O comportamento é o que mente humana nos induz a fazer"

"Resposta é a unidade comportamental emitida pelo organismo"
"Resposta é uma instância do comportamento"
"Resposta é o que compõe uma classe comportamental"
"Resposta e comportamento são a mesma coisa"

A variedade de denfinições de "comportamento" e "resposta" dentro da Análise do Comportamento é abusivamente vasta. E ninguém (ou poucos) estão se importando em resolver esse problema. Sim, é um problema. Cada um usa a definição que bem entender, e cada um acaba falando sobre coisas diferentes e discutindo inutilmente sobre algo do qual não partilham o mesmo conceito.


Afinal, o que reforçamos? A resposta ou o comportamento? Os alunos são ensinados que comportamento é uma classe de respostas, e que a classe é reforçada, logo o comportamento é reforçado. Mas então, uma outra concepção afirma que comportamento é a relação entre organismo e ambiente, e que a resposta é reforçada, não o comportamento. Em alguns momentos, lemos/ouvimos também o termo "fortalecimento" como sendo sinônimo de "reforçamento". São sinônimos?


Qual a etimologia dessas palavras? Reforço, por definição analítico-comportamental, é o aumento da probabilidade de ocorrência futura da resposta ou do comportamento reforçado(a). E fortalecimento? A mesma coisa. Contudo, é usada mais frequentemente junto à palavra resposta: "fortalecimento da resposta".

Originalmente, "reforçamento" não significa "aumento de probabilidade", é apenas o ato de intensificar, de tornar mais forte, algo que já existe. Isso por meio do acréscimo de algo. Acrescentar algo que aumente a força gera um "reforçamento".

E fortalecimento? Quando algo fica mais forte, há um fortalecimento.

E se pudéssemos dizer que a resposta é fortalecida e o comportamento reforçado? A relação entre o organismo e o ambiente precisa de uma reexposição, isto é de um reforço para se manter estável. E a resposta não é reforçada, pois não é uma relação, é um evento.

Isso talvez refinasse a distinção das nomenclaturas, mas causaria um novo problema: o comportamento seria sempre reforçado. E a resposta (ou a classe de respostas) poderia ser fortalecida ou enfraquecida (suprimida, punida... isso gera outro tópico).

O Comportamento seria sempre reforçado? Poderiamos dizer que tanto a estimulação "recompensadora" quanto a "aversiva" são reforçadas com a reexposição às contingências?


Skinner tentou elaborar uma taxonomia específica para suas propostas terminológicas. Contudo, elas ficaram com algumas falhas, o que deu margem para toda essa variação de definições. Talvez seja hora de reformular tudo. De novo. Outra vez. Novamente. Quem sabe assim consigamos desenvolver uma "estrutura" que possa mais discriminável no controle das respostas dos próprios analistas do comportamento?


Rubi.