quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Há outra metade da laranja?

Clássicos de ficção científica tem sido utilizados como referencial para discussões. É o caso de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess e de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Obras literárias nas quais se pode destacar dentre outras reflexões, uma forma de controle: o condicionamento reflexo/ respondente.

A teoria do reflexo é descrita a partir da concepção de que comportamentos são eliciados pelo efeito de um estímulo, tratando-se de uma relação do tipo S-R. Ou seja, na presença de determinado estímulo ambiental, p. ex., no caso de um sopro no olho, haveria a estimulação de órgãos sensoriais que produziriam uma resposta, que, neste exemplo, seria fechar os olhos (Baum, 2006).

O condicionamento clássico ou respondente foi descrito pelo fisiologista I. Pavlov por meio do pareamento de um estímulo incondicionado com um estímulo neutro (p. ex., luz, som, cheiro) de forma que este último também se torna "eliciador" da resposta induzida pelo estímulo incondicional (Baum, 2006).

Na figura 1, é possível verificar ilustrativamente o condicionamento de Pavlov.


Figura 1. Condicionamento respondente de Pavlov.

Sobre esta questão, tanto na obra Laranja mecânica, quanto em Admirável Mundo Novo observamos a utilização do procedimento de condicionamento respondente como medida para lidar com "problemas" da sociedade. No primeiro, o sistema carcerário e no segundo, a estrutura social.

A principal cena de Laranja Mecânica que envolve as consequências do condicionamento realizado é a que apresenta os resultados obtidos com o mal estar físico do protagonista Alex ao tentar agredir alguém ou ao tentar se envolver sexualmente com uma mulher. É feito um questionamento por um personagem na história que era padre sobre o benefício da sua utilização, na medida em que com essa técnica seria impedida a liberdade do indivíduo de escolher entre o certo e o errado e de conhecer essa possibilidade. No entanto, somos livres na medida em que estamos inseridos em uma comunidade verbal e social que delimita nossas escolhas.



Figura 2. Cena do filme Laranja Mecânica.

No caso de Alex, além do sofrimento produzido pelo próprio condicionamento, outros motivos para que esse condicionamento não tenha sido funcional na vida do personagem são: (1) ele foi solto sem nenhuma condição para se inserir novamente na sociedade (ao chegar em casa é expulso por seus pais; não tem possibilidade de emprego ou expectativa de futuro); (2) reencontra os membros de sua gangue, que lhe dão uma surra sem que possa se defender, pois sente o mal estar imposto pelo condicionamento; (3) teve uma das suas músicas clássicas preferidas pareadas com o mal estar físico (que chega a ser utilizada como tortura por uma de suas antigas vítimas).

Não foi apenas o condicionamento em si que prejudicou o personagem Alex e sua suposta falta de liberdade, mas também, a maneira como este foi reinserido, ou melhor, "jogado"na sociedade e os fatos que ocorreram na história, as tais "fatalidades" (as contingências em vigor após a saída da prisão, além dos pareamentos que haviam sido estabelecidos, que o limitaram ainda mais).

Em Admirável Mundo Novo, o condicionamento respondente era usado para formar os cidadãos ideais para aquela sociedade estruturada em favor da "Comunidade, Identidade e Estabilidade" (seu lema), portanto, o objetivo era manter todos sob controle, estáveis e eficientes. Os cidadãos, nesta realidade, são criados em laboratório por meio de processo de manipulação fetal que visa encaixar os indivíduos desde a formação embrionária para as funções que mais tarde exercerão pelo resto da vida.



 

Figura 3. Incubadora de Admirável Mundo Novo.



O condicionamento respondente utilizado conseguia induzir, p. ex., os indivíduos a não gostarem de leitura, por meio do pareamento de dor com a leitura, pois seria uma atividade de desperdício de tempo para a sociedade. Uma sociedade criada de forma que os indivíduos fossem condicionados a serem felizes no sistema vigente, que sofriam diversos tipos de pareamentos, dos quais nem se "davam conta".


As duas obras mencionadas foram publicadas uma em 1962 (Laranja Mecânica) e a outra em 1932 (Admirável Mundo Novo). Ambos foram criados em contextos históricos que indicam o porquê das diferentes visões acerca do uso do condicionamento respondente. O mais velho, de 1932, em um contexto em que os estudos dos reflexos e suas extensões com o condicionamento respondente estavam "na moda" para explicar os comportamentos. E o mais novo, mais crítico quanto ao seu uso.

Pode-se notar, portanto, o valor do estudo do reflexo e sua presença em obras literárias. O próprio B. F. Skinner, em meados da década de 30, buscava estudar comportamentos complexos e explicá-los a partir da teoria do reflexo, porém (e felizmente), sua explicação foi sendo reformulada até chegar à noção de operante (Cruz & Cillo, 2008). Mesmo assim, não se deve negar a importância do reflexo e do condicionamento respondente, claro.

É isso,

Izabel Brasiliense

__________________
Referências

Baum, W. (2006). Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Porto Alegre: Artmed (trabalho original publicado em 1994).

Burguess, A. (2004). Laranja mecânica. São Paulo: Aleph. (Originalmente publicado em 1962).

Cruz, R. N & Cillo, E. N. P. (2008). Do mecanicismo ao selecionismo: uma breve contextualização da transição do behaviorismo radical. Psicologia: teoria e pesquisa, 24(3), 375-385.

Huxley, A. (1980). Admirável mundo novo (trad. de Felisberto Albuquerque). São Paulo: Abril. Cultura (Originalmente publicado em 1932).




Nenhum comentário:

Postar um comentário