segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Etologia e Análise do comportamento: concepções afins sobre os fatores determinantes do comportamento

ResearchBlogging.org
Tinbergen (1963) ao escrever sobre os objetivos e os métodos da Etologia discorre sobre quatro perspectivas a partir das quais é possível o estudo do comportamento dos organismos: causação, valor de sobrevivência, ontogenia e evolução (causation, survival value, ontogeny, evolution). Para Tinbergen, a Etologia é o estudo biológico do comportamento e é dedicada a compreender um fenômeno observável que deve ser investigado por meio da observação naturalística e também pela experimentação.

Uma clara compreensão do comportamento envolve o conhecimento de suas causas imediatas, i.e. o quanto a interação direta do organismo com o ambiente evoca as ações momentâneas daquele que se comporta. Nesse aspecto, o comportamento precisa ser entendido enquanto uma atividade do organismo com um grau de complexidade maior que suas funções fisiológicas. Ainda assim, o comportamento funciona como um órgão, uma vez que depende e é limitado pelas estruturas físicas do corpo envolvidas no comportamento apresentado e relaciona-se às características da espécie.

O repertório comportamental que é apresentado pela média dos indivíduos de uma espécie (ou população) provavelmente se mantém presente nesse grupo em função de ter algum valor de sobrevivência. Essa função não é o que determina e direciona o comportamento, pelo contrário, é uma consequência deste. O estudo do valor de sobrevivência de um determinado comportamento possibilita a compreensão do impacto que sua ausência pode ter sobre a longevidade dos indivíduos e, consequentemente sobre a espécie. Longe de ter valores morais atrelados a esse “valor”, a relevância de estudar o comportamento a partir desse ponto de vista revela a importância da permanência ou da extinção de comportamentos na manutenção da espécie.

Os organismos não se comportam de maneira imutável. Não há uma relação fixa na interação com o ambiente que produza respostas idênticas, totalmente pré-programadas e impassíveis de sofrer alterações. O organismo responde ao ambiente do modo que o faz e propicia, por consequência, a sua própria sobrevivência (e da sua espécie) em função da história do seu desenvolvimento individual. O estudo da ontogenia aborda as mudanças que ocorrem no “maquinário do comportamento” (behaviour machinery) durante o desenvolvimento dos indivíduos.

Tinbergen, ao discutir as influências sobre o comportamento ontogenético, pontua que o termo “inato” não deve ser tomado como oposto a “aprendido”, mas sim como oposto a “ambientalmente induzido”. Nesse sentido, torna-se pouco provável que um comportamento possa ser considerado totalmente inato. Estudos que classificam comportamentos típicos de espécies (e.g. padrões fixos de ação) como sendo inatos, muitas vezes o fazem por eliminação. Uma vez que eventos ambientais manipulados não demonstram efeitos sobre o comportamento estudado, assume-se que foram testados eventos ambientais suficientes e que a ausência de alteração no comportamento pode ser atribuída a fatores internos do organismo. Contudo, a forma de validar a influência interna deveria ser a mesma da influência externa: variando fatores internos do organismo e observando sua influência sobre o comportamento.

O comportamento é, então, fruto de relação bidirecional entre propriedades do organismo e variações do ambiente. Essas variações do ambiente interagem com características limitadas por um organismo que partilha semelhanças com os demais membros de sua espécie, sendo que essa espécie possui uma história filogenética que foi moldada pela evolução em termos de estrutura e de comportamento.

A evolução difere dos demais aspectos do estudo do comportamento na medida em que não pode ser colocada diretamente sobre observação, mas sim é reconstituída a partir de dados fósseis entendidos dentro de um contexto hipotético formulado a partir de estudos comparativos com características atuais da espécie e de espécies geneticamente mais próximas.

A contribuição do estudo da evolução no entendimento da determinação do comportamento reside em dois aspectos: 1) a elucidação do curso que a evolução pode ter tomado e 2) o entendimento da sua dinâmica. O primeiro aspecto relaciona-se à reconstrução da trajetória dos ancestrais humanos até o que se tornaram atualmente e o segundo à compreensão do papel da variação e da seleção natural sobre características comportamentais atualmente presentes.

Assim sendo, a análise de um fenômeno comportamental pode ser feita de um ponto de vista proximal, através do estudo das relações causais entre estímulos e respostas e da história de desenvolvimento dos indivíduos ou do ponto de vista distal, por meio da consideração dos processos evolutivos que propiciaram a oportunidade de emissão dos comportamentos à espécie e do valor de sobrevivência que esses comportamentos lhe fornecem.

Skinner (1981) postula que o comportamento varia e é selecionado em três níveis: 1) contingências de seleção natural; 2) contingências de reforçamento; e 3) contingências do ambiente cultural. Esses níveis agem como mecanismos similares sobre a espécie, o indivíduo e o grupo respectivamente. Essa concepção selecionista do comportamento implica que as pessoas se comportam de certa maneira em função de uma seleção que já aconteceu sobre uma variação aleatória.

Com isso, algumas noções são removidas do universo causal do comportamento, tais como propósito, essência, juízos de valor e agentes iniciadores. Em nenhum dos três níveis podemos falar de uma seleção finalista ou de forças mobilizadoras, pois a variação ocorre aleatoriamente e a seleção atua sobre ela, de modo que algumas características ocasionam a continuidade da espécie, do repertório ou da prática social, enquanto outras se extinguem. Além disso, não podemos classificar as consequências seletoras sob as categorias de “boas” ou “ruins”, pois o que pode ser “bom” para um indivíduo não necessariamente o será também para o grupo ou para a espécie e vice-versa.

Os seres humanos estão hoje aptos a promover intervenções na variação de aspectos em diferentes níveis. É possível alterar condições genéticas dos organismos, modelar novos comportamentos, e elaborar novas práticas culturais, todavia, qualquer uma dessas alterações depende de ser selecionada para se manter presente e ser perpetuada seja na espécie, na vida de um indivíduo ou de um grupo.

Baum (1999) chama de fitness (aptidão) a tendência de aumento quantitativo de um genótipo em relação a outros dentro de uma população mediante as pressões seletivas do ambiente. Há três condições que permitem o fitness: 1) a presença constante (por um período) de uma pressão ambiental que torne vantajosa uma característica; 2) a variação genética e 3) a competição. Uma vez que a média da população atinja o fitness, a alteração cessa e a característica se estabiliza.

Baum lista cinco maneiras de a filogenia afetar o comportamento e promover o fitness, através do fornecimento de: 1) padrões constantes de comportamento relacionados à sobrevivência e à reprodução; 2) genótipos responsáveis pela capacidade de condicionamento respondente e 3) de condicionamento operante; 4) mecanismos fisiológicos de privação e saciação; e 5) seleção de tendências que favorecem o condicionamento de certos sinais no condicionamento respondente e que fortalecem certas ações no condicionamento operante.

O fitness ocorre também no nível das interações sociais. A aprendizagem cultural é um operante social, onde o comportamento do grupo programa consequências para o comportamento do outro. Assim como em um processo evolutivo da seleção natural de genótipos, a cultura também apresenta mecanismo de variação, transmissão e seleção. Replicadores, i.e. práticas comportamentais reforçadas por contingências sociais, podem sofrer variação através de: 1) mutação ocasionada por uma reprodução imperfeita do comportamento de outros; 2) recombinação  de repertórios pré-existentes ou 3) migração de indivíduos de uma sociedade para outra de práticas culturais distintas.

A transmissão pode ocorrer via imitação ou comportamento controlado por regras, ou seja, comportamento determinado por antecedentes verbais (Catania, 1999) produzidos pelo comportamento verbal dos membros da comunidade. A seleção ocorre através de uma transmissão seletiva onde a imitação e o seguimento de regras, dentro de um ambiente competitivo de opções a serem imitadas ou seguidas, são alterados de acordo com a probabilidade de sucesso (i.e. consequenciação reforçadora) do comportamento a ser replicado (Baum, 1999).

Claidieré e André (2012) identificaram diferenças importantes quanto aos modos de transmissão genética (GTMs) e os modos transmissão cultural (CTMs). Os GTMs são de dois tipos: biparental e maternal; a transmissão biparental está relacionada ao DNA cromossômico e a maternal ao DNA mitocondrial. Os CTMs podem ser verticais – de pais (biológicos e/ou culturais) para filhos; ou horizontais – de outros membros da comunidade de uma mesma geração. No que concerne à transmissão genética, o que é transmitido não guarda relação com o modo de transmissão e há um número limitado de modos simples e estáveis. Enquanto que na transmissão cultural, modos diferentes influenciam na evolução cultural em função sua multiplicidade e de haver relação entre práticas transmitidas e o modo de transmissão (Claidieré & André, 2012). Além disso, a transmissão vertical é mais lenta que a horizontal, de modo que a velocidade das transformações das práticas culturais é consideravelmente maior que das transformações genotípicas (Baum, 1999; Claidieré & André, 2012).

Micheletto (2001) enfatiza que os níveis de seleção são atuantes sobre uma ampla variedade que se mantém em competição entre as variantes de cada nível. A seleção atua sobre várias espécies, vários repertórios e várias culturas. A variabilidade e a competição são, portanto, mecanismos básicos para a existência das espécies e a consequência desses mecanismos é o processo de seleção que, na evolução da espécie humana, ocorre pela seleção natural, operante e social.

Esses estágios filogenéticos evoluíram e foram selecionados mediante o sucesso obtidos por novas formas de adaptar o comportamento ao meio. A seleção natural prepara a espécie para o ambiente atual, contudo, esse ambiente não permanece constante. A seleção operante permite que o organismo se ajuste ao seu ambiente, com novas aprendizagens. Entretanto, por mais que o operante forneça ao organismo a oportunidade de adquirir novos repertórios em função das consequências da sua atuação sobre o ambiente, o tempo de vida do organismo é curto e, com isso, sua experiência direta é limitada, pois seu processo de aprendizagem por ensaio-e-erro é lento. A seleção cultural permite que o organismo aprenda não apenas com sua própria experiência, mas também com a experiência do outro, otimizando a amplitude do seu repertório (Micheletto, 2001).

A Etologia e a Análise do Comportamento, portanto, apresentam concepções convergentes a respeito dos processos envolvidos na multideterminação do comportamento e atuam como ciências afins com enfoques não muito distintos, pois toda análise ou descrição do comportamento em alguma medida deverá considerar aspectos distais e proximais para a construção de um entendimento completo dos fenômenos comportamentais.

Por hoje é só!
Rubilene Borges

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Referências

Baum, W. (1999). Compreender o behaviorismo: ciência comportamento e cultura. Porto Alegre: Artes Médicas.

Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. Porto Alegre: Artmed.

Claidière, N., & André, J. B. (2012). The transmission of genes and culture: a questionable analogy Evolutionary Biology (39), 12-24 DOI: 10.1007/s11692-011-9141-8

Micheletto, N. (2001). Variação e seleção: as novas possibilidades de compreensão do comportamento humano. Em R. A. Banaco (Org.), Sobre comportamento e cognição - vol. 1. Aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista (pp. 116-129). Santo André: ESETec.

Skinner, B.F. (1981). Selection by consequences. Science, 213, 501-504.

Tinbergen, N. (1963). On aims and methods of ethology. Zeitschrift für Tierpsychologie, 20, 410-433 DOI: 10.1111/j.1439-0310.1963.tb01161.x

2 comentários:

  1. Post muito bom! Realmente também vejo muita semelhança entre as duas áreas de estudo do comportamento. Não só com a Etologia (clássica) como também, em alguma medida, com a Psicologia evolucionista (principalmente no que diz respeito a evidências, e algumas proposições teóricas), principalmente no campo sa evolução cultural. Acredito que no futuro essas áreas dialogem com maior facilidade e frequência, quiçá sejam os elementos para uma abordagem evolucionista (e portanto, natural) sintética do comportamento, uma vez que o objeto é o mesmo, e a abordagem (evolucionista) também, as diferenças, majoritariamente conceituais. A AC não perderia nada dialogando com a Etologia de maneira mais sistematizada. Particularmente espero o dia em que tal síntese ocorra, semelhante a que ocorreu na biologia, e para isso, aos poucos, já visualisamos pequenos passos nessa direção, e penso que esse post é consequencia disso. Enfim, parabéns! :-)

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  2. Obrigada, Gehazi. Concordo com tudo que você disse e creio que aos poucos a tendência seja esse diálogo ocorrer com mais frequência. Minha formação até o mestrado foi em Análise do Comportamento e estou voltando meu doutorado para a área de Eco-etologia justamente como forma de ampliar meu repertório e desenvolver habilidade para dialogar nas duas áreas. Minha opinião é que todo estudioso do comportamento deveria explorar mais de uma concepção sobre seu objeto de estudo. Claro que ninguém irá dominar todo esse conhecimento, afinal dentro das próprias especialidades já há um mundo de coisas a serem investigadas, mas pelo menos abre os horizontes para novas possibilidades.

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