terça-feira, 20 de julho de 2010

Um arquetipo comum existe em termos de comportamento? Como um senso, ou melhor, consenso?



Sim. Todo comportamento é selecionado por suas consequências.

ResearchBlogging.org
É uma premissa antiga, e fácil de ser observada. Uma de suas primeiras formulações foi ainda na filosofia do Séc. XIX, no princípio de Spencer-Bain. Dois filósofos (Herbert Spencer e Alexander Bain) afirmaram e argumentaram, a partir da lógica filosófica da época, que à toda ação que se segue um resultado benéfico, pratico ou emocional, há um fortalecimento. O inverso também foi afirmado: a toda ação a qual se segue algo desagradável, há um enfraquecimento. Segundo estes filósofos, o pareamento de emoções positivas e negativas com a ação era a responsável pelo fortalecimento ou enfraquecimento das ações em ocorrências futuras.

No início do Sec. XX, o pioneiro Psicólogo Experimental E. L. Thorndike apresentou uma das primeiras leis científicas sobre a aprendizagem, a lei do efeito.

Fig 1. Um exemplo da puzzle-box utilizada por caixa (a esquerda) e uma típica curva de aprendizagem, demonstrativa da lei do efeito (a direita).

Tratava-se de uma demonstração empírica do princípio de Spencer-Bain. Thorndike demonstrou numa série de experimentos, com sujeitos de diferentes espécies, que determinados comportamentos, que produziam consequências benéficas ao sujeito, em determinadas situações, tendiam a ter ocorrência predominante em situações similares. Um dos exemplos clássicos dados por Thorndike é o do gato na caixa-problema. Um gato qualquer, quando colocado preso no interior de uma caixa-problema, a qual ele nunca antes teve contato, começa a apresentar uma série de diferentes comportamentos. Eventualmente, de gato pra gato, o animal acaba descobrindo o mecanismo que abre a portinhola da caixa (um pequeno ferrolho escondido em um dos cantos da caixa). A partir disso, toda vez que o gato é re-exposto a situação da caixa-problema, a resposta que produz a abertura da portinhola se torna preponderante em relação as que outrora também ocorreram nesta mesma situação. Thorndike então, na mesma linha de raciocíno de Spencer e Bain, argumenta que comportamentos que produzem efeitos prazeirosos são fortalecidas, e comportamentos que produzem efeitos desagradáveis são enfraquecidos. (Esta é a formulação da Lei do efeito forte de Thorndike. Posteriormente, este autor descartou a noção de enfraquecimento do comportamento, e esta noção ficou conhecida como a Lei do efeito fraca).

Vídeo 1. Parte de um documentário, de origem desconhecida, sobre Thorndike.

Entretanto, a mediação do aumento ou diminuição da frequência do comportamento por agentes emocionais vagos e pouco claros comprometeu a aceitação destes dois modelos.

B.F. Skinner, já na segunda metade do Séc.XX, apontou uma saída às explicações mediacionais embaraçosas: o modelo de seleção pelas consequências. Segundo o famoso biólogo e divulgador da ciência Richard Dawkins, "Seleção pelas consequências" é uma boa frase (Dawkins, 1984), pois da ênfase ao ambiente e seus processos seletivos (Laurenti, 2009). Neste modelo, o comportamento é selecionado (aos mesmos moldes da seleção natural) pelas consequências que o seguiram, contigua e contingêntemente, em situações anteriores, em ordem probabilística. Desta forma, uma resposta "R", que ocorre em um contexto "Sd" e produz uma consequência "S", será selecionada pela função que aquela consequência "S" teve. Se em situações futuras, no mesmo contexto "S", ou em contexto similar (variando em um ou vários aspectos) aquela resposta volta a ocorrer com predominância, podemos afirmar que o estímulo "S" selecionou aquela resposta, e é portanto, para os iniciados, um S+ (princípio da aprendizagem operante). O modelo de seleção por consequências rompe com os anteriores por adotar uma postura probabilística. Não há um agente causador 1:1, não há causa e efeito mecanicista, há sim um controle contextual e uma seleção da variação que cria uma relação funcional entre uma gama de diferentes eventos. O princípio de Spencer-Bain e a lei do efeito de Thorndike, ao postular que as consequências criam sensações ou emoções internais, adota um modelo causal mecanicista, de causa e efeito, mediacional, onde é a sensação interior que causa, em proporção rígida, o comportamento. Tal rigidez é deixada de lado no modelo de seleção pelas consequências, já que nele, a medição do comportamento é feita com base na probabilidade de sua ocorrência. Determinados contextos e determinadas histórias pessoais aumentam ou diminuem a probabilidade de uma gama distinta de classes de resposta, que estão em constante vias de seleção pelas consequências que as seguem.

Texto de Hernando Neves Filho
_______________________
Referências

Dawkins, R. (2010). Replicators, consequences, and displacement activities Behavioral and Brain Sciences, 7 (04) DOI: 10.1017/S0140525X00026790

Laurenti, C. (2009). Criatividade, liberdade e dignidade: impactos do darwinismo no behaviorismo radical Scientle studia [PDF via SciELO]

___________________
Bibliografia

-
Sobre a lei de Spencer-Bain
-

Bain, A. (1902). The senses and the intelect. New York : D. Appleton and Company.
- Obra original de Alexander Bain, pode ser baixada na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/sensesintellect00bain

Boakes, R. (1984). From Darwin to behaviorism: psychology and the mind of animals. Cambridge University Press.
- Um excelente livro de história da psicologia experimental. Leitura recomendadíssima! A discussão sobre o princípio de Spencer-Bain se encontra no capítulo 1.

Spencer, H. (1873). The principles of psychology. New York : Appleton.
- Obra original de Spencer, pode ser baixada na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/principlespsych35spengoog

-
Sobre a Lei do Efeito, de Thorndike
-

Thorndike, E. L. (1911). Animal inteligence: experimental studies. The Macmilliam Company.
- Histórica tese de doutoramento de Thorndike, onde há um grande número de demonstrações empíricas de sua lei do efeito. Pode ser baixado na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/animalintellige00thorgoog

-
Sobre o modelo de Seleção por Consequências
-

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences Science, 213, 501-504 : 10.1126/science.7244649
- Artigo clássico onde Skinner apresenta sucintamente seu modelo. O .pdf traduzido pode ser adquirido aqui: http://www.bfskinner.org/BFSkinner/Brazil_files/Selecao_por_consequencias.pdf

Nenhum comentário:

Postar um comentário