segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A Análise do Comportamento propõe alguma estratégia de treinamento para transformar a prática da leitura em um hábito prazeroso?

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Não encontrei estudos específicos em Análise do Comportamento sobre o assunto.

ResearchBlogging.orgA leitura pode ser um hábito prazeroso a depender das contingências. Em situação de ensino programado, o chamado “método Keller” (Keller, 1966) visa uma estratégia de ensino, por assim dizer, mais prazerosa, baseada em reduzir a níveis mínimos as contingências aversivas. Esse método é realizado através de um Sistema Personalizado de Instrução (SPI). O SPI consiste em ensinar os alunos por meio de tutorias, de maneira que o aluno seja atendido individualmente por um professor ou monitor. Além disso, o ritmo do ensino é ditado pelo ritmo do próprio aluno, não havendo, portanto, uma cobrança para que ele atinja o critério de velocidade de aprendizagem de um aluno ideal.



Fora do ambiente de ensino, um leitor pode diminuir a aversividade da leitura sortindo o conteúdo dos textos; intercalando leituras mais difíceis e longas, como as acadêmicas, com leituras mais acessíveis e breves, como revistas, contos, quadrinhos etc. Também é possível arranjar contingências de reforçamento positivo colocando a leitura obrigatória antes de eventos reforçadores (e.g. ver filmes, sair com amigos).

Acima de tudo, ler é um comportamento que demanda um custo de resposta, que deve ser reduzido gradativamente em comparação às contingências reforçadoras. Para isso, o ambiente deve ser o mais ergonomicamente favorável, bem como não se deve exceder o tempo de leitura, que pode ocasionar fadiga do comportamento e comprometer o responder discriminado às relações verbais do texto, o que podemos chamar de compreensão.

Rubilene.
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Atenção: as respostas aqui fornecidas têm caráter informativo e não devem ser encaradas como terapias ou sugestões de qualquer tipo de intervenção. Para esse tipo de serviço, deve-se procurar diretamente um profissional autorizado e qualificado que possa analisar as contingências com dados suficientes e traçar um procedimento específico.
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Referências

Keller, F. S. (1966). Engineering personalized instruction in the classroom. Revista Interamericana de Psicologia.

Ver também:

Skinner, B. F. (1958). Teaching Machines. Science, 128, 969-977. PDF

6 comentários:

  1. Pra mim serviu a "autoforçação". Achava chato livros longos sem figuras, mas encarei como desafio e fui lendo. Com o tempo acostumei-me e até sinto falta quando não tenho algo pra ler.

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Complementando o post:

    Skinner escreveu sobre como aprimorar a prática da escrita. Ele, como um catedrático de Harvard e arauto de uma revolução na psicologia escrevia bastante, e era cobrado cada vez mais e mais. A grande dica que ele dava era sobre o ambiente onde a escrita/leitura ocorria e o autocontrole envolvido.

    Sobre o ambiente ele diz que o importante é torna-lo o mais aprazível possível. Temperatura agradável, cadeiras confortáveis, iluminação adequada etc. Tem de ser um ambiente onde se queira permanecer. Dai é só tornar a leitura a mais provável naquele ambiente, tornando-o a sua sala de leitura, repleta de livros.

    Sobre o autocontrole, Skinner diz que deve-se ficar atento as consequências a longo prazo do escrever/ler. Escrever um artigo, no caso dele, era fortalecer a Análise do Comportamento, era por um ponto a mais no seu sonho, que estava (e ainda está) muito distante. Ler, seria uma forma de adquirir novos operantes verbais, novos intraverbais, e assim melhorar suas arguições científicas retóricas. Tudo isso tinha de ser, inicialmente posto como consequências atrasadas, para com o tempo, tornar as nuances da leitura e escritas, elas mesmas, reforçadoras.

    Não lembro agora em qual artigo eu vi isso tudo. Sei que era um artigo do Skinner onde ele falava algo sobre como ser um escritor produtivo. Possivelmente no The Behavior Analyst. Fora esse, há um belo artigo que mostra como Skinner organizava sua vida (Epstein, 1997) que toca nesses pontos.

    Existe também uma série de artigos de Skinner sobre como aprimorar a eficácia da sala de aula (Skinner, 1958, 1964), e o seu clássico livro Tecnologia de Ensino (Skinner, 1972). Há também o belíssimo artigo, The Free and Happy Student (Skinner, 1974), disponível na íntegra nas referências desde comment. Nessas obras, o que é apresentado não é bem uma idéia objetiva de como tornar a leitura prazerosa, mas é quase isso.

    Também não li muita coisa tecnológica sobre o tema, mas sei que o Journal of Aplied Behavior Analysis é um rico repositório de trabalhos de aprimoramento de leitura e escrita. Basta procurar por "reading" ou "writing" no sistema de busca ( http://seab.envmed.rochester.edu/jaba/jabaindx.asp ). Muita coisa pra ler.
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    Referências

    Epstein, R. (1997). Skinner as self manager. Journal of Applied Behavior Analysis, 30. [PDF -> http://seab.envmed.rochester.edu/abstracts/JabaAbstracts/30/30-545.Htm]

    Skinner, B. F. (1958). Teaching Machines. Science, 128, 969-977.

    Skinner, B. F. (1964). New methods and new aims in teaching. New Scientist,122.

    Skinner, B. F. (1973). Tecnologia de Ensino. E.P.U. Brasil.

    Skinner, B. F. (1974). The Free and Happy Student . New York University Education Quarterly, Vol. IV, No. 2 [Pode ser lido aqui: http://www.education-consumers.org/research/skinner1973.htm ]

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  3. Também comecei com a "autoforçação", hehe.

    Hoje em dia, uma "técnica" que eu uso bastante é intercalar leitura e outra atividade. Escolho um livro e um jogo de videogame, e fico intercalando entre um e outro. Canso de um, vou para o outro. Assim perco madrugadas inteiras!

    Outra coisa que descobri funcionar comigo é usar marca texto e post-it para anotações e comentários. Meus amigos mais conservadores acham um insulto eu usar isso em livros, mas pra mim, a leitura se torna mais dinâmica, mais participativa. A alegria de ver um livro terminado, e todo cheio de marca texto e post-its saindo pela beirada, é sempre revigorante!

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  4. Eu sou uma conservadora. Mas para quem o marca-texto funciona como reforçador, go ahead!

    Obrigada pelo complemento, Hernando.

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  5. Ainda me lembro de ter 18 anos e de não só detestar ler livros como nunca ter lido nenhum completamente. Na altura comprei um livro generalista sobre psicologia que explicava exactamente um método neste género, fui seguindo as instruções e "voilá". Hoje em dia, sou capaz não só de estar 12 horas a ler um livro sem grande esforço como é aquilo que mais faço.

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