quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dawkins e punição


Há alguns anos ando encantado com as obras de Richard Dawkins, eminente biólogo e divulgador científico equiparável a Carl Sagan.

Meu último contato com sua obra foi a partir do belíssimo livro The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution, de 2009. Dawkins consegue, como de costume, ser acessível e intrigante em cada linha.

Encontrei neste livro uma breve referência ao modelo de seleção por consequências (Skinner, 1981). Esta é a terceira vez, que dentro de minha ainda bastante incompleta leitura de Dawkins, encontro uma referência a algo da Análise do Comportamento (a primeira foi uma breve menção à uma Caixa de Skinner, em uma nota na página 463 da segunda edição brasileira de O Gene Egoísta, a segunda em um trecho do documentário Enemies of Reason, que pode ser visto ao final do post, onde Dawkins apresenta o clássico estudo de superstição em pombos de Skinner).

A referência surge quando Dawkins começa a traçar uma de suas características e cativantes metáforas. Neste caso, Dawkins está falando de "quatro memórias", sendo a primeira o DNA, a segunda o sistema imunológico, a terceira o sistema nervoso e a quarta a cultura. A breve referência de interesse surge ao discutir a "terceira memória"

O trecho se encontra no capítulo 13, na página 407 da edição hard cover em inglês. Vamos a ele.

"... a terceira memória funciona por um processo de tentativa-e-erro que pode ser visto como análogo à seleção natural. Enquanto procura por comida, um animal pode 'tentar' várias ações. Apesar de não ser estritamente aleatório, este estágio de tentativas é uma analogia razoável à mutações genéticas. A analogia com a seleção natural é o 'reforçamento'..." (tradução livre, grifos meus)

Sensacional! A idéia é essa. O reforçamento é um processo de seleção que atua em nível ontogenético, ou seja, durante a história de vida de um organismo. O comportamento é selecionado pelas suas consequências, sendo o reforço uma delas. Devo admitir que não gostei das áspas no 'reforçamento', entretanto, isso é o menor dos problemas. Dawkins continua o trecho em um desfecho repleto de infelicidade para o leitor que tem apreço pelo tema.

"A analogia com a seleção natural é o 'reforçamento', o sistema de recompensas (reforçamento positivo) e punições (reforçamento negativo)." (idem)
Que diabos de parêntese foi esse segundo? Como os iniciados já sabem, punições não são casos de reforçamento negativo. Punição é um processo simétrico ao reforçamento (quando a consequência de uma resposta diminui sua frequência). Reforçamento negativo é um processo de fortalecimento (aumento da frequência) de uma resposta quando sua consequência é a eliminação de um estímulo funcionalmente aversivo (fuga ou esquiva). Os dois processos são diametralmente opostos (um diminui a frequência do responder, é punitivo, e outro aumenta a frequência, é reforçador). Ambos são processos de seleção (análogo a seleção natural) do responder em nível ontogenético.

"A punição é facilmente confundida com o reforçamento negativo. Em ambos os casos estão envolvidos um mesmo tipo de estímulo (um estímulo aversivo) [...] a punição remove o comportamento de um repertório, ao passo que o reforçamento positivo gera comportamento." Skinner, B. F. (1974). About behaviorism, pg. 68; ou, pg. 56 na péssima edição em português. Parêntese meu.

Admito que foi razoavelmente engraçado ver essa, que é uma confusão bastante comum em alunos de curso de introdução à Análise do Comportamento, ser replicada em uma obra cientificamente tão respeitável quanto esta. Admito também que Skinner, no início de sua obra, deu motivos para a confusão se instalar (entretanto, em que lugar do mundo o Behavior of Organisms, de 1938, é uma leitura obrigatória de graduação, ou mesmo pós-graduação?). Admito também ficar levemente irritado com a forma banal com que o tema foi tratado. A analogia do reforço, como um nível de seleção ontogenético, foi posta como óbvia (não é!)

ResearchBlogging.org
Possivelmente a terminologia técnica correta não tenha tanta importância para a idéia do capítulo. De qualquer forma, ela é equivocada e dissemina um mal entendido. O que fazer? Reclamar em um blog? Não, um blog é só um passatempo (e há quem diga que se trata de um passatempo de muito mal gosto).


A notícia pode ser velha, mas estou redigindo um email para a Richard Dawkins Foundation e para a comissão de disseminação de conteúdo sobre Análise do Comportamento da ABAI (Association for Behavior Analysis International) relatando meu desconforto, supondo que ele seja generalizado pela área. Espero chover no molhado.

De qualquer forma, com ou sem ressalvas, continuo um grande admirador da obra de Dawkins.

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Bibliografia

Dawkins, R. (2009). The greatest show on earth: the evidence for evolution. Free Press.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. Free Press.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences Science, 213, 501-504 [PDF em português]


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Extra:




Vídeo 1. Trecho legendado do documentário Enemies of Reason, de Dawkins, onde é apresentado o clássico estudo de Skinner sobre superstição em pombos (a apresentação do estudo começa a partir de 5:20)

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