sábado, 11 de setembro de 2010

O que o brasileiro acha da ciência?

Espere pelo pior.

Faça você mesmo o levantamento: vá a uma rede social popular entre os tupiniquins e pesquise o termo "cientistas". Fiz isso despretenciosamente no twitter, como um passatempo de uma manhã de um sábado preguiçoso. Esperava encontrar alguma notícia ou comentário proveitoso.

Que surpresa! Só o print screen pode descreve-la. Clique e veja.
Sério, veja. Veja!




Figura 1. Amostra aleatória de resultados da procura pelo termo "cientistas" no twitter. Todos os nomes e imagens foram omitidos, mantendo a identidade dos participantes da amostra anônima.

Preocupante, concorda? O print screen é só uma pequena amostra, nele foram agrupados somente resultados sucessivos. Note a quantidade de comentários ingratos, em diferentes graus de anti-cientificismo. A lista, para além do print screen, é dolorosamente extensa. Ataques, desconfianças, e puro desconhecimento do pensamento científico. Os comentários jocosos ou brincalhões foram escassos. Comentários sérios, ou pelo menos de apreciação e apreço por tentativas de entender o mundo através da ciência foram nulos.

Agora, a melhor parte. Não resisti e fiz um breve levantamento sociográfico da amostra. Encontrei profiles de jovens estudantes, administradores, advogados, e até um detentor de título de mestre. Que tipo de sistema educacional é esse?! Como se educa sem ciência, ou pior, com descrédito à ciência?! A cada clique eu tentava me convencer que o pensar, como comportamento, fosse uma versão restrita do pensamento-sem-imagens da escola de Würzburg. A todo instante os intraverbais evocados foram trágicos, imagens decadentes.

O sistema brasileiro de ensino é totalmente anti-cientificista. Não se ensina a pensar. Não há lugar para o ceticismo salutar. Não há uma alfabetização científica (mal há alfabetização tradicional...). Conteúdos são ensinados em sabatinas. O conhecimento é construído sobre a credulidade no discurso de autoridade do professor. Os alunos não são estimulados à perguntar, cabe a eles apenas decorar. Aprender alguns comportamentos verbais, e os emitir em forma escrita em uma ou duas ocasiões ao ano. A grade curricular é imposta, o aluno não estuda o que quer, e nem é levado a descobrir o que gosta (o termo "grade" é adequadíssimo) . Suas perguntas obtém respostas curtas, incompletas, e que não estimulam nem um pouco a curiosidade (o motor perpétuo da ciência). A resposta está no livro (quando há livros...), ponto final. Esta foi a educação escolar que eu tive. Aposto a vitória do Tiririca nestas eleições, que esta também foi a sua educação escolar.

"Por que a Lua é redonda? perguntam as crianças. Por que a grama é verde? O que é um sonho? Até onde se pode cavar um buraco? Quando é o aniversário do mundo? Por que nós temos dedos nos pés? Muitos professores e pais respondem com irritação ou zombaria, ou mudam rapidamente de assunto. 'Como é que você queria que a Lua fosse quadrada?'. As crianças logo reconhecem que de alguma forma esse tipo de pergunta incomoda os adultos. Novas experiências semelhantes, e mais uma criança perde o interesse pela ciência. Por que os adultos tem de fingir onisciência diante de crianças de seis anos é algo que nunca vou compreender." Sagan, C. (1999). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. Companhia das Letras. p 312.

Entretanto, amostras educadas da população não se importam com a ciência, parte da população nem sequer enxerga a ciência como um empreendimento válido. Me pergunto: de onde veio este ceticismo incauto, repleto de desapreço pelo empreendimento que nos proporcionou o mundo em que vivemos?

"Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara." Sagan, C. (1999). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. Companhia das Letras. p 39.


Obs.: Atente que o conteúdo que o autor aqui apresentou não foi avaliado por seus pares. O que caracteriza tudo como um mero exercício de crítica e mau humor.


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