quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Quais os determinantes do comportamento? Em relação à Análise Experimental do Comportamento, a ênfase recai sobre qual fator?

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ResearchBlogging.org
Primeiramente, definamos o que vem a ser “determinante” para a Análise do Comportamento. Determinantes são relações funcionais. Usualmente, a ciência trabalha com a determinação por “causa-e-efeito”, na qual temos que dada a ocorrência de um evento A, este causa a ocorrência do evento B, garantidamente e dentro de uma relação 1:1. Se eu aplico uma força X em um objeto de massa Y, com atrito W, o objeto se move em uma velocidade Z.

Influenciado por Ernest Mach, Skinner propôs que o comportamento deva ser analisado em termos de funções probabilísticas entre eventos ambientais e do organismo. As relações funcionais não implicam em garantia de 100% de ocorrência do evento B mediante o evento A. O evento B, isto é, o comportamento, pode ser função simultaneamente do fator determinante A, C, D, J, K etc. O comportamento é multideterminado (Chiesa, 2006, p. 96-121). E cada comportamento emitido depende diretamente do ambiente histórico e do ambiente imediato do emissor (Skinner, 1953/2005, p. 31).

Todo organismo é biológico, logo, o comportamento de um organismo depende da história evolutiva daquele organismo, que chamamos de filogênese. É por essa determinação que somos suscetíveis ao nosso ambiente (através de receptores exteroceptivos, interoceptivos e proprioceptivos). A filogênese determina uma porção de nosso comportamento, e dá a base para outras determinações. Neste âmbito estão as causas biológicas do comportamento e os reflexos biologicamente importantes, que outrora foram chamados de instintivos.

Todo comportamento ocorre em um contexto, em um local, em um determinado tempo. Todo comportamento opera sobre o mundo e assim o altera, o que por sua vez, também altera comportamentos subseqüentes. (Skinner, 1957, p.1). As alterações podem ser facilmente identificáveis, como quando você diz algumas palavras doces a alguém que você gosta, e assim recebe um tratamento igualmente afável em retorno. Também podem ser alterações triviais e pouco notáveis, como quando você lembra o nome de um velho amigo após fazer uma pergunta em pensamento sobre a data de hoje, que coincidentemente é a data do aniversário do seu amigo. O contexto evoca, de maneira probabilística, uma determinada gama de respostas. Entretanto, quem se comporta é um organismo, e um organismo, além da história da espécie, também carrega uma história de vida. Dependendo da história de vida, uma pessoa que acorda em pânico numa madrugada silenciosa, sem conseguir movimentar seu corpo, pode achar que está sendo abduzida por extraterrestres, como visto nos filmes, ou estar ciente de que está passando por um episódio de paralisia do sono, como diagnosticado pelo seu médico. Tudo depende do que ela conhece, do que ela acredita, instâncias que dependem inteiramente de sua história de vida. A história de vida do organismo, que chamamos de ontogênese, criada em cima das possibilidades da história filogenética, em contato com um contexto, determinam probabilisticamente o comportamento que ali ocorre, naquele instante. A história cria um repertório de comportamentos, o contexto faz com que determinados comportamentos sejam mais prováveis de ocorrer, e as consequências destes comportamentos os selecionam.

Quando se trata de humanos, grande parte da história de vida do organismo é social, ou seja, ocorre em contato com outros membros da espécie, em uma cultura. O contexto social antecede e ultrapassa a vida de uma pessoa. Práticas culturais são criadas e mantidas pelo comportamento sincronizado de um grupo de indivíduos. Grande parte de nossas práticas culturais são mantidas por comportamento verbal. Graças ao conhecimento acumulado por gerações sobre o efeito de determinadas contingências, hoje todo pai ensina seu filho a escovar os dentes. Inicialmente a criança apenas segue a regra, pois seu pai os demais membros da cultura assim o recomendam. Entretanto, a criança pode manter este comportamento posteriormente pelas suas consequências diretas, como o sabor de uma pasta de dente agradável ou a manutenção da saúde bucal. Em meio social, contextos e consequências de comportamentos de organismos individuais se entrelaçam, produzindo resultados que, por um lado não são produto direto da ação de um indivíduo, mas que por outro, quando em conjunto com outras contingências, criam um efeito a longo prazo que afeta o indivíduo novamente. É o caso do entupimento de um canal de esgoto pelo acúmulo de lixo. Uma criança que joga um pedaço de papel no caminho do esgoto não entope a via. Entretanto, se 50 crianças jogarem, a via entope, e a partir disso (em um mundo ideal) começam as campanhas de educação ambiental.

Os determinantes do comportamento atravessam estes três níveis, de forma inclusiva. Todo comportamento tem parte de sua determinação na filogenia, na ontogenia, e, se tratando de animais gregários como os humanos, na cultura (Moore, 1990; Skinner, 1981). Tendo isso em vista, o Analista do Comportamento realiza um recorte epistemológico, focando no nível que mais tem relevância na determinação de um comportamento específico. Tratando de fobias, sabemos que há um forte componente respondente, já que o estímulo eliciador da fobia, como uma aranha para um aracnofóbico, dispara uma sequência de poderosas respostas fisiológicas, como o aumento do ritmo cardíaco e a ativação glândulas hormonais específicas. Em um caso desses, uma intervenção direta na fisiologia seria improvável, e um tanto quanto incômoda, entretanto, é possível alterar a cadeia respondente a partir de uma intervenção na história de aprendizagem do indivíduo, a partir da aplicação de procedimentos de dessenssibilização sistemática com o estímulo fóbico.

Desta forma, a ênfase é condicional ao problema em questão. Em problemas de intervenção, a ênfase é prática. O foco fica nos determinantes possíveis de serem modificados, que em geral estão no ambiente externo e imediato (já que modificar o passado e o cérebro ainda é material de ficção científica). Em se tratando de pesquisa, o tema é obrigatoriamente tratado em sua multideterminação. Um estudo empírico pode tratar de um foco especial, mas ele deve sempre dialogar com as demais possibilidades de causação.

Att,
Hernando Neves Filho e Rubilene Borges.
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Referências

Chiesa. M. (2006). Behaviorismo Radical: a filosofia e a ciência. Brasília: IBAC Editora e Editora Celeiro.

Moore, J. (1990). On the “causes” of behavior. The Psychological Record, 40, 469-480.

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 231, 501-504.

Skinner, B. F. (2005). Science and Human Behavior. B. F. Skinner Foundation. Publicado originalmente em 1953.

Leituras Complementares:

Aló, R. M. (2005). História de Reforçamento. Em J. Abreu-Rodrigues & M. R. Ribeiro (Orgs.). Análise do Comportamento: pesquisa, teoria e aplicação (pp.45-62). Porto Alegre: Artmed.

Andery, M . A. P. A., & Sério. T. M. A. P. (2001). Behaviorismo Radical e os determinantes do Comportamento. Em H. J. Guilhard, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Amorim (Orgs.). Sobre Comportamento e Cognição, 7 (pp. 137-140). Santo André: ESETec.

Cirino, S. (2001). O que é história comportamental. Em H. J. Guilhard, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Amorim (Orgs.). Sobre Comportamento e Cognição, 7 (pp.132-136). Santo André: ESETec.


sábado, 11 de setembro de 2010

O que o brasileiro acha da ciência?

Espere pelo pior.

Faça você mesmo o levantamento: vá a uma rede social popular entre os tupiniquins e pesquise o termo "cientistas". Fiz isso despretenciosamente no twitter, como um passatempo de uma manhã de um sábado preguiçoso. Esperava encontrar alguma notícia ou comentário proveitoso.

Que surpresa! Só o print screen pode descreve-la. Clique e veja.
Sério, veja. Veja!




Figura 1. Amostra aleatória de resultados da procura pelo termo "cientistas" no twitter. Todos os nomes e imagens foram omitidos, mantendo a identidade dos participantes da amostra anônima.

Preocupante, concorda? O print screen é só uma pequena amostra, nele foram agrupados somente resultados sucessivos. Note a quantidade de comentários ingratos, em diferentes graus de anti-cientificismo. A lista, para além do print screen, é dolorosamente extensa. Ataques, desconfianças, e puro desconhecimento do pensamento científico. Os comentários jocosos ou brincalhões foram escassos. Comentários sérios, ou pelo menos de apreciação e apreço por tentativas de entender o mundo através da ciência foram nulos.

Agora, a melhor parte. Não resisti e fiz um breve levantamento sociográfico da amostra. Encontrei profiles de jovens estudantes, administradores, advogados, e até um detentor de título de mestre. Que tipo de sistema educacional é esse?! Como se educa sem ciência, ou pior, com descrédito à ciência?! A cada clique eu tentava me convencer que o pensar, como comportamento, fosse uma versão restrita do pensamento-sem-imagens da escola de Würzburg. A todo instante os intraverbais evocados foram trágicos, imagens decadentes.

O sistema brasileiro de ensino é totalmente anti-cientificista. Não se ensina a pensar. Não há lugar para o ceticismo salutar. Não há uma alfabetização científica (mal há alfabetização tradicional...). Conteúdos são ensinados em sabatinas. O conhecimento é construído sobre a credulidade no discurso de autoridade do professor. Os alunos não são estimulados à perguntar, cabe a eles apenas decorar. Aprender alguns comportamentos verbais, e os emitir em forma escrita em uma ou duas ocasiões ao ano. A grade curricular é imposta, o aluno não estuda o que quer, e nem é levado a descobrir o que gosta (o termo "grade" é adequadíssimo) . Suas perguntas obtém respostas curtas, incompletas, e que não estimulam nem um pouco a curiosidade (o motor perpétuo da ciência). A resposta está no livro (quando há livros...), ponto final. Esta foi a educação escolar que eu tive. Aposto a vitória do Tiririca nestas eleições, que esta também foi a sua educação escolar.

"Por que a Lua é redonda? perguntam as crianças. Por que a grama é verde? O que é um sonho? Até onde se pode cavar um buraco? Quando é o aniversário do mundo? Por que nós temos dedos nos pés? Muitos professores e pais respondem com irritação ou zombaria, ou mudam rapidamente de assunto. 'Como é que você queria que a Lua fosse quadrada?'. As crianças logo reconhecem que de alguma forma esse tipo de pergunta incomoda os adultos. Novas experiências semelhantes, e mais uma criança perde o interesse pela ciência. Por que os adultos tem de fingir onisciência diante de crianças de seis anos é algo que nunca vou compreender." Sagan, C. (1999). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. Companhia das Letras. p 312.

Entretanto, amostras educadas da população não se importam com a ciência, parte da população nem sequer enxerga a ciência como um empreendimento válido. Me pergunto: de onde veio este ceticismo incauto, repleto de desapreço pelo empreendimento que nos proporcionou o mundo em que vivemos?

"Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara." Sagan, C. (1999). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. Companhia das Letras. p 39.


Obs.: Atente que o conteúdo que o autor aqui apresentou não foi avaliado por seus pares. O que caracteriza tudo como um mero exercício de crítica e mau humor.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sêneca e suas análises do comportamento

"Procura o que escrever, não como escrever" (Lucius Annaeus Seneca 4 a.C - 56 d.C)


A leitura de uma obra de Sêneca (celebrado filósofo romano que flerta com um paradóxo eclético entre estoicismo e epicurismo), numa sexta feira a noite, me fez atentar para algumas análises de contingências muito acertadas feitas em uma de suas epístolas à Lucílio.

Em "Da futilidade das meias-medidas", Sêneca prescreve:

"Certas coisas só se mostram para quem está presente [...] ninguém pode aconselhar à distância: deve-se deliberar no momento da ação."

Belíssimo! Quem "está presente" está em contato direto com as contingências, "à distância" só restam as descrições de contingências. Um conselho deve ser deliberado no "momento da ação", ou seja, levando em conta o contexto em que o comportamento de quem recebe o conselho ocorre. Mas a análise é mais certeira, Sêneca segue:

"Não basta estar presente, mas permanecer vigilante e observar a ocasião propícia."

Assim se programa uma contingência.

Mais adiante, Sêneca observa alguns fatos de forma curiosamente atraente:

"Assim, queixam-se da ambição como de suas amantes, isto é, se olhares o seu verdadeiro sentimento, verás que não as odeiam, apenas brigam com elas."

O ódio relatado é inegavelmente parte do fenômeno. O "ódio" pode ser uma condição corporal relatável, criada por uma comunidade verbal, a partir de uma determinada história ontogenética de observação ao próprio corpo. O sentimento completo, é o próprio comportamento. O verdadeiro sentimento é a "briga", o "ódio" é sua descrição.

Ainda na mesma epístola, Sêneca comenta um dos efeitos indesejáveis do controle por contingências de reforçamento:

"... poucos são presos pela servidão, muitos se deixam prender por ela"

O controle por contingências de reforçamento, diferentemente do controle aversivo, dificilmente gera contracontrole. Por mais politicamente aceitável que sejam, nem todas as contingências de reforçamento positivo são indiscutivelmente benéficas. Vícios, manias e dependências são efeitos de reforçamento positivo. Em tom semelhante, e em outra obra tratando do mesmo tema, Sêneca deixou uma de suas mais famosas frases:

"A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelo sábio como falsa, e pelos governantes como útil."

Muito mais pode ser dito, e muito mais se segue. Mas vou deixar isso pro domingo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Olá. Poderiam esclarecer o conceito de operação estabelecedora, informando as referências para que eu pudesse me aprofundar no assunto? Obrigado.

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ResearchBlogging.orgO conceito de Operações Estabelecedoras (OEs) foi introduzido por Keller e Schoenfeld (1950/1973) dentro de análises para variáveis motivacionais. Essas análises tratavam de como o Drive (traduzido como Impulso) alterava a dinâmica do processo de reforçamento, sendo que cada Drive é estabelecido por alguma operação. Por exemplo, o Drive da fome é estabelecido pela operação de privação (p. 286, 287).

Mais tarde o conceito foi refinado por Jack Michael (1982, 1993). Segundo Michael, OEs são eventos, operações ou estímulos que afetam um organismo alterando momentaneamente a efetividade reforçadora de outros eventos e a frequência da parte do repertório do organismo que foi reforçada por esses eventos.


Essas alterações ocasionadas pelas OEs são divididas em quatro efeitos:

Efeito estabelecedor de reforçamento: altera a efetividade do reforço.

Efeito evocativo/supressivo da operação estabelecedora: evoca ou suprime respostas consequenciadas previamente por reforço alterado por uma OE.

Efeito evocativo/supressivo do Sd: aumenta a efetividade evocativa ou supressiva do Sd correlacionado com conseqüência prévia alterada por OE.

Efeito sobre o reforçamento/punição condicionada: dentro de uma cadeia de eventos, é o efeito de aumento/diminuição da efetividade reforçadora/punidora de um reforço/punidor condicionado em correlação a um segundo reforço/punidor, o qual foi alterado por uma OE e reforça/pune a classe de respostas evocadas pelo primeiro reforço/punidor.


As OEs são divididas em incondicionadas (OEIs) e OEs condicionadas (OECs). As OEIs são fruto da história filogenética do organismo e as OECs são aprendidas durante a história ontogenética.


As OECs foram divididas em:

OECs Substitutas (OEC-S): uma OEC que adquire mesma função que outra OEC (ou uma OEI) através de um emparelhamento semelhante ao condicionamento respondente.

OECs Reflexivas (OEC-R): um tipo do OE que corresponde ao chamado “estímulo pré-aversivo”. Nos casos de esquiva e fuga, o estímulo antecedente não seria um Sd, como indica a literatura, pois sem sua presença, a resposta não tem como ocorrer. Não condição S-delta possível na situação. Logo, ao invés do pré-aversivo ter função discriminativa, ele tem função evocativa e é, portanto, uma OEC, do tipo reflexiva.

OECs Transitivas (OEC-T): um estímulo discriminativo (S1) que controla uma resposta (R1) que só pode ser emitida na disponibilidade de um segundo estímulo discriminativo (S2). No caso, S1 estabelece função reforçadora condicionada a S2 para a resposta (R2), que produz S2.


Esse é um dos temas mais complexos do arcabouço teórico da Análise do Comportamento e, apesar de já ter 20 anos de formulação, carece ainda de muita pesquisa. Cito a seguir, as referências que achei mais relevantes para introduzir o conceito. Você pode, então, buscar as referências citadas nas que indiquei e escolher como conduzir seu estudo. Espero ter ajudado.

Obrigada por perguntar.
Rubilene.

Referências:

Keller, F. S. & Schoenfeld, W. N. (1973). Princípios de Psicologia. São Paulo: E.P.U. (Trabalho original publicado em 1950).

Michael, J. (1982). Distinguishing between discriminative and motivational functions of stimuli. Journal of the experimental analysis of behavior, 37 (1), 149-155. Link

Michael, J. (1993). Establishing Operations. The Behavior Analyst, 16 (2), 191-206. Link

Textos Introdutórios (ricos em exemplos didáticos):

da Cunha, R. N. & Isidro-Marinho, G. (2005). Operações Estabelecedoras: um conceito de motivação. Em J. Abreu-Rodrigues & M. R. Ribeiro (Orgs.) Análise do Comportamento: pesquisa, teoria e aplicação. (p.27-44). Porto Alegre: Artmed.

Miguel, C. F. (2000). O Conceito de Operação Estabelecedora na Análise do Comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 16, 259-267. Link

Estudos empíricos:

Pereira, M. B. R. (2008). Operação Estabelecedora Condicionada Substituta: uma demonstração experimental. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Link

Ravagnani, L. V. (2004). Uma demonstração experimental das operações estabelecedoras condicionadas transitivas com ratos: uma replicação de da Cunha (1993). Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

de Sena, C. N. (2005). Operações estabelecedoras condicionadas reflexivas: um estudo empírico com humanos. Dissertação de Mestrado. Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dawkins e punição


Há alguns anos ando encantado com as obras de Richard Dawkins, eminente biólogo e divulgador científico equiparável a Carl Sagan.

Meu último contato com sua obra foi a partir do belíssimo livro The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution, de 2009. Dawkins consegue, como de costume, ser acessível e intrigante em cada linha.

Encontrei neste livro uma breve referência ao modelo de seleção por consequências (Skinner, 1981). Esta é a terceira vez, que dentro de minha ainda bastante incompleta leitura de Dawkins, encontro uma referência a algo da Análise do Comportamento (a primeira foi uma breve menção à uma Caixa de Skinner, em uma nota na página 463 da segunda edição brasileira de O Gene Egoísta, a segunda em um trecho do documentário Enemies of Reason, que pode ser visto ao final do post, onde Dawkins apresenta o clássico estudo de superstição em pombos de Skinner).

A referência surge quando Dawkins começa a traçar uma de suas características e cativantes metáforas. Neste caso, Dawkins está falando de "quatro memórias", sendo a primeira o DNA, a segunda o sistema imunológico, a terceira o sistema nervoso e a quarta a cultura. A breve referência de interesse surge ao discutir a "terceira memória"

O trecho se encontra no capítulo 13, na página 407 da edição hard cover em inglês. Vamos a ele.

"... a terceira memória funciona por um processo de tentativa-e-erro que pode ser visto como análogo à seleção natural. Enquanto procura por comida, um animal pode 'tentar' várias ações. Apesar de não ser estritamente aleatório, este estágio de tentativas é uma analogia razoável à mutações genéticas. A analogia com a seleção natural é o 'reforçamento'..." (tradução livre, grifos meus)

Sensacional! A idéia é essa. O reforçamento é um processo de seleção que atua em nível ontogenético, ou seja, durante a história de vida de um organismo. O comportamento é selecionado pelas suas consequências, sendo o reforço uma delas. Devo admitir que não gostei das áspas no 'reforçamento', entretanto, isso é o menor dos problemas. Dawkins continua o trecho em um desfecho repleto de infelicidade para o leitor que tem apreço pelo tema.

"A analogia com a seleção natural é o 'reforçamento', o sistema de recompensas (reforçamento positivo) e punições (reforçamento negativo)." (idem)
Que diabos de parêntese foi esse segundo? Como os iniciados já sabem, punições não são casos de reforçamento negativo. Punição é um processo simétrico ao reforçamento (quando a consequência de uma resposta diminui sua frequência). Reforçamento negativo é um processo de fortalecimento (aumento da frequência) de uma resposta quando sua consequência é a eliminação de um estímulo funcionalmente aversivo (fuga ou esquiva). Os dois processos são diametralmente opostos (um diminui a frequência do responder, é punitivo, e outro aumenta a frequência, é reforçador). Ambos são processos de seleção (análogo a seleção natural) do responder em nível ontogenético.

"A punição é facilmente confundida com o reforçamento negativo. Em ambos os casos estão envolvidos um mesmo tipo de estímulo (um estímulo aversivo) [...] a punição remove o comportamento de um repertório, ao passo que o reforçamento positivo gera comportamento." Skinner, B. F. (1974). About behaviorism, pg. 68; ou, pg. 56 na péssima edição em português. Parêntese meu.

Admito que foi razoavelmente engraçado ver essa, que é uma confusão bastante comum em alunos de curso de introdução à Análise do Comportamento, ser replicada em uma obra cientificamente tão respeitável quanto esta. Admito também que Skinner, no início de sua obra, deu motivos para a confusão se instalar (entretanto, em que lugar do mundo o Behavior of Organisms, de 1938, é uma leitura obrigatória de graduação, ou mesmo pós-graduação?). Admito também ficar levemente irritado com a forma banal com que o tema foi tratado. A analogia do reforço, como um nível de seleção ontogenético, foi posta como óbvia (não é!)

ResearchBlogging.org
Possivelmente a terminologia técnica correta não tenha tanta importância para a idéia do capítulo. De qualquer forma, ela é equivocada e dissemina um mal entendido. O que fazer? Reclamar em um blog? Não, um blog é só um passatempo (e há quem diga que se trata de um passatempo de muito mal gosto).


A notícia pode ser velha, mas estou redigindo um email para a Richard Dawkins Foundation e para a comissão de disseminação de conteúdo sobre Análise do Comportamento da ABAI (Association for Behavior Analysis International) relatando meu desconforto, supondo que ele seja generalizado pela área. Espero chover no molhado.

De qualquer forma, com ou sem ressalvas, continuo um grande admirador da obra de Dawkins.

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Bibliografia

Dawkins, R. (2009). The greatest show on earth: the evidence for evolution. Free Press.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. Free Press.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences Science, 213, 501-504 [PDF em português]


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Extra:




Vídeo 1. Trecho legendado do documentário Enemies of Reason, de Dawkins, onde é apresentado o clássico estudo de Skinner sobre superstição em pombos (a apresentação do estudo começa a partir de 5:20)