Um arquetipo comum existe em termos de comportamento? Como um senso, ou melhor, consenso?



Sim. Todo comportamento é selecionado por suas consequências.

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É uma premissa antiga, e fácil de ser observada. Uma de suas primeiras formulações foi ainda na filosofia do Séc. XIX, no princípio de Spencer-Bain. Dois filósofos (Herbert Spencer e Alexander Bain) afirmaram e argumentaram, a partir da lógica filosófica da época, que à toda ação que se segue um resultado benéfico, pratico ou emocional, há um fortalecimento. O inverso também foi afirmado: a toda ação a qual se segue algo desagradável, há um enfraquecimento. Segundo estes filósofos, o pareamento de emoções positivas e negativas com a ação era a responsável pelo fortalecimento ou enfraquecimento das ações em ocorrências futuras.

No início do Sec. XX, o pioneiro Psicólogo Experimental E. L. Thorndike apresentou uma das primeiras leis científicas sobre a aprendizagem, a lei do efeito.

Fig 1. Um exemplo da puzzle-box utilizada por caixa (a esquerda) e uma típica curva de aprendizagem, demonstrativa da lei do efeito (a direita).

Tratava-se de uma demonstração empírica do princípio de Spencer-Bain. Thorndike demonstrou numa série de experimentos, com sujeitos de diferentes espécies, que determinados comportamentos, que produziam consequências benéficas ao sujeito, em determinadas situações, tendiam a ter ocorrência predominante em situações similares. Um dos exemplos clássicos dados por Thorndike é o do gato na caixa-problema. Um gato qualquer, quando colocado preso no interior de uma caixa-problema, a qual ele nunca antes teve contato, começa a apresentar uma série de diferentes comportamentos. Eventualmente, de gato pra gato, o animal acaba descobrindo o mecanismo que abre a portinhola da caixa (um pequeno ferrolho escondido em um dos cantos da caixa). A partir disso, toda vez que o gato é re-exposto a situação da caixa-problema, a resposta que produz a abertura da portinhola se torna preponderante em relação as que outrora também ocorreram nesta mesma situação. Thorndike então, na mesma linha de raciocíno de Spencer e Bain, argumenta que comportamentos que produzem efeitos prazeirosos são fortalecidas, e comportamentos que produzem efeitos desagradáveis são enfraquecidos. (Esta é a formulação da Lei do efeito forte de Thorndike. Posteriormente, este autor descartou a noção de enfraquecimento do comportamento, e esta noção ficou conhecida como a Lei do efeito fraca).

Vídeo 1. Parte de um documentário, de origem desconhecida, sobre Thorndike.

Entretanto, a mediação do aumento ou diminuição da frequência do comportamento por agentes emocionais vagos e pouco claros comprometeu a aceitação destes dois modelos.

B.F. Skinner, já na segunda metade do Séc.XX, apontou uma saída às explicações mediacionais embaraçosas: o modelo de seleção pelas consequências. Segundo o famoso biólogo e divulgador da ciência Richard Dawkins, "Seleção pelas consequências" é uma boa frase (Dawkins, 1984), pois da ênfase ao ambiente e seus processos seletivos (Laurenti, 2009). Neste modelo, o comportamento é selecionado (aos mesmos moldes da seleção natural) pelas consequências que o seguiram, contigua e contingêntemente, em situações anteriores, em ordem probabilística. Desta forma, uma resposta "R", que ocorre em um contexto "Sd" e produz uma consequência "S", será selecionada pela função que aquela consequência "S" teve. Se em situações futuras, no mesmo contexto "S", ou em contexto similar (variando em um ou vários aspectos) aquela resposta volta a ocorrer com predominância, podemos afirmar que o estímulo "S" selecionou aquela resposta, e é portanto, para os iniciados, um S+ (princípio da aprendizagem operante). O modelo de seleção por consequências rompe com os anteriores por adotar uma postura probabilística. Não há um agente causador 1:1, não há causa e efeito mecanicista, há sim um controle contextual e uma seleção da variação que cria uma relação funcional entre uma gama de diferentes eventos. O princípio de Spencer-Bain e a lei do efeito de Thorndike, ao postular que as consequências criam sensações ou emoções internais, adota um modelo causal mecanicista, de causa e efeito, mediacional, onde é a sensação interior que causa, em proporção rígida, o comportamento. Tal rigidez é deixada de lado no modelo de seleção pelas consequências, já que nele, a medição do comportamento é feita com base na probabilidade de sua ocorrência. Determinados contextos e determinadas histórias pessoais aumentam ou diminuem a probabilidade de uma gama distinta de classes de resposta, que estão em constante vias de seleção pelas consequências que as seguem.

Texto de Hernando Neves Filho
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Referências

Dawkins, R. (2010). Replicators, consequences, and displacement activities Behavioral and Brain Sciences, 7 (04) DOI: 10.1017/S0140525X00026790

Laurenti, C. (2009). Criatividade, liberdade e dignidade: impactos do darwinismo no behaviorismo radical Scientle studia [PDF via SciELO]

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Bibliografia

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Sobre a lei de Spencer-Bain
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Bain, A. (1902). The senses and the intelect. New York : D. Appleton and Company.
- Obra original de Alexander Bain, pode ser baixada na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/sensesintellect00bain

Boakes, R. (1984). From Darwin to behaviorism: psychology and the mind of animals. Cambridge University Press.
- Um excelente livro de história da psicologia experimental. Leitura recomendadíssima! A discussão sobre o princípio de Spencer-Bain se encontra no capítulo 1.

Spencer, H. (1873). The principles of psychology. New York : Appleton.
- Obra original de Spencer, pode ser baixada na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/principlespsych35spengoog

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Sobre a Lei do Efeito, de Thorndike
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Thorndike, E. L. (1911). Animal inteligence: experimental studies. The Macmilliam Company.
- Histórica tese de doutoramento de Thorndike, onde há um grande número de demonstrações empíricas de sua lei do efeito. Pode ser baixado na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/animalintellige00thorgoog

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Sobre o modelo de Seleção por Consequências
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Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences Science, 213, 501-504 : 10.1126/science.7244649
- Artigo clássico onde Skinner apresenta sucintamente seu modelo. O .pdf traduzido pode ser adquirido aqui: http://www.bfskinner.org/BFSkinner/Brazil_files/Selecao_por_consequencias.pdf

Homossexualismo, qual a análise do dia sobre isso?

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ResearchBlogging.orgNão é bem uma análise do dia, mas é, provavelmente, a análise mais recente e "moderna" do assunto. Menezes (2005) fez, em sua dissertação de mestrado, um compêndio sobre sexualidade humana e discussões de comportamento inato X aprendido. As conclusões da revisão da literatura e da análise crítica das linhas de pesquisa sobre homossexualidade (dentre elas as categorias "medidas hormonais", "efeitos hormonais", "genética", "funcionamento cerebral", "modelos animais" e "efeitos ambientais") apontam que a sexualidade humana e de outras espécies pode ter propensão biológica para heterossexualidade e para homossexualidade, mas não sendo a biologia a variável determinante absoluta do comportamento sexual. A idéia de um "gene gay" está pra lá de obsoleta. Bem como pode ser considerada obsoleta a idéia de que sexo tem por função apenas a reprodução nas demais espécies.

O bonobo (Pan paniscus) é uma espécie de primata geneticamente muito próxima ao homem e ao chimpanzé (Pan troglodytes) e apresenta comportamentos sociais intrigantes. Em primeiro lugar, a hierarquia social é definida pelo parentesco com as fêmeas do grupo e não pelos machos como na maioria das espécies primatas (de Waal, 1999). Em segundo lugar, o contato sexual é parte frequente e até decisiva nas relações sociais. Situações de conflito como em disputa por comida são geralmente amenizadas por contato sexual entre um macho e uma fêmea ou dois machos ou duas fêmeas e até mesmo entre adultos e infantes. Alianças também são formadas por contato sexual. Há contato sexual após comida farta e após passsagem de perigo etc.



Podemos considerar, então, que todo ser humano nasce potencialmente bissexual, sendo que as variações na sua sexualidade serão função das influências do ambiente social. Há pessoas com os mais variados tipos de expressão sexual entre o heterossexual exclusivo e o homossexual exclusivo. Há pessoas que são bissexuais e dizem sentir-se atraídas igualmente por ambos os sexos. Outras são mais atraídas pelo sexo oposto, outras mais pelo mesmo sexo. Há ainda pessoas que apresentam características anatômicas e/ou comportamentais do sexo oposto e são atraídas pelo mesmo sexo, mas outras são atraídas pelo sexo oposto. É uma variedade enorme que está a mercê de variáveis biológicas e ambientais produzindo indivíduos comportamentalmente muito distintos.



Qual deles é mais normal? Todos. Cientificamente não cabe atribuir juízos de valor ao comportamento e rotulá-lo como bom ou ruim, como certo ou errado. Os seres humanos são fruto da história (Skinner, 1981) de sua espécie (filogenia), de sua vida pessoal (ontogenia) e dos grupos a que pertence (cultura ou sociogenia). O comportamento do homossexual é tão fruto da história quanto daquele que o apedreja.

Obrigada por perguntar.

Att,
Rubilene.

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Referências

de Waal FB (1999). The end of nature versus nurture. Scientific American, 281 (6), 94-9 PMID: 10614071

Menezes, A. B. C. (2005). Análise da Investigação dos Determinantes do Comportamento Homossexual Humano. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento. Universidade Federal do Pará. (pode ser obtida no site http://www.ufpa.br/ppgtpc/ )

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences Science, 213, 501-504

Leituras mais rápidas de Menezes:

Menezes, A. B. C. & Brito, R. (2007). Reflexão sobre homossexualidade como subproduto da evolução do prazer. ComCiência, 0, 1-4.

Menezes, A. B. C. & Carvalho Neto, M. B. (2010). Evolução histórica do conceito de comportamento homossexual humano. Faz Humanidades, 3, 159-165.
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UPDATE

Qual o papel da Sociologia na Análise do Comportamento?



ResearchBlogging.org
A Análise do Comportamento trata de três níveis de seleção, como descrito por Skinner (1981). O primeiro nível é o filogenético, que diz respeito à história evolutiva da espécie, campo das ciências biológicas focadas no funcionamento do organismo. Neste nível encontram-se todos os comportamentos respondentes e outras predisposições genéticamente determinadas ou influênciadas. O segundo nível é o ontogenético, que trata da história de vida do sujeito, campo relacionado à psicologia e outras ciências comportamentais focadas no comportamento de um organismo individual. Neste campo, estão os estudos sobre aprendizagem e desenvolvimento. O terceiro nível é o da cultura, que trata de práticas culturais e da sobrevivência das culturas, seara de ciências como a sociologia e a antropologia, que trata do comportamento de um grupo de indivíduos. Os três níveis se sobrepõem, e uma determinada instância de comportamento pode atravessar mais de um nível. O comportamento humano, em quase toda sua ocorrência, atravessa os três níveis.

Históricamente, a Análise do Comportamento sempre voltou a maior parte de seus esforços científicos ao segundo nível de análise, o que era de se esperar, na medida em que é uma disciplina nascida na Psicologia. Entretanto, diversos pesquisadores ao longo das décadas tentaram diferentes aproximações com disciplinas sociológicas para estudar o terceiro nível de análise. Alguns dos trabalhos nessa linha que obtiveram algum destaque foram os livros Behavioral Sociology (Bushell & Burguess, 1969), Analysing Social Behavior (Guerin, 1994) e a série de artigos de Sigrid Glenn sobre as metacontingências, possíveis unidades de análise adequadas para o estudo de fenômenos sociais (Glenn, 1986, 1988, 1991). Há também um periódico científico chamado Behavior and Social Issues, de acesso livre, voltado exclusivamente ao estudo de processos sociais, em grande parte, sob a ótica da Análise do Comportamento. Segue o link: http://www.behaviorandsocialissues.org/

No Brasil existem vários pesquisadores trabalhando empírico e conceitualmente neste terceiro nível de seleção. Há um grupo de alunos da PUC-SP que mantém um rico blog sobre o tema ( http://accultura.wordpress.com/ ). Há também um grupo de pesquisa na UFPA que busca análogos de práticas sociais em miniculturas criadas em laboratório, a partir de procedimentos adaptados da Psicologia Social do Sec. XX. Além disso, recentemente foi publicado o trabalho de um pesquisador brasileiro (Tourinho 2009), que apresenta uma poderosa interpretação da subjetividade humana, sob ótica comportamental, a partir de uma análise historiográfica dos costumes da sociedade ocidental aliada à noção de processo civilizador, do célebre sociólogo Norbert Elias, conjuntamente com o conceito de eventos privados, de B.F.Skinner. Um claro e bem sucedido exemplo de interdisciplinariedade da Análise do Comportamento com as ciências sociais.

Desta forma, a interação entre Análise do Comportamento e Sociologia é inevitável. Na medida em que se estude comportamento humano processos sociais estarão inevitavelmente envolvidos, e nesse ponto, a sociologia se mostra uma excelente bibliografia, assim como a Psicologia Social.

Uma questão interessante a se levantar neste momento, é a inversa: qual o papel da Análise do Comportamento na Sociologia?

Assim como é necessário conhecer o organismo que se comporta (filogênese) para se ter uma base para estudar como e porque ele se comporta (ontogênese), também é necessário entender como os organismos individualmente se comportam, para se ter uma base para entender a origem e manutenção de processos sociais (culturais). Nesse ponto, a Análise do Comportamento certamente oferece uma gama de novos paradígmas profícuos para a Sociologia em geral.

Att. Hernando Neves Filho
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Referências

Burgues, R. L.; Bushell, D. (1969). Behavioral Sociology: the Experimental Analysis of Social Process. New York: Columbia University Press.

Guerin, B. (1994). Analyzing social behavior: Behavior Analysis and the Social Sciences. Reno: Context Press.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences Science, 213, 501-504 : 10.1126/science.7244649

Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8

Glenn, S. S. (1988). Contingencies and metacontingencies: Toward a synthesis of behavior analysis and cultural materialism The Behavior Analyst (11), 161-179 : PMC2741963

Glenn, S. S. (1991). Contingencies and metacontingencies: Relations among behavioral, cultural, and biological evolution. Em P. A. Lamal (Orgs), Behavioral analysis of societies and cultural practices (pp. 39-73). Washington, DC: Hemisphere.

Tourinho, E. Z. (2009). Subjetividade e Relações Comportamentais. Editora Núcleo Paradigma. São Paulo. [Pode ser adquirido no site da editora]

Qual a diferença entre Análise do Comportamento e Behaviorismo?


ResearchBlogging.orgA Análise do Comportamento é uma disciplina científica que tem como objeto de estudo o comportamento sob uma perspectiva contextual e interacionista, tendo como unidade de análise, em nível ontogenético, a tríplice contingência.

Em uma categorização amplamente aceita, Tourinho (1999) caracteriza a Análise do Comportamento como a disciplina geral composta por três grandes eixos.

O primeiro eixo é a filosofia da ciência na qual a Análise do Comportamento é pautada, o Behaviorismo Radical, inicialmente proposto por B.F.Skinner. Se chama behaviorismo pois sustenta que o objeto de estudo é o comportamento, e é radical pois expande a noção de comportamento para além de uma resposta a um estímulo necessariamente público. No Behaviorismo Radical, o comportamento não é meramente o que é observável (a resposta), o comportamento é a atividade do organismo como um todo, interagindo com o seu ambiente, de acordo com sua história de vida. A "caixa preta" que aturdia os primeiros behavioristas foi aberta pela metodologia operante, que esclareceu a intencionalidade, e pela formulação da noção de eventos privados, que possibilitou uma interpretação comportamental sobre emoções e cognições, antes vistos como inexplicável res cogita cartesiana. O Behaviorismo Radical abandona o mecanicismo, tanto da reflexologia dos primeiros behavioristas quanto do homem-máquina da primeira geração de cognitivistas americanos, e adota um modelo causal selecionista em três níveis (filogenético, ontogenético e cultural). Além de filosofia da ciência, o Behaviorismo Radical também pode ser entendido como uma filosofia monista da mente (Lopes e Abib, 2003).

O segundo eixo é a Análise Experimental do Comportamento, que é uma ciência empírica básica. É a principal fonte de tecnologias comportamentais, e tem destrinchado procedimentos respondentes e operantes, de indivíduos e de grupos. A Análise Experimental do Comportamento produz uma vasta literatura técnica acerca da generalidade e especificidade do comportamento de diferentes organismos em determinadas circunstâncias, dentro e fora do laboratório.

O terceiro eixo é a Análise Aplicada do Comportamento, responsável pela aplicação das tecnologias oriundas do laboratório à casos práticos de intervenção social. Tem tido um êxito sem precedentes em suas aplicações em tratamentos de diversos quadros de síndromes e psicopatologias, como o autismo e o transtorno obsessivo compulsivo.

A produção de conhecimento nestes três eixos, em reciprocidade constante, cria o quadro geral da Análise do Comportamento, mesmo que, em muitos casos, cada eixo se desenvolva com relativa indepêndencia dos demais (Carvalho Neto, 2002).

Desta forma, a Análise do Comportamento é uma disciplina regida pela filosofia do Behaviorismo RADICAL que é apenas um entre vários tipos de Behaviorismo. Existem várias dezenas de outros tipos de Behaviorismos, cada um com seus pontos de encontro e desencontro com o Behaviorismo Radical. O'Donohue e Kitchener (1999) oferecem uma listagem compreensiva (e ainda assim longe de completa) dos behaviorismos do século XX em seu livro Handbook of Behaviorism.

Texto de Hernando Neves Filho
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Referências

Carvalho Neto, M. B. (2002). Análise do comportamento: behaviorismo radical, análise experimental do comportamento e análise aplicada do comportamento Interação em Psicologia, 6 (1), 13-18 [PDF]

Lopes, C. E., & Abib, J. A. D. (2003). O Behaviorismo Radical como Filosofia da Mente Psicologia: Reflexão e Crítica, 6 (1), 85-94[PDF]

O'Donohue, W. & Kitchener, R. (1999). Handbook of behaviorism. Elsevier. USA. ISBN: 978-0-12-524190-8. [Lista de capítulos]

Tourinho, E. Z. (1999). Estudos conceituais na análise do comportamento. Temas em Psicologia da SBP, 7(3), 213-222.

Como o operante opera?

ResearchBlogging.org“Men act upon the world, and change it, and are changed in turn by the consequences of their action” é a primeira frase do Verbal Behavior de Skinner (1957). Essa seja talvez a definição mais famosa de comportamento operante dada por Skinner, apesar de ter trabalhado nela por várias décadas (ver Todorov, 2002). É nesse mesmo livro que Skinner insiste repetidamente em esclarecer que comportamento verbal é apenas um operante, sujeito às mesmas relações funcionais de qualquer operante não-verbal.

Um conceito que não pode ser excludente ao de operante é o conceito de tríplice contingência:

Sd ... R -> C equivale a dizer que um estímulo discriminativo (Sd) controla a probabilidade de uma resposta (R) produzir uma conseqüência (C). A diferença funcional entre o evento ambiental antecedente e o evento ambiental conseqüente sobre a resposta é bastante clara. Enquanto o primeiro mantém uma relação probabilística (e correlacionada ao segundo evento por meio da resposta), o segundo é deliberadamente produzido pela resposta que o antecedeu.

Os seguintes excertos de Moreira e Medeiros (2007) ilustram como a Análise do Comportamento trata o tipo de relação funcional que há entre o estímulo discriminativo e a respostas, bem como da conseqüência com as respostas:

“Classificamos como operante aquele comportamento que produz conseqüências (modificações no ambiente) e é afetado por elas” (p. 47, negrito adicionado)

“Quando há referência a um comportamento respondente, entendemos que um estímulo elicia uma resposta, o que é dizer que o estímulo produz a resposta, faz com que ela seja emitida. Já ao falarmos de um comportamento operante, de um operante discriminado, entendemos que o estímulo apenas fornece contexto, dá chances para que a resposta ocorra.” (p. 101, negritos adicionados)

Um terceiro excerto do mesmo livro dá dois exemplos da relação direta que há entre resposta e conseqüência, um em uma situação não verbal e outro em situação verbal.

“Um comportamento simples, como estender o braço, produz a conseqüência pegar (alcançar) um saleiro (mudança no ambiente: o saleiro passa de um lugar para outro). Em vez de estender o braço e pegar um saleiro, é possível emitir outro comportamento que produzirá a mesma conseqüência: pedir a alguém que lhe passe o saleiro. No primeiro exemplo, o comportamento produziu diretamente a mudança de lugar do saleiro. No segundo exemplo, o comportamento modificou diretamente o comportamento de outra pessoa e produziu a mudança de lugar do saleiro.” (p. 48, negritos adicionados)

Analisemos um esquema do segundo exemplo, com alguns complementos da interação entre os dois sujeitos (clique na figura para ampliar).



Temos, na figura acima, quatro eventos que podem ser classificados como ambientais ou biológicos (dito comportamental), dois emitidos por cada sujeito. O primeiro é o pedido de sal por S1, que funciona como estímulo discriminativo para a resposta de S2 em passar o saleiro. O passe do saleiro por S2, por sua vez, funciona como estímulo discriminativo para a resposta de agradecimento de S1, a qual é conseqüência (possivelmente reforçadora) para a resposta de S2 em passar o sal a S1. E ao final, o sorriso de S2 é conseqüência para a resposta de agradecimento de S1.

O momento crucial desse exemplo é a seqüência do evento “agradecer” de S1 após o evento “passar o saleiro” de S2. Quando colocamos o foco da análise em S1, temos que “agradecer” é uma resposta que leva a uma provável conseqüência reforçadora em função do Sd “passar o saleiro”. Mas quando mudamos o foco para S2, o “agradecimento” seria, por definição da contingência de três termos, uma conseqüência deliberada, isto é, diretamente produzida pela resposta “passar o saleiro”. Aí temos um impasse. Como pode dois mesmos eventos ter relações diferentes entre si a depender de quem é o sujeito da análise?

Afinal, “passar o saleiro” produz diretamente o “agradecimento”? Não seria a relação entre resposta e “conseqüência” tão probabilística quanto entre estímulo discriminativo e resposta? A relação entre eventos posteriores à resposta e ela mesma parece evidentemente direta quando estamos tratando de eventos do ambiente não biológico, como no caso do primeiro exemplo de Moreira e Medeiros (2007). O saleiro vir até a mesa parece ser resultado direto da resposta de “pegar o saleiro”. Mas poderíamos considerar que o saleiro poderia estar sujo por algo oleoso e escorregar da mão do sujeito, não havendo reforço. Ou o sujeito poderia ser vítima de algum tipo de brincadeira e levar um choque de um saleiro metálico, o que poderia reduzir a probabilidade de ele pegar saleiros metálicos no futuro. Ou seja, quando o sujeito emite uma resposta, nada garante que conseqüência irá haver, ainda que haja a presença do estímulo discriminativo correlacionado à conseqüência. Logo, dizer que uma resposta produz uma conseqüência, pode ser uma definição equivocada e anti-funcional. Sendo assim, talvez nem se devesse falar em “conseqüência”, mas sim em evento subseqüente ou posterior.

Rubilene.
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Referências

Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: 2007.

Skinner, B. F. (1992). Verbal Behavior. Massachusetts: Copley Publish Group. Publicado originalmente em 1957.

Todorov, J. C. (2002). A evolução do conceito de operante. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18, 123-127.

Evolução, comportamento e reducionismo



A eficaz observação da seleção do comportamento por princípios operantes, quando bem embasada conceitualmente (sem condescendências com "sujeitos reforçados"), inevitavelmente cria um certo desdém, um ceticismo franco, com relação a outras explicações aparentemente mais parcimoniosas.

E assim, concepções de "homem genético" (também chamado de "homem somático") e "homem cerebral", duas grandes apostas das ciências biológicas (cf. este comentário), acabam tornando-se difíceis de engolir, principalmente quando as asserções envolvidas são grandiosas, e as evidências pouco palpáveis.

O homem genético foi a grande onda da segunda metade do século passado. O sonho de encontrarmos todos os problemas e todas as maiores façanhas da humanidade no DNA, de um humano qualquer, fora lançado ao mundo junto a belas representações artísticas de ácidos nucleicos:


Hoje, algumas poucas décadas depois, regadas a muitos milhões de dolares, o genoma humano está completamente sequenciado, e pouco do sonho restou (tanto que um dos principais desbravadores do genoma humano, Craig Venter, mudou-se para outra área, igualmente cheia de ficção a longo prazo). Os geneticistas, em sua grande maioria, já são bem mais céticos quanto a possibilidade de haver genes para comportamentos específicos, ou mesmo para padrões mais amplos de comportamento. Ninguém, que mantenha algum tipo de idoneidade intelectual, ainda procura, hoje em dia, o gene gay (mesmo que jornalistas incautos digam o contrário). O pêndulo oscilou, da determinação estrita e específica, para a determinação geral, heurística e elástica. Pelo menos nessa área, pois em outra, começou a busca pelo neurônio gay... Entretanto, eu posso estar errado quanto ao quão estéril é este tipo de investida. Aguardo sérias evidências (desde o século passado).


Vídeo 1. Brincando com a falácia, vídeo humorístico anuncia o isolamento do gene cristão por cientistas gays.

Isso tudo é o pano de fundo pouco debatido da nova Psicologia Evolucionista, uma apropriação da sociobiológia da década de 70, feita por Psicólogos.

Como Analista do Comportamento, contextual, pós-moderno e calcado em um modelo causal selecionista, facilmente me interessei pelo leitmotif anunciado pela Psicologia Evolucionista: não apenas o nosso organismo é o resultado parcial de uma longa macroevolução; a mente humana (e, por mero compromisso à teoria, a dos demais animais) também é o resultado da poderosa seleção natural. Ok, afirmação curiosa!

Agora, façamos algumas considerações. O primeiro ponto, todos já sabem: que conceito de mente é esse? Ah, é o de sempre. Ok, "mal de behaviorista", um desvio de caráter irreparável. Mas tudo bem, podemos deixar de lado os problemas ontológicos e aceitar que a mente nada mais é do que o repertório, no caso humano, o repertório verbal (até que maiores complicações surjam adiante...). Já aprendemos com a Psicologia Cognitiva que o que importa são os dados, pois querendo ou não, todos observam, registram e trabalham com comportamento, o que muda são as discussões (que também são comportamentos, facilmente analisáveis).

Agora, vamos com calma. É hora de analisar um exemplo, um bem caricato. Tomemos "X" como um padrão de comportamento complexo, como por exemplo, a depressão. Ok. Eles realmente estão querem dizer o que eles escrevem? Pois eles escrevem coisas do tipo: "o comportamento 'X' está estabelecido (ou 'hard-wired', como diriam os descartianos digitais) no cérebro humano pois é observado em humanos em todo o globo terrestre, logo, esse padrão foi em alguma medida selecionado". Reducionista? Ingênuo? Fatalista? É o que parece.

O exemplo da depressão é real. Em um artigo de 2009 (Andrews & Thomson, 2009), os autores argumentaram que a depressão é adaptativa, em alguma medida, pois possibilita que o sujeito pare e pense sobre os seus problemas, isolando-se do resto do mundo para se concentrar no problema em questão. Ok... Diferente. Plausível. Mas, e as evidências? Nada que preste.

Como apontado por Schlinger (1996), as evidências da Psicologia Evolucionistas são bastante frágeis, pois são baseadas quase que exclusivamente na lógica evolucionista (o tipo de lógica utilizada no exemplo da depressão dado anteriormente), o que não passa de especulação. As outras fontes de "evidências" da Psicologia Evolutiva residem na comparação anedótica entre diferentes espécies (isso mesmo, à lá Romanes e Morgan!); e em dados estatísticos que não provém de um método experimental (leia-se: questionários e outros instrumentos que precisam de estatísticas avançadas para fazer algum sentido), o que produz no máximo frágeis correlações.

Estes três pontos são bases bastante perigosas para sustentar qualquer tipo de teoria, e podem ser facilmente atacadas e desacreditadas, como já foram, repetidas vezes. A especulação e a lógica evolucionista geram hipóteses intrigantes, como a do "lado positivo da depressão", e outras mais meigas, como a hipotése da biophilia (Wilson, 1984). Entretanto, não podem ser mais do que são: especulações. A arqueologia e a antropologia já deixaram bastante claras as inconstâncias desse tipo de especulação: a cada novo achado, inúmeras teorias tem de ser revistas. A teoria é necessária, mas precisa ter alguma base factual. Para a antropologia e arqueologia, há fósseis e demais achados arqueológicos. E para a Psicologia Evolucionista? Comportamento não fossiliza, é impiedosamente efêmero.

O brilho já vai se perdendo, mas não para por ai. Um artigo publicado na Scientific American (Bueller, 2009) chama a atenção pelo título: "Quatro falácias da Psicologia Evolucionista Pop" (Four Fallacies of Pop Evolutionary Psychology). Nele, o autor ataca, sem medo de ser feliz, toda a base da lógica evolutiva para o comportamento humano. Não vou estragar o delicioso texto fazendo meus comentários sem graça, no entanto, deixo-o na íntegra para a leitura de quem se interessar. Segue o Link: http://ow.ly/215Q0

Bom, pelo menos o texto dá uma dica: essas são as falácias da Psicologia Evolucionista Pop! O ramo Pop da área, segundo o autor, inclui Steven Pinker e outros figurões. O que indica, para os mais otimistas, que talvez ainda haja esperanças em alguns laboratórios quase-esquecidos pelo mundo a fora.

ResearchBlogging.orgDe qualquer forma, parece que a Psicologia Evolucionista ainda não é a panacéia decisiva para as antigas questões psicológicas. A evolução é fato, para os organismos. Sua unidade de seleção é, por maioria de votos, o gene. Genes sozinhos dificilmente (eu diria nunca) codificam comportamentos complexos específicos. Falta à Psicologia Evolucionista (dita Pop) a maleabilidade da aprendizagem, pois parece que em seu percurso, pouco ou nada foi aproveitado de toda a gigantesca literatura sobre o poder da aprendizagem (ontogênese, para os íntimos) permeada pela nossa tão querida, vasta e variável cultura humana. Explicações socio-culturais, nesses casos, são bem mais parcimoniosas do que explicações que remontam à ambientes ancestrais especulativos, na tentativa de explicar ocorrências de comportamentos complexos invariavelmente multideterminados.

Obs.: Atente que o conteúdo que o autor aqui apresentou não foi avaliado por seus pares. O que caracteriza tudo como um mero exercício de crítica e mau humor. Note também que não há desmerecimento algum à teoria da evolução, uma das maiores conquistas da ciência. Há sim um ceticismo quanto ao empréstimo exagerado, e carente de evidências, desta teoria pela Psicologia (que por sinal, tem um longo histórico de importações de modelos de outras ciências, em sua maioria mal sucedidas).

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Bibliografia

Andrews, P., & Thomson, J. (2009). The bright side of being blue: Depression as an adaptation for analyzing complex problems. Psychological Review, 116 (3), 620-654 DOI: 10.1037/a0016242

Buller, D. (2009). Four Fallacies of Pop Evolutionary Psychology Scientific American, 300 (1), 74-81 DOI: 10.1038/scientificamerican0109-74 [PDF]

Schlinger, H. D. Jr. (1996). What is wrong with evolutionary explanations of behavior Behavior and Social Issues, 6 (1) [PDF]

Wilson, E. O. (1984). Biophilia: the human bond with other species. Cambridge, MA: Harvard University Press [Compre na EstanteVirtual!]
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Outras referências que evocaram o texto

Rose, C. (2000). Genetic risk and the birth of the somatic individual Economy and Society, 29 (4), 485-513 DOI: 10.1080/03085140050174750 [PDF]

Ortega, F., e Vidal, F. (2007). Mapeamento do sujeito cerebral na cultura contemporânea. R. Eletr. de Com. Inf. Inov. Saúde, v.1, n.2, p.257-261. [PDF]

Uttal, W. R. (2000). The war between mentalism and behaviorism: On the accessibility of mental processes. Lawrence Erlbawn publishing. USA.

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Update I:

Richard Dawkins, na contramão de toda a veiculação jornalística da falta de aplicações médicas do sequenciamento do genoma humano: http://richarddawkins.net/audio/483182-age-of-the-genome-episode-1

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Update II

Encontrei um livro que faz uma forte crítica ao reducionismo genético. Escrito por uma bióloga e um jornalista (que escrevem como behavioristas). Fácil e excelente leitura, que recomenda o tempo inteiro o duplo olhar, igualmente atencioso, para a os genes e para o ambiente. Segue a referência.

Hubbard, R., & Wald, E. (1993). Exploding the gene myth. Boston: Beacon Press. [Prévia no GoogleBooks]

Apesar do título chamativo (afinal, tem um jornalista envolvido), o livro versa uma discussão bastante parcimoniosa.
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Update III

Post sobre os resultados de um estudo em larga escala que não encontrou nenhuma relação significativa entre genes e personalidade: Bad News for Genetics of Personality, do blog Neurocritic.

Vale notar que entre os estudos que indicam correlação e os que não indicam correlação alguma, sobra somente a incerteza. Pragmatismo zero.
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Update IV

Adaptar e esclarecer. Em virtude dos comments, devo esclarecer que a idéia do texto não é desmerecer nem a teoria da evolução nem a psicologia evolucionista, mas sim, criticar a forma como são feitas conclusões absolutas sobre a determinação do comportamento humano nas duas áreas. O texto não é uma alusão da invalidade de nenhum dos pontos apresentados, mas sim um pedido. O pedido é: ao traçar conclusões, olhe para o contexto completo, levando em conta três níveis, filogenético (biologico, evolutivo), ontogenético (psicologico, história de vida) e cultural (social e demográfico). É um pedido de integração, não de exclusão. Se o texto por vezes parece querer dizer mais do que isso, é em virtude de se tratar de um texto de blog, e não de uma revista científica indexada e analisada por seus pares.
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Update V

Trecho que descreve bem a idéia do post:

"Suppose that instead of being about morality and why people find certain things morally good and bad, this article had been about sweetness, and why people find certain things sweet and certain things sour. The Humean-Darwinian would have argued that humans have an evolved digestive system that distinguishes between good and bad sources of nutrition and energy; and that the human ‘sweet tooth’ is an evolved preference for foods with high sugar-content over foods with low sugar-content. If one accepted this premise, it would make no sense to complain that evolution may have explained why humans find certain things sweet, it cannot tell us whether these things are really sweet or not. It follows from the premises of the argument that there is no criterion of sweetness independent of human psychology, and hence this question cannot arise.
Of course, one may object to the premise, and claim that there really is such a thing as sweetness that human psychology is latching on to. But then this would be a different argument. One would have to make the case for an independent criterion of sweetness, and not merely assume it." [Curry, O. (2006). Who’s Afraid of the Naturalistic Fallacy?. Evolutionary Psychology, 4, p.242.]

O post foca justamente nesse "different argument", que como os críticos da área apontam, são recorrentemente negligenciados na literatura especializada (negligenciado inclusive no artigo da citação, na medida em que o autor levanta a importância desde nível de análise, ontológico, e não diz nada sobre como ele é, ou como deve ser feito). Como o autor da citação deixa claro, e eu concordo, esta negligência não invalida a área. Entretanto, a "realidade psicólogica" deve ser levada em conta, caso a idéia seja de uma explicação completa do comportamento humano. Neste ponto, se você quiser entender a realidade psicólogica de uma forma científiica (sem incorrer na chamada falácia anti-naturalista, que ocorre quando eventos psicológicos são de origem sobre-natural, não-filogenética), as vertentes tradicionais da psicologia experimental (humana, e especialmente não-humana) são uma ótima literatura. Essa é a conclusão do post.
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Behaviorism 1930


Charles Robert Darwin (1809-1882) foi, sem dúvida, um grande anti-bíblico. Não que ele tenha saído pelas ruas, batendo às portas das pessoas e bradindo "Queimem suas Bíblias! Queimem suas Bíblias!", mas acertou um gancho de direita no Criacionismo bíblico. Tudo bem que o soco não resultou em nocaute, na verdade, a luta nunca foi vencida por nenhum dos lados na sociedade científica e não científica. A Teoria da Evolução postula, simplificadamente, que as espécies evoluem, isto é, modificam-se através dos processos de variação e seleção natural. Contudo, sem as leis de Mendel (1822-1884), Darwin não tinha como explicar muito detalhada e convincentemente como esses processos aconteciam. Entretanto, ainda assim sua teoria era o "hit do verão" (Neves Jr., 2009) e muita gente do meio científico queria falar bonito e parecer atualizada, mas não necessariamente estava sendo fiel ao que Darwin propunha. Deturpações acontecem. E como acontecem. Se não fosse assim, este blog nem existiria. Mas voltando ao Darwin e às deturpações, a mais perigosa delas foi o chamado Darwinismo Social, que se atreveu a considerar que os humanos brancos eram mais "evoluídos" que humanos negros. Seriam belas se não fossem brutais as justificativas da dinâmica social em função da dominância de um grupo sobre outro. São belamente absurdas e fora de propósito. Assim é o racismo, que fora justificado tantas vezes por motivos religiosos, econômicos e, forçadamente, até científicos. Sim, a ciência, ou parte dela, já se sujeitou a compactuar com tais deturpações, as quais algumas vezes são submetidas a tentativas de correção por alguns renegados dessa ciência contaminada.

A figura acima foi extraída de um volume de "Behaviorism" de John B. Watson (1878-1958), edição americana de 1930 (publicação original em 1924). Os grifos foram feitos pelo antigo dono em época bem anterior aos tempos atuais. Repare na indicação em vermelho, na parte que diz "All mammals (including negroes) are XXXX equal". Repare também nas demais anotações, que parecem ter sido anotadas por serem informações incrivelmente pioneiras e reveladoras. Sim, o autor do grifo provavelmente achou importante anotar que negros têm as mesmas capacidades que outros humanos com desenvolvimento normal. Pena que essas informações que podiam ser facilmente "descobertas" no livro de Watson não chegaram às mãos de cada cidadão americano. O pensamento da maioria (branca) ainda era o de os humanos negros eram inferiores porque eles eram assim e ponto final. Nada que Watson pudesse mudar com sua ciência, é claro. O mundo não era e ainda não é o paraíso da ciência. Enquanto nosso pichador de livros anônimo lia em 1930 sobre comportamento humano em uma abordagem tão distinta do que se sabia ou se suspeitava sobre isso, o revolucionador do mundo negro americano estava ainda aprendendo a falar e a andar. Martin Luther King (1929-1968) "bateu nas portas", mas não para dizer "Queimem suas Bíblias", e sim para dizer "Leiam suas Bíblias, leiam a palavra de Jesus Cristo e amem ao próximo, sendo o seu próximo negro ou branco". E todos sabemos o que ele disse. E quem sabe o que Watson disse? Quem sabe o que Darwin disse? Talvez os cientistas não estejam cientes sobre o papel importantíssimo que podem exercer na sociedade. E quem se importa? O mundo já tem seus ídolos. Nunca deixamos de ser os "macacos totemistas" de certa fase de nossa evolução.

Em suma: Watson apresentou a igualdade pela ciência e é lembrado como o cientista malvado que assustava aquele bebezinho bonitinho (e branco), o "Pequeno Albert".
Luther King, que pregou a igualdade pelo "amor cristão", é um herói. Para haver evolução, é preciso haver seleção. Para haver seleção, é preciso haver variação dos organismos e do ambiente. O ambiente diz: Cientista mau. Pastor bom. Bem variado, não? Faça você o resto do jogo semântico. Segue a dica: tudo não passa de respostas verbais.

Rubilene.