“O homem que trabalha perde tempo precioso”


O Ócio Criativo

O sociólogo italiano Domenico De Masi prevê que o mundo caminha inevitavelmente para uma sociedade pós-industrial, onde o trabalho terá uma concepção totalmente nova, desprovida do esforço físico fatigante e repetitivo (que caberá às máquinas) e baseado na produção exclusivamente intelectual (De Masi, 1995/2000).

Em seu livro “O Ócio Criativo”, De Masi discorre que atualmente existem profissões que implicam exatamente em produção apenas intelectual, enquanto outras envolvem muito mais a atividade física mecanicista. No entanto, mesmo o trabalho intelectual está arraigado a uma concepção industrial de trabalho, onde as empresas exigem uma rotina pesada, repetitiva e pouco inovadora de seus funcionários. O trabalhador está destinado a executar tarefas que lhe são designadas não havendo, muitas vezes, espaço para que esse trabalhador expresse suas ideias e contribua de outra maneira com empresa que não fazendo exclusivamente o que seu chefe lhe ordenou que faça.

Em uma sociedade futura, pós-industrial, as atividades produtivas não serão mais condicionadas ao expediente e a tarefas pré-formatadas, mas sim aos momentos que hoje são considerados como tempo livre. Para De Masi, a sociedade do futuro não fará distinção entre trabalho, estudo e lazer. Essas três atividades, hoje regulamentadas para acontecer em horários e até dias distintos funcionarão juntas gerando o “ócio criativo”.

O que é ócio criativo?

O ócio criativo é uma forma de ocupação do tempo que não segmenta a rotina do trabalhador em atividades específicas, mas sim integra todas elas. O trabalho deverá ser um resultado direto do estudo e será executado sem distinção do lazer. Trabalhar será adquirir e produzir conhecimento enquanto se diverte.

Segundo De Masi, o trabalhador fora da rotina de expediente poderá aproveitar muito mais o seu potencial criativo, uma vez que a criatividade é a união entre fantasia e concretude. O ócio criativo é atingido quando o trabalhador dispõe de tempo livre suficiente para sonhar, ter ideias livremente, sem a preocupação de estar atendendo a um dever trancado dentro de um escritório. Mas apenas sonhar não é o ócio criativo. É necessário que o trabalhador que sonha também esteja apto a empreender seu sonho e torná-lo realidade. Essa junção de habilidades é o grande desafio de quem pretende seguir o caminho do ócio criativo.

A Teoria da Geratividade

O psicólogo norte-americano Robert Epstein desenvolveu uma Teoria da Geratividade para explicar o comportamento novo (Epstein, 1996). Segundo sua teoria, o comportamento novo é gerado a partir da competição entre comportamentos já estabelecidos no repertório. Essa competição ocorre através de quatro funções de transformação: (1) extinção, (2) reforço, (3) ressurgência e (4) encadeamento automático.

1) Extinção: quando um comportamento inefetivo em produzir consequências diminui de frequência.

2) Reforço: quando um comportamento efetivo em produzir consequências aumenta de frequência.

3) Ressurgência: quando um comportamento diminui de frequência, outros comportamentos (previamente reforçados)aumentam de frequência.

4) Encadeamento Automático (ou autoencadeamento): quando um comportamento aumenta de frequência, outros comportamentos (previamente reforçados) aumentam de frequência.

Para a Teoria da Geratividade de Epstein, esses quatro processos ocorrem simultaneamente e geram um perfil de probabilidade dos comportamentos que podem ser emitidos em uma dada situação. Esse perfil indica que mesmo o comportamento novo pode ser ordenável e previsível. Isso se aplica também ao que chamamos de criatividade, ou comportamento criativo.

O que é criatividade?

Epstein considera que a criatividade não tem nada de extraordinário. Todas as pessoas são capazes de fazer coisas criativas em menor ou maior escala. O pintor famoso que concebe obras belíssimas de arte plástica é uma pessoa criativa, mas também o é um bebê que descobre ser capaz de andar de ré.

A criatividade é resultado da variabilidade comportamental e da recombinação funcional e/ou topográfica de comportamentos pré-existentes no repertório. De certo modo, tudo que fazemos é, em alguma medida, criativo. A cada nova sentença que escrevemos podemos criar um novo padrão de ordenação de palavras. A posição “confortável” que encontramos para sentar em um móvel ergonomicamente inapropriado pode ser um comportamento criativo. Até a dancinha ridícula que você fez em cima do palco no seu baile de formatura pode ser de grande criatividade, contanto que você tenha produzido um comportamento novo que emergiu da recombinação de diversas habilidades motoras e ritmicas que você já emitia.

Como ser criativo?

Epstein lista quatro estratégias que podem contribuir para você ser criativo:

1) Capture ideias: quando tiver uma ideia, não importa qual seja, onde você esteja, o que esteja fazendo, tome nota. Ainda que pareça uma ideia tola, não a deixe escapar. Salve primeiro e avalie depois.

2) Procure desafios: envolva-se em situações com alto grau de dificuldade de resolução, tente resolver problemas que você não conhece o resultado, arranje oportunidades para fazer coisas nas quais você irá falhar e assim, possibilite a concorrência entre comportamentos, estimulando a variabilidade e a ressurgência.

3) Varie seu ambiente físico e social: mude os objetos a sua volta, exponha-se a novas situações, conheça novas pessoas com costumes diferentes dos seus.

4) Aprenda algo novo: estude temas de fora da sua área, adquira novas habilidades de áreas variadas, torne-se versátil.

A Geratividade do Ócio Criativo

Imagine você mesmo deitado em uma rede com seu laptop no colo, um copo de suco de laranja bem gelado ao seu alcance enquanto você conversa com seu melhor amigo que mora no Japão que acabou de viver seu primeiro terremoto. No dia seguinte, você escolhe trabalhar na sala da sua casa enquanto seu filho monta um lego. Mais tarde você, que é engenheiro civil, tem uma reunião com os sócios da sua microempresa de construção civil.

Um dos projetos em andamento apresenta um problema que a equipe precisa resolver e quando você menos espera, a junção do relato do terremoto no Japão, combinado com a visão das peças de lego do seu filho te dão aquela ideia que vai salvar a empresa de ter um mega prejuízo. Você emitiu um comportamento criativo e ele só foi possível porque você trabalha sob o lema do ócio criativo.

Qual o problema da concepção industrial de trabalho?

Se você passa o seu dia enfurnado sozinho no escritório onde tudo é constante, desde os móveis até a rotina de tarefas, você não tem acesso à estratégia nº 3 para ser criativo (variar seu ambiente físico e social).

Se as suas tarefas são tão constantes, você não poderá interrompê-las para desenvolver uma ideia que acabou de ter e, provavelmente, não lembrará dela mais tarde e assim abortará a estratégia nº 1 (capturar ideias).

Se você não tem tempo nem para suas próprias ideias, que dirá para aprender algo diferente do seu trabalho apenas pelo bel-prazer de descobrir coisas novas e então você fica de fora também da estratégia nº 4 (aprender algo novo).

Se você já não pode dispor de suas ideias, respirar o ar de ambientes diferentes e ter a liberdade de escolher o que prefere aprender a cada dia de sua vida, provavelmente os desafios não serão algo da sua preferência no trabalho e você não fará uso da estratégia nº 2 (procurar desafios).

O ócio criativo estabelece uma rotina em que o trabalhador irá se expor a uma grande variedade de estímulos que induzirão os padrões comportamentais pré-estabelecidos no repertório a entrar em concorrência e gerar novas combinações.

Com a exposição à rotinas diferentes o trabalhador encontrará situações onde há vários estímulos concorrentes em vigor que podem exercer controle sobre uma variedade de respostas funcionalmente e topograficamente distintas e essa concorrência dá-se pelas funções de transformação (extinção, reforço, ressurgência e autoencadeamento), quando diferentes comportamentos estarão sobre controle de um ou mais desses processos simultaneamente.

O ócio criativo é uma forma de variar a estimulação física e social do seu convívio de modo a possibilitar que você: amplie seu repertório, introduzido novas habilidades que não precisam ser direcionadas a um fim específico; tenha tempo para exercer a sua produção intelectual livremente, sem delimitações pré-formatadas que impeçam a sua autonomia; desfrute da companhia dos amigos e familiares em atividades intelectualmente enriquecedoras para todos; e descubra que a derrota pode ser benéfica para aprendizagem.

Eu entrei em contato com a proposta de De Masi em 2002, em uma aula de História do 2º ano do Ensino Médio. A minha professora distribuiu a nós, seus alunos, cópias de uma curta entrevista de De Masi onde ele discorria brevemente sobre o ócio criativo. A prévia que eu li pareceu uma ideia espetacular para mim, tanto que decidi guardar, muito bem guardada, a cópia daquela entrevista. Meses depois, deparei-me com o “O Ócio Criativo” na prateleira de uma livraria e, como dispunha de dinheiro suficiente no bolso para comprar um cd de alguma boyband, sacrifiquei o cd e comprei o livro por R$ 29,90. Dois anos depois estava eu na Universidade lendo sobre um tal de Behaviorismo Radical... e achei que as ideias de De Masi tinham tudo a ver! A empolgação parou aí, mas o livro continuava na prateleira da minha estante, sempre como um norteador das minhas atividades.

Em 23 de abril de 2008 eu criei um arquivo em .doc no meu computador e comecei a escrever umas baboseiras com o objetivo de elaborar um texto que discorresse sobre semelhanças entre o ócio criativo e alguns princípios da Análise do Comportamento e deixei-o esquecido no HD. Dias atrás abri esse .doc, e comecei a editá-lo de maneira que nada sobrou do que estava escrito antes. Hoje nesse .doc consta esta postagem que você está lendo.

Dez anos atrás eu  me deparei com algo que parecia muito útil e guardei o papel que quase todos (ou todos mesmo) os meus colegas de classe jogaram no lixo (e não no chão, espero eu). Se eu tivesse jogado fora também, talvez nem lembrasse do nome do sociólogo, nem da sua proposta e agora você não estaria lendo esta postagem e não ficaria sabendo que nesse exato momento você está praticando o ócio criativo. Isso mesmo! Mas agora feche essa janela e vá transformar algumas funções do seu repertório trocando uma ideia com alguém sobre o que você leu.

Até a próxima!
Rubilene.
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Referências

De Masi, D. (2000). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante.

Epstein, R. (1996). Cognition, creativity and behavior: selected essays. Westport, CT: Praeger Publishers.


Nota:  O título “O homem que trabalha perde tempo precioso” é uma frase que pairava na tela do computador de Domenico De Masi na época da elaboração do livro “O Ócio Criativo”, segundo diz-se no próprio livro.

Sherlock Holmes: o avô de Watson


Onde a psicologia estaria hoje se o investigador mais consagrado na literatura universal tivesse se autointitulado behaviorista?

Não, o Baboseiras não virou site de fofoca de novelas clássicas nem espaço pra FanFics. Continuamos em busca do mantra científico moderno – empírico, reflexivo e longe de ser divertido. De fato o primeiro início que pensei para este post era:

 “Um dos grandes desafios do analista do comportamento neste início de século XXI é o de identificar as relações de controle em vigor para um organismo entre os três níveis de seleção definidos por Skinner”.

Quase um bom começo de capítulo. Mas o interesse em publicar no blog (aliada a falta de dinheiro para publicar um livro), me conduziram à uma abordagem um pouco diferente.

Podemos começar com a pergunta lá em cima: você já parou para pensar onde a psicologia estaria hoje se o investigador mais consagrado na literatura universal tivesse se autointitulado behaviorista?

Para quem ainda não se aventurou formalmente nas aventuras de Sherlock Holmes (digo formalmente pensando na série de contos e novelas, mas se você já conheceu a versão lutador de MMA – embora não menos dependente de entorpecentes – de Robert Downey Jr. já serve como ilustração), eu diria que vale à pena, principalmente se você está numa etapa inicial de seus estudos sobre o behaviorismo e a análise do comportamento.

Sherlock lança mão de diversas habilidades imprescindíveis ao analista do comportamento que podem ser observadas em diferentes momentos da obra de Arthur Connan Doyle. Para elencar algumas, tem-se: a  preocupação com uma explicação externalista, a inferência das relações de controle dos fenômenos sobre os quais ele se debruça a partir de evidências ambientais e a análise funcional em diferentes níveis de complexidade.

Para destacar a primeira habilidade, segue um pequeno trecho do conto A Liga dos Cabeça Vermelhas ao dirigir-se a seu amigo, Dr. Watson, diz  que “se quisermos encontrar efeitos estranhos e combinações extraordinários, devemos procurar na própria vida, que vai sempre muito mais longe do que qualquer esforço da imaginação” (Doyle, 1892/2011). Parece satisfatoriamente claro o objetivo de Holmes em buscar a solução dos inúmeros casos que lhe chegavam a partir de uma atenção sobre o contexto em que eles se passaram bem como da história dos acontecimentos e relações humanas possivelmente envolvidas. Percebe que em nenhum momento pôs-se de fora o papel exercido pelos personagens de qualquer um dos enredos trazidos até nosso investigador, mas apenas que a especulação restrita sobre os motivos de cada um desses personagens é tão desaconselhável quanto infértil.

Mais valeria, assim, investir na observação das evidências ambientais que dão pista à descrição das relações de controle do comportamento (as contingências, em behaviorês). Sobre este ponto, nenhuma outra história me parece tão pictórica quanto à do “Homem da Boca Torta” (Doyle, 1891/2011). A conclusão de Holmes que culmina como desmascaramento do Sr. Neville St.Clair – um notável que se passava por mendigo para tirar um extra para a família e que, ao quase ser apanhado em flagrante por sua esposa, acaba vendo-se como acusado do próprio assassinato – parece não apenas improvável como inimaginável ao desatento. Mas, com a demonstração de um excelente repertório dedutivo, o mito da genialidade se dissipa e não sobre nada além de uma cadeia comportamental encadeada e que o conduza solução, agora, óbvia para o caso, que devolve a liberdade à nosso notável impostor.

Por fim (deste texto e não das possibilidades interpretativas), o caso da “Banda Malhada” (Doyle, 1892/2011) releva um exercício de análise, por parte de nosso herói, que leva em conta a articulação de conhecimentos múltiplos. É verdade que não será possível dizer que ele já praticava algo como uma análise em níveis de seleção do comportamento como seria proposto por seu tataraneto intelectual – B. F. Skinner –, mas acredito que se valer de conhecimentos em biogeografia e antropologia para condução de um caso será suficiente para sugerir que ele já ensaiava uma abordagem transdisciplinar para as ciências do comportamento. Para constar, neste caso Holmes é conduzido à mansão dos Roylott de Stoke Moran – uma família fictícia de tradição secular na Inglaterra – onde o último representante desta linhagem nobre é descoberto por nosso detetive como o algoz cruel de um crime que envolve o veneno de uma víbora do oriente, a sagacidade do raciocínio de um médico e as práticas de um povo cigano.

A esta altura, simplesmente sugerir a leitura de Holmes parece inevitável. Mas não é apenas com isso que podemos concluir. As histórias desse personagem podem ser ainda infinitamente frutíferas para posteriores ensaios e alguns dos temas quenãome ative a tratar são: os limites e possibilidades do método observacional-dedutivo de Holmes e seu uso na AC, o por que da incompreensão constante do médico Watson em relação aos métodos de seu genial amigo, além de outros que eu possivelmente não serei capaz de elencar.

Realmente devo pedir desculpas se não respondi a pergunta que me lancei logo no início do texto. Mas deixo, em seu lugar, que a própria fala de Sherlock Homes encerre esta reflexão com a sugestão de um possível desfecho para essa inquietação: “Se pudéssemos sair de mãos dadas voando por aquela janela, pairar sobre esta grande cidade [Londres] remover suavemente os telhados e espreitar as esquisitices que estão acontecendo (...) [e] que atravessam as gerações conduzem aos resultados mais estapafúrdios, toda ficção, com suas convenções e conclusões previsíveis, pareceria extremamente batida e inútil.” (Doyle, 1891/2011).

Um abraço,
Luiz Henrique
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Referência
Doyle, A. C. (2011). As Aventuras de Sherlock Holmes. Rio de Janeiro: Zahar.

Aviso
O Baboseiras Epistemlógicas foi criado por Rubilene Borges e Hernando Neves Filho. Atualmente, está sendo mantido pela Liga Acadêmica de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Pará.
As postagens posteriores a esta são dos membros da LAAC/UFPA. As postagens antigas são dos criadores do blog.
Boa leitura!

O que é comportamento para a Análise do Comportamento?

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Essa resposta é uma adaptação do meu resumo da ABPMC (Borges, R. P., 2009).

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De modo geral, comportamento é um fluxo de alterações quando eventos quaisquer interagem. São exemplos de comportamento: reações químicas mediante interação de substâncias químicas; variações na cotação do dollar em função de alterações nas interações comerciais; conflitos de versões de software e hardware no pc; decida de uma avalanche, etc. O fluxo de alterações é uma relação entre eventos. Na Análise do Comportamento, o fluxo de alterações é o modo como o organismo altera o ambiente e como o ambiente altera o organismo, não necessariamente nessa ordem.

O comportamento é a relação entre eventos ambientais e eventos BIOLÓGICOS ou, de forma mais sintética, é a relação entre organismo e ambiente. Em toda a literatura, chama-se o que um organismo faz (i.e. as classes de respostas) de “evento comportamental”. Eu discordo dessa terminologia porque se o comportamento é a relação entre organismo e ambiente, todos os eventos do organismo e todos os eventos do ambiente são eventos comportamentais. Chamei, então, os “eventos comportamentais” da literatura de eventos biológicos. (Talvez essa também não seja a melhor opção terminológica. Eventos operantes, eventos responsivos, eventos alteradores-do-ambiente-e-por-ele-alterados etc. Ainda é preciso rever).

O comportamento biológico estudado pela AC não pode acontecer sem um organismo ou sem um ambiente. Os eventos biológicos, observados como “respostas”, não expressam relações funcionais em si mesmos, logo, resposta e comportamento não podem ser tratados como sinônimos. Tratar comportamento como classe de respostas recorre em um erro de categoria. Tirar boas notas em provas, ter senso de humor refinado, conhecer várias obras literárias são respostas qualitativamente classificadas como “inteligentes” e dizer que inteligência é uma classe de respostas inteligentes nada acrescenta enquanto definição. Pode-se falar apenas em “classe de respostas inteligentes”, portanto, chamar classe de respostas de comportamento, tornaria este termo irrelevante. Uma classe de respostas é constituída por eventos biológicos que se relacionam funcionalmente com eventos ambientais, os estímulos.

Rubilene.
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Referência

Borges, R. P. (2009). Comportamento: resposta ou relação? Anais do XVIII Encontro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental. LINK

Sugestão de leitura:


Lopes, C. E. (2008). Uma proposta de definição de comportamento no behaviorismo radical. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 10 (1), 1-13.

Quais os determinantes do comportamento? Em relação à Análise Experimental do Comportamento, a ênfase recai sobre qual fator?

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ResearchBlogging.org
Primeiramente, definamos o que vem a ser “determinante” para a Análise do Comportamento. Determinantes são relações funcionais. Usualmente, a ciência trabalha com a determinação por “causa-e-efeito”, na qual temos que dada a ocorrência de um evento A, este causa a ocorrência do evento B, garantidamente e dentro de uma relação 1:1. Se eu aplico uma força X em um objeto de massa Y, com atrito W, o objeto se move em uma velocidade Z.

Influenciado por Ernest Mach, Skinner propôs que o comportamento deva ser analisado em termos de funções probabilísticas entre eventos ambientais e do organismo. As relações funcionais não implicam em garantia de 100% de ocorrência do evento B mediante o evento A. O evento B, isto é, o comportamento, pode ser função simultaneamente do fator determinante A, C, D, J, K etc. O comportamento é multideterminado (Chiesa, 2006, p. 96-121). E cada comportamento emitido depende diretamente do ambiente histórico e do ambiente imediato do emissor (Skinner, 1953/2005, p. 31).

Todo organismo é biológico, logo, o comportamento de um organismo depende da história evolutiva daquele organismo, que chamamos de filogênese. É por essa determinação que somos suscetíveis ao nosso ambiente (através de receptores exteroceptivos, interoceptivos e proprioceptivos). A filogênese determina uma porção de nosso comportamento, e dá a base para outras determinações. Neste âmbito estão as causas biológicas do comportamento e os reflexos biologicamente importantes, que outrora foram chamados de instintivos.

Todo comportamento ocorre em um contexto, em um local, em um determinado tempo. Todo comportamento opera sobre o mundo e assim o altera, o que por sua vez, também altera comportamentos subseqüentes. (Skinner, 1957, p.1). As alterações podem ser facilmente identificáveis, como quando você diz algumas palavras doces a alguém que você gosta, e assim recebe um tratamento igualmente afável em retorno. Também podem ser alterações triviais e pouco notáveis, como quando você lembra o nome de um velho amigo após fazer uma pergunta em pensamento sobre a data de hoje, que coincidentemente é a data do aniversário do seu amigo. O contexto evoca, de maneira probabilística, uma determinada gama de respostas. Entretanto, quem se comporta é um organismo, e um organismo, além da história da espécie, também carrega uma história de vida. Dependendo da história de vida, uma pessoa que acorda em pânico numa madrugada silenciosa, sem conseguir movimentar seu corpo, pode achar que está sendo abduzida por extraterrestres, como visto nos filmes, ou estar ciente de que está passando por um episódio de paralisia do sono, como diagnosticado pelo seu médico. Tudo depende do que ela conhece, do que ela acredita, instâncias que dependem inteiramente de sua história de vida. A história de vida do organismo, que chamamos de ontogênese, criada em cima das possibilidades da história filogenética, em contato com um contexto, determinam probabilisticamente o comportamento que ali ocorre, naquele instante. A história cria um repertório de comportamentos, o contexto faz com que determinados comportamentos sejam mais prováveis de ocorrer, e as consequências destes comportamentos os selecionam.

Quando se trata de humanos, grande parte da história de vida do organismo é social, ou seja, ocorre em contato com outros membros da espécie, em uma cultura. O contexto social antecede e ultrapassa a vida de uma pessoa. Práticas culturais são criadas e mantidas pelo comportamento sincronizado de um grupo de indivíduos. Grande parte de nossas práticas culturais são mantidas por comportamento verbal. Graças ao conhecimento acumulado por gerações sobre o efeito de determinadas contingências, hoje todo pai ensina seu filho a escovar os dentes. Inicialmente a criança apenas segue a regra, pois seu pai os demais membros da cultura assim o recomendam. Entretanto, a criança pode manter este comportamento posteriormente pelas suas consequências diretas, como o sabor de uma pasta de dente agradável ou a manutenção da saúde bucal. Em meio social, contextos e consequências de comportamentos de organismos individuais se entrelaçam, produzindo resultados que, por um lado não são produto direto da ação de um indivíduo, mas que por outro, quando em conjunto com outras contingências, criam um efeito a longo prazo que afeta o indivíduo novamente. É o caso do entupimento de um canal de esgoto pelo acúmulo de lixo. Uma criança que joga um pedaço de papel no caminho do esgoto não entope a via. Entretanto, se 50 crianças jogarem, a via entope, e a partir disso (em um mundo ideal) começam as campanhas de educação ambiental.

Os determinantes do comportamento atravessam estes três níveis, de forma inclusiva. Todo comportamento tem parte de sua determinação na filogenia, na ontogenia, e, se tratando de animais gregários como os humanos, na cultura (Moore, 1990; Skinner, 1981). Tendo isso em vista, o Analista do Comportamento realiza um recorte epistemológico, focando no nível que mais tem relevância na determinação de um comportamento específico. Tratando de fobias, sabemos que há um forte componente respondente, já que o estímulo eliciador da fobia, como uma aranha para um aracnofóbico, dispara uma sequência de poderosas respostas fisiológicas, como o aumento do ritmo cardíaco e a ativação glândulas hormonais específicas. Em um caso desses, uma intervenção direta na fisiologia seria improvável, e um tanto quanto incômoda, entretanto, é possível alterar a cadeia respondente a partir de uma intervenção na história de aprendizagem do indivíduo, a partir da aplicação de procedimentos de dessenssibilização sistemática com o estímulo fóbico.

Desta forma, a ênfase é condicional ao problema em questão. Em problemas de intervenção, a ênfase é prática. O foco fica nos determinantes possíveis de serem modificados, que em geral estão no ambiente externo e imediato (já que modificar o passado e o cérebro ainda é material de ficção científica). Em se tratando de pesquisa, o tema é obrigatoriamente tratado em sua multideterminação. Um estudo empírico pode tratar de um foco especial, mas ele deve sempre dialogar com as demais possibilidades de causação.

Att,
Hernando Neves Filho e Rubilene Borges.
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Referências

Chiesa. M. (2006). Behaviorismo Radical: a filosofia e a ciência. Brasília: IBAC Editora e Editora Celeiro.

Moore, J. (1990). On the “causes” of behavior. The Psychological Record, 40, 469-480.

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 231, 501-504.

Skinner, B. F. (2005). Science and Human Behavior. B. F. Skinner Foundation. Publicado originalmente em 1953.

Leituras Complementares:

Aló, R. M. (2005). História de Reforçamento. Em J. Abreu-Rodrigues & M. R. Ribeiro (Orgs.). Análise do Comportamento: pesquisa, teoria e aplicação (pp.45-62). Porto Alegre: Artmed.

Andery, M . A. P. A., & Sério. T. M. A. P. (2001). Behaviorismo Radical e os determinantes do Comportamento. Em H. J. Guilhard, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Amorim (Orgs.). Sobre Comportamento e Cognição, 7 (pp. 137-140). Santo André: ESETec.

Cirino, S. (2001). O que é história comportamental. Em H. J. Guilhard, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Amorim (Orgs.). Sobre Comportamento e Cognição, 7 (pp.132-136). Santo André: ESETec.


O que o brasileiro acha da ciência?

Espere pelo pior.

Faça você mesmo o levantamento: vá a uma rede social popular entre os tupiniquins e pesquise o termo "cientistas". Fiz isso despretenciosamente no twitter, como um passatempo de uma manhã de um sábado preguiçoso. Esperava encontrar alguma notícia ou comentário proveitoso.

Que surpresa! Só o print screen pode descreve-la. Clique e veja.
Sério, veja. Veja!




Figura 1. Amostra aleatória de resultados da procura pelo termo "cientistas" no twitter. Todos os nomes e imagens foram omitidos, mantendo a identidade dos participantes da amostra anônima.

Preocupante, concorda? O print screen é só uma pequena amostra, nele foram agrupados somente resultados sucessivos. Note a quantidade de comentários ingratos, em diferentes graus de anti-cientificismo. A lista, para além do print screen, é dolorosamente extensa. Ataques, desconfianças, e puro desconhecimento do pensamento científico. Os comentários jocosos ou brincalhões foram escassos. Comentários sérios, ou pelo menos de apreciação e apreço por tentativas de entender o mundo através da ciência foram nulos.

Agora, a melhor parte. Não resisti e fiz um breve levantamento sociográfico da amostra. Encontrei profiles de jovens estudantes, administradores, advogados, e até um detentor de título de mestre. Que tipo de sistema educacional é esse?! Como se educa sem ciência, ou pior, com descrédito à ciência?! A cada clique eu tentava me convencer que o pensar, como comportamento, fosse uma versão restrita do pensamento-sem-imagens da escola de Würzburg. A todo instante os intraverbais evocados foram trágicos, imagens decadentes.

O sistema brasileiro de ensino é totalmente anti-cientificista. Não se ensina a pensar. Não há lugar para o ceticismo salutar. Não há uma alfabetização científica (mal há alfabetização tradicional...). Conteúdos são ensinados em sabatinas. O conhecimento é construído sobre a credulidade no discurso de autoridade do professor. Os alunos não são estimulados à perguntar, cabe a eles apenas decorar. Aprender alguns comportamentos verbais, e os emitir em forma escrita em uma ou duas ocasiões ao ano. A grade curricular é imposta, o aluno não estuda o que quer, e nem é levado a descobrir o que gosta (o termo "grade" é adequadíssimo) . Suas perguntas obtém respostas curtas, incompletas, e que não estimulam nem um pouco a curiosidade (o motor perpétuo da ciência). A resposta está no livro (quando há livros...), ponto final. Esta foi a educação escolar que eu tive. Aposto a vitória do Tiririca nestas eleições, que esta também foi a sua educação escolar.

"Por que a Lua é redonda? perguntam as crianças. Por que a grama é verde? O que é um sonho? Até onde se pode cavar um buraco? Quando é o aniversário do mundo? Por que nós temos dedos nos pés? Muitos professores e pais respondem com irritação ou zombaria, ou mudam rapidamente de assunto. 'Como é que você queria que a Lua fosse quadrada?'. As crianças logo reconhecem que de alguma forma esse tipo de pergunta incomoda os adultos. Novas experiências semelhantes, e mais uma criança perde o interesse pela ciência. Por que os adultos tem de fingir onisciência diante de crianças de seis anos é algo que nunca vou compreender." Sagan, C. (1999). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. Companhia das Letras. p 312.

Entretanto, amostras educadas da população não se importam com a ciência, parte da população nem sequer enxerga a ciência como um empreendimento válido. Me pergunto: de onde veio este ceticismo incauto, repleto de desapreço pelo empreendimento que nos proporcionou o mundo em que vivemos?

"Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara." Sagan, C. (1999). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. Companhia das Letras. p 39.


Obs.: Atente que o conteúdo que o autor aqui apresentou não foi avaliado por seus pares. O que caracteriza tudo como um mero exercício de crítica e mau humor.


Sêneca e suas análises do comportamento

"Procura o que escrever, não como escrever" (Lucius Annaeus Seneca 4 a.C - 56 d.C)


A leitura de uma obra de Sêneca (celebrado filósofo romano que flerta com um paradóxo eclético entre estoicismo e epicurismo), numa sexta feira a noite, me fez atentar para algumas análises de contingências muito acertadas feitas em uma de suas epístolas à Lucílio.

Em "Da futilidade das meias-medidas", Sêneca prescreve:

"Certas coisas só se mostram para quem está presente [...] ninguém pode aconselhar à distância: deve-se deliberar no momento da ação."

Belíssimo! Quem "está presente" está em contato direto com as contingências, "à distância" só restam as descrições de contingências. Um conselho deve ser deliberado no "momento da ação", ou seja, levando em conta o contexto em que o comportamento de quem recebe o conselho ocorre. Mas a análise é mais certeira, Sêneca segue:

"Não basta estar presente, mas permanecer vigilante e observar a ocasião propícia."

Assim se programa uma contingência.

Mais adiante, Sêneca observa alguns fatos de forma curiosamente atraente:

"Assim, queixam-se da ambição como de suas amantes, isto é, se olhares o seu verdadeiro sentimento, verás que não as odeiam, apenas brigam com elas."

O ódio relatado é inegavelmente parte do fenômeno. O "ódio" pode ser uma condição corporal relatável, criada por uma comunidade verbal, a partir de uma determinada história ontogenética de observação ao próprio corpo. O sentimento completo, é o próprio comportamento. O verdadeiro sentimento é a "briga", o "ódio" é sua descrição.

Ainda na mesma epístola, Sêneca comenta um dos efeitos indesejáveis do controle por contingências de reforçamento:

"... poucos são presos pela servidão, muitos se deixam prender por ela"

O controle por contingências de reforçamento, diferentemente do controle aversivo, dificilmente gera contracontrole. Por mais politicamente aceitável que sejam, nem todas as contingências de reforçamento positivo são indiscutivelmente benéficas. Vícios, manias e dependências são efeitos de reforçamento positivo. Em tom semelhante, e em outra obra tratando do mesmo tema, Sêneca deixou uma de suas mais famosas frases:

"A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelo sábio como falsa, e pelos governantes como útil."

Muito mais pode ser dito, e muito mais se segue. Mas vou deixar isso pro domingo.