domingo, 13 de janeiro de 2013

O quanto sabemos de história?

Ainda é comum entre o currículo básico de psicologia ter-se uma disciplina introdutória à história desta disciplina. Os nomes por vezes podem variar (e.g. Sistemas e Teorias em Psicologia, Introdução à Psicologia), mas o foco principal é a discussão sobre temas de interesse histórico. Interesse histórico. Uma expressão típica que não colabora para o entendimento sequer mínimo do que é estudado, como, por que e por quem.


Este ensaio deve servir para esboçar uma reflexão preliminar sobre essas quatro questões (o que? Como? Por que? Por quem?), mas não seguirei necessariamente essa ordem de apresentação. Ainda assim, espero que a lógica dos argumentos possa ser suficientemente útil ao leitor.

Comecemos com o por que de se estudar história. Por que a maioria dos cursos de psicologia do Brasil tem uma disciplina com este enfoque? Por conta da tradição de pesquisa histórica ou pelo importância particular que a história da ciência psicológica tem para entender a diversidade de perspectivas e abordagens da psicologia? Acho que isso é, no mínimo, menos provável. Provavelmente a maioria de nós estudou história porque fomos obrigados.

Calouros "ingênuos" e empolgados com o novo mundo da universidade e curiosos por saber desta nova profissão (para alguns talvez a primeira e única), fomos conhecendo– talvez – um pequeno punhado de manuais de história da psicologia: Boring, Herrnstein, Marx, Hilliz, Schultz, duas vezes Schultz.

Algo como 100, 150 ou até 500 anos de história num compilado de algumas centenas de páginas. Quando ouvimos a narrativa histórica encadeada por alguns manuais, talvez a vida pareça um fenômeno estabelecido sobre parâmetros muito evidentes: a história das sociedades é a história das disputas econômicas e a história das ciências a história dos métodos e técnicas que nos aproximam da verdade.

É uma pena que nos pareça assim! A história é um campo do conhecimento que tem uma tradição de pesquisa pelo menos 2000 anos mais velha que as ciências modernas do século XVI e as discussões epistemológicas que ela guarda deveriam nos inspirar mais dúvida sobre o que fazemos como "história da psicologia" em nossas disciplinas básicas.

Escolher uma pequena lista de manuais de referência e discursar à frente de algumas dezenas de jovens "crus" lançados no caldeirão do mundo acadêmico dizendo que está-se ali ensinando sobre história é um equívoco que serve mais ao cumprimento de diretrizes político-administrativas do que à formação de profissionais com alguma qualificação significativa.

Mas não é mistério que se valer exclusivamente de aulas expositivas, neste contexto, está longe de ser a melhor solução se pretende-se ensinar história da psicologia. Então por que faz-se isso? Por que os professores de história da psicologia não tentam algo diferente? Porque não temos professores de história da psicologia!

Como se forma um historiador de ciências no Brasil? Na linguagem de um analista do comportamento: muito mais pela exposição direta à contingências do que pela aprendizagem social por imitação/modelação e/ou regras.

O que isto quer dizer? Usemos uma anedota. Um jovem professor de psicologia que construiu uma formação sólida conciliou sua área de atuação com o estudo constante (mas pouco sistemático) de tópicos teóricos sobre os diferentes sistemas da psicologia e algo sobre filosofia da ciência e a filosofia da mente (quem sabe até algo sobre filosofia da linguagem). Por seu rigor teórico (ou por necessidade financeira mesmo) este bom rapaz assume disciplina de história da psicologia. Que sonho! A chance de por seus conhecimentos à prova em uma disciplina nobre.

É uma pena, mas cedo ele descobre que sua satisfatória eloquência não satisfaz o critério de atratividade da maioria de seus alunos, que costumeiramente não acompanham as leituras sugeridas e pouco desafiam o conhecimento deste jovem mestre com perguntas interessantes. Então, o professor resolve propor uma avaliação em grupo em que os alunos devem apresentar um seminário sobre algum autor importante da psicologia ou mesmo uma escola psicológica inteira. O exercício de pesquisa e a oportunidade de autonomia de pensamento confortam o nosso sábio personagem que muito se desaponta quando vê seus alunos recitarem (por vezes entre soluços confusos pelo mal uso do léxico) as mesmas expressões, os mesmo jargões, os lugares comuns lidos nos próprios manuais usados na disciplina ou (na "era da internet") rigorosamente extraídos de uma sítio virtual qualquer.

O que esses alunos aprenderam? Uma lição que ainda é muito cara às nossas universidades: não é preciso aprender tudo (quiçá muito) para se formar. Ainda mais quando estamos tratando de assuntos históricos, filosóficos e/ou teóricos. Nós ainda temos muita dificuldade em ensinar uma história, filosofia ou fundamentos teóricos específicos que sejam realmente úteis e imprescindíveis à maioria dos nossos profissionais no Brasil.

Retomando o tópico original, isto pode se dar exatamente porque, no fim das contas, não ensinamos métodos de pesquisa histórica nem discutimos sobre os critérios que conduzem a construção das narrativas históricas. Ora, mas se vamos tratar de métodos e critérios de validação e verdade, então trataremos de metodologia e filosofia da ciência? Exato!

Parece que um dos primeiros passos para tornar útil, necessário e – talvez – imprescindível o conhecimento da história da psicologia é mostrar como ele é construído, por quem, analisar a lógica interna do discurso histórico em paralelo com a dinâmica sócio-histórica, econômica e cultural que a acompanha. Treinar os alunos a construir uma narrativa histórica, criticá-la, identificar seus alcances e limites são algumas das alternativa que podem fazer das disciplinas de história da psicologia de fato uma etapa à formação ética e crítica do profissional de psicologia.

E por que todo este trabalho é necessário? Manuais são mais um recurso útil à construção do conhecimento histórico, mas qual o alcance que eles tem? Que tipo de fontes históricas eles consultam? Com base em que critérios seus autores organizam seus dados? Será que a narrativa que é apresentada em um manual específico dá conta das particularidades do desenvolvimento histórico da psicologia em qualquer contexto regional em que ele é utilizado?

A essa última pergunta sabemos a resposta: não. E se os manuais não dão conta, e jamais darão (e isso não é "o" problema), é porque há campo para se conduzir pesquisas históricas e elas contribuíram efetivamente para esses novos estudantes de psicologia compreenderem "onde estão pisando",por que eles estudarão os conteúdos que estudarão e, possivelmente, eles próprios identificarão os limites de seu processo de formação e – com as bases de formação em pesquisa – expandirão o alcance de seus currículos por sua própria conta.

Espero que algo disso aqui lhes seja útil.

Um abraço,


Luiz Henrique Santana


P.S.: Como disse, este é um ensaio livre e por isso não me detive em apoiar-me sobre uma lista específica de referências. A sugestão de estudo que dou é que o leitor defina uma curiosidade histórica que possa ter e busque referências sobre ela (desde textos não especializados até artigos publicados em periódicos). Compare os argumentos, identifique o alcance e o limite de cada tipo de texto, descubra as fontes utilizadas e busque outras fontes possíveis para o mesmo tema. Isto provavelmente o ajudará a identificar as limitações de se estudar a história da psicologia como a fazemos.