quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Acerca dos chocolates que derretem

Percy Lebaron Spencer (1894-1970), um cara não muito famoso, foi o responsável pela versão comercial do micro-ondas. Digo versão comercial porque um dispositivo produtor de micro-ondas já era utilizado em radares pelos exércitos ingleses e norte-americanos na época da Segunda Guerra Mundial. O senhor em questão, Percy, engenheiro da indústria armamentista, em um dia qualquer posicionou chocolates perto do dispositivo emissor de micro-ondas. Quando voltou, finalizou a utilização do equipamento e viu que os chocolates haviam derretido, inclusive parte dos que ele guardava no bolso. Levou mais alguns anos – e muitos testes (milho, mais chocolate, comida fria) – para que o primeiro modelo de micro-ondas fosse criado e patenteado por Percy.
 
Mr. Spencer
 
O efeito disto (magnéton)...
 
 
...foi adaptado para mais ou menos isto (a versão original tinha 2m e pesava mais de 300 kg).
 
Ao pesquisar e resolver seu pequeno problema, Percy descobriu outras possibilidades (não ficou rico com isso, mas descobriu). Para análise do comportamento, resolução de problemas pode ser considerada uma categoria de comportamento criativo. Afinal, todo esse processo resulta em um comportamento (s) novo (s), uma forma original de interagir com o seu mundo. Considero essa definição interessante por muitas razões.
 
Primeiramente, a própria diferenciação entre termos: comportamento criativo e criatividade. Parece uma mera questão de nomenclatura. Contudo, uma vez que criatividade é utilizada muitas vezes como um adjetivo, uma propriedade relacionada a outro evento, adota-se, na AC, a nomenclatura de comportamento criativo, esclarecendo-se duas coisas: a) criatividade é um fenômeno natural e b) sua observação é condicionada à presença de padrões comportamentais específicos.
 
Assumir essa nomenclatura (e todos os cuidados metodológicos que ela implica) permite demonstrar que denominações acerca de criatividade se referem a categorias de comportamentos, cuja ocorrência, frequentemente, obedece a padrões mais complexos que os de outros operantes. Ainda assim, friso: mais complexos apenas, sem relações com outros planos, realidades e assim por diante.
 
No que se refere à resolução de problemas, a definição comportamental concebe um problema como uma situação na qual não disponibilizaríamos de um comportamento para reduzir um estado qualquer de privação ou interromper uma estimulação aversiva. Para alcançar uma situação reforçadora, seriam emitidos comportamentos pré-correntes, que consistiriam em manipulações de variáveis, de modo a aumentar a probabilidade de uma resposta, potencialmente reforçadora, ser evocada.
 
Assim, quando não dispomos de uma solução (um comportamento), manipulamos o que for possível (desde comportamentos existentes no próprio repertório até estímulos ambientais) para que, eventualmente, o problema seja resolvido. Mr. Spencer fez isto: testou com outros alimentos, estudou o efeito e conseguiu concentrá-lo em um aparato mecânico útil à vida doméstica (depois de alguns anos de adaptação). O interessante não é o produto final, neste caso a invenção. Mas o que Mr. Spencer, a partir do repertório comportamental disponível, conseguiu propor para o efeito percebido. Agradeço até hoje aos comportamentos pré-correntes deste distinto engenheiro, que me livraram da triste tarefa de esquentar o almoço em frigideiras.
 
Talvez a complexidade e extensão do padrão de ocorrência da resolução de problemas favoreçam algumas explicações recorrentes acerca de comportamentos criativos (comuns nos discursos de alguns artistas): ideias que surgem/emergem/brotam/etc., motivações inconscientes, forças estranhas e por aí vai. O que fica claro em afirmações do tipo é o não reconhecimento de todos os comportamentos envolvidos, na cadeia de manipulação de variáveis, que possibilitam a solução de problemas por parte do falante. O que é compreensível. Nem sempre conseguimos descrever por completo a cadeia comportamental que precedeu algum comportamento. Contudo, para esse tipo de situação, a resposta mais precisa para a pergunta "mas como surgem essas suas ideias tão criativas?"é, também, a mais simples: "não sei". Obviamente, o romantismo e as declarações inflamadas seriam sacrificados em prol desta resposta mais sincera.
 
Felizmente, com o tempo, esse processo de resolução, complexo e longo, se torna menos árduo: progressivamente, aprendemos dicas comportamentais e padrões de resolução, que tendem a ser repetidos ou gradualmente modificados (criando novos padrões), permitindo que outras soluções, para problemas semelhantes àqueles já experimentados, ocorram mais rápido.
 
No caso de artistas, pode não haver um problema explícito, a não ser que consideremos a criação de algo novo um problema. Nesse caso, artistas em processo de criação conviveriam diariamente com problemas. Eles e o resto da humanidade. No caso de cientistas, a produção de algo novo, como o conhecimento, por exemplo, é estruturada com base em seu método, o que torna todo processo de resolução de problemas mais explícito. Isto não elimina a possibilidade de interpretá-lo como um exemplo de comportamento criativo, se um novo comportamento for selecionado. O padrão em questão provavelmente tem o mesmo funcionamento para o cientista e para o artista, embora alguns (cientistas e artistas) relutem em admitir.
 
Até a próxima.



Ícaro Gonzaga
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Referências

De Luna, S.V.; Marinotti, M. (2010). Ensino de resolução de problemas: questões conceituais e metodológicas. Org.: Tourinho, E.Z.; De Luna; S.V. São Paulo: Roca.


Fogaça, J.R.V (2012). Origem e funcionamento do forno de micro-ondas. Disponível em: