domingo, 16 de setembro de 2012

I Jornada de Estudos em Psicologia da UFPA


Nos dias 20, 21 e 22 de novembro de 2012 acontecerá a I Jornada de Estudos em Psicologia da UFPA. Neste ano de comemoração dos 50 anos da profissão de psicólogo no Brasil, o tema não poderia ser mais adequado: “Desafios presentes à formação do Psicólogo”.

O evento contará com a presença de convidados de diferentes instituições de ensino superior do Pará e de trabalhos de pesquisadores e profissionais que fazem a psicologia neste Estado.

Esperamos toda sorte a essa iniciativa dos estudantes da graduação que contam com o apoio de professores, da Faculdade de Psicologia da UFPA e da Liga Acadêmica de Análise do Comportamento (LAAC-UFPA).

Confiram as novidades em: http://jepsi-ufpa.blogspot.com

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Evento: I Jornada de Estudos em Psicologia
Local: Auditório Setorial Básico I, Campus Guamá, UFPA, Belém.
Período: de 20 a 22 de novembro de 2012. Das 08 às 18h.
Inscrições: de até . Gratuitas
Submissão de Trabalhos: até 21/10/2012.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

“O homem que trabalha perde tempo precioso”


O Ócio Criativo

O sociólogo italiano Domenico De Masi prevê que o mundo caminha inevitavelmente para uma sociedade pós-industrial, onde o trabalho terá uma concepção totalmente nova, desprovida do esforço físico fatigante e repetitivo (que caberá às máquinas) e baseado na produção exclusivamente intelectual (De Masi, 1995/2000).

Em seu livro “O Ócio Criativo”, De Masi discorre que atualmente existem profissões que implicam exatamente em produção apenas intelectual, enquanto outras envolvem muito mais a atividade física mecanicista. No entanto, mesmo o trabalho intelectual está arraigado a uma concepção industrial de trabalho, onde as empresas exigem uma rotina pesada, repetitiva e pouco inovadora de seus funcionários. O trabalhador está destinado a executar tarefas que lhe são designadas não havendo, muitas vezes, espaço para que esse trabalhador expresse suas ideias e contribua de outra maneira com empresa que não fazendo exclusivamente o que seu chefe lhe ordenou que faça.

Em uma sociedade futura, pós-industrial, as atividades produtivas não serão mais condicionadas ao expediente e a tarefas pré-formatadas, mas sim aos momentos que hoje são considerados como tempo livre. Para De Masi, a sociedade do futuro não fará distinção entre trabalho, estudo e lazer. Essas três atividades, hoje regulamentadas para acontecer em horários e até dias distintos funcionarão juntas gerando o “ócio criativo”.

O que é ócio criativo?

O ócio criativo é uma forma de ocupação do tempo que não segmenta a rotina do trabalhador em atividades específicas, mas sim integra todas elas. O trabalho deverá ser um resultado direto do estudo e será executado sem distinção do lazer. Trabalhar será adquirir e produzir conhecimento enquanto se diverte.

Segundo De Masi, o trabalhador fora da rotina de expediente poderá aproveitar muito mais o seu potencial criativo, uma vez que a criatividade é a união entre fantasia e concretude. O ócio criativo é atingido quando o trabalhador dispõe de tempo livre suficiente para sonhar, ter ideias livremente, sem a preocupação de estar atendendo a um dever trancado dentro de um escritório. Mas apenas sonhar não é o ócio criativo. É necessário que o trabalhador que sonha também esteja apto a empreender seu sonho e torná-lo realidade. Essa junção de habilidades é o grande desafio de quem pretende seguir o caminho do ócio criativo.

A Teoria da Geratividade

O psicólogo norte-americano Robert Epstein desenvolveu uma Teoria da Geratividade para explicar o comportamento novo (Epstein, 1996). Segundo sua teoria, o comportamento novo é gerado a partir da competição entre comportamentos já estabelecidos no repertório. Essa competição ocorre através de quatro funções de transformação: (1) extinção, (2) reforço, (3) ressurgência e (4) encadeamento automático.

1) Extinção: quando um comportamento inefetivo em produzir consequências diminui de frequência.

2) Reforço: quando um comportamento efetivo em produzir consequências aumenta de frequência.

3) Ressurgência: quando um comportamento diminui de frequência, outros comportamentos (previamente reforçados)aumentam de frequência.

4) Encadeamento Automático (ou autoencadeamento): quando um comportamento aumenta de frequência, outros comportamentos (previamente reforçados) aumentam de frequência.

Para a Teoria da Geratividade de Epstein, esses quatro processos ocorrem simultaneamente e geram um perfil de probabilidade dos comportamentos que podem ser emitidos em uma dada situação. Esse perfil indica que mesmo o comportamento novo pode ser ordenável e previsível. Isso se aplica também ao que chamamos de criatividade, ou comportamento criativo.

O que é criatividade?

Epstein considera que a criatividade não tem nada de extraordinário. Todas as pessoas são capazes de fazer coisas criativas em menor ou maior escala. O pintor famoso que concebe obras belíssimas de arte plástica é uma pessoa criativa, mas também o é um bebê que descobre ser capaz de andar de ré.

A criatividade é resultado da variabilidade comportamental e da recombinação funcional e/ou topográfica de comportamentos pré-existentes no repertório. De certo modo, tudo que fazemos é, em alguma medida, criativo. A cada nova sentença que escrevemos podemos criar um novo padrão de ordenação de palavras. A posição “confortável” que encontramos para sentar em um móvel ergonomicamente inapropriado pode ser um comportamento criativo. Até a dancinha ridícula que você fez em cima do palco no seu baile de formatura pode ser de grande criatividade, contanto que você tenha produzido um comportamento novo que emergiu da recombinação de diversas habilidades motoras e ritmicas que você já emitia.

Como ser criativo?

Epstein lista quatro estratégias que podem contribuir para você ser criativo:

1) Capture ideias: quando tiver uma ideia, não importa qual seja, onde você esteja, o que esteja fazendo, tome nota. Ainda que pareça uma ideia tola, não a deixe escapar. Salve primeiro e avalie depois.

2) Procure desafios: envolva-se em situações com alto grau de dificuldade de resolução, tente resolver problemas que você não conhece o resultado, arranje oportunidades para fazer coisas nas quais você irá falhar e assim, possibilite a concorrência entre comportamentos, estimulando a variabilidade e a ressurgência.

3) Varie seu ambiente físico e social: mude os objetos a sua volta, exponha-se a novas situações, conheça novas pessoas com costumes diferentes dos seus.

4) Aprenda algo novo: estude temas de fora da sua área, adquira novas habilidades de áreas variadas, torne-se versátil.

A Geratividade do Ócio Criativo

Imagine você mesmo deitado em uma rede com seu laptop no colo, um copo de suco de laranja bem gelado ao seu alcance enquanto você conversa com seu melhor amigo que mora no Japão que acabou de viver seu primeiro terremoto. No dia seguinte, você escolhe trabalhar na sala da sua casa enquanto seu filho monta um lego. Mais tarde você, que é engenheiro civil, tem uma reunião com os sócios da sua microempresa de construção civil.

Um dos projetos em andamento apresenta um problema que a equipe precisa resolver e quando você menos espera, a junção do relato do terremoto no Japão, combinado com a visão das peças de lego do seu filho te dão aquela ideia que vai salvar a empresa de ter um mega prejuízo. Você emitiu um comportamento criativo e ele só foi possível porque você trabalha sob o lema do ócio criativo.

Qual o problema da concepção industrial de trabalho?

Se você passa o seu dia enfurnado sozinho no escritório onde tudo é constante, desde os móveis até a rotina de tarefas, você não tem acesso à estratégia nº 3 para ser criativo (variar seu ambiente físico e social).

Se as suas tarefas são tão constantes, você não poderá interrompê-las para desenvolver uma ideia que acabou de ter e, provavelmente, não lembrará dela mais tarde e assim abortará a estratégia nº 1 (capturar ideias).

Se você não tem tempo nem para suas próprias ideias, que dirá para aprender algo diferente do seu trabalho apenas pelo bel-prazer de descobrir coisas novas e então você fica de fora também da estratégia nº 4 (aprender algo novo).

Se você já não pode dispor de suas ideias, respirar o ar de ambientes diferentes e ter a liberdade de escolher o que prefere aprender a cada dia de sua vida, provavelmente os desafios não serão algo da sua preferência no trabalho e você não fará uso da estratégia nº 2 (procurar desafios).

O ócio criativo estabelece uma rotina em que o trabalhador irá se expor a uma grande variedade de estímulos que induzirão os padrões comportamentais pré-estabelecidos no repertório a entrar em concorrência e gerar novas combinações.

Com a exposição à rotinas diferentes o trabalhador encontrará situações onde há vários estímulos concorrentes em vigor que podem exercer controle sobre uma variedade de respostas funcionalmente e topograficamente distintas e essa concorrência dá-se pelas funções de transformação (extinção, reforço, ressurgência e autoencadeamento), quando diferentes comportamentos estarão sobre controle de um ou mais desses processos simultaneamente.

O ócio criativo é uma forma de variar a estimulação física e social do seu convívio de modo a possibilitar que você: amplie seu repertório, introduzido novas habilidades que não precisam ser direcionadas a um fim específico; tenha tempo para exercer a sua produção intelectual livremente, sem delimitações pré-formatadas que impeçam a sua autonomia; desfrute da companhia dos amigos e familiares em atividades intelectualmente enriquecedoras para todos; e descubra que a derrota pode ser benéfica para aprendizagem.

Eu entrei em contato com a proposta de De Masi em 2002, em uma aula de História do 2º ano do Ensino Médio. A minha professora distribuiu a nós, seus alunos, cópias de uma curta entrevista de De Masi onde ele discorria brevemente sobre o ócio criativo. A prévia que eu li pareceu uma ideia espetacular para mim, tanto que decidi guardar, muito bem guardada, a cópia daquela entrevista. Meses depois, deparei-me com o “O Ócio Criativo” na prateleira de uma livraria e, como dispunha de dinheiro suficiente no bolso para comprar um cd de alguma boyband, sacrifiquei o cd e comprei o livro por R$ 29,90. Dois anos depois estava eu na Universidade lendo sobre um tal de Behaviorismo Radical... e achei que as ideias de De Masi tinham tudo a ver! A empolgação parou aí, mas o livro continuava na prateleira da minha estante, sempre como um norteador das minhas atividades.

Em 23 de abril de 2008 eu criei um arquivo em .doc no meu computador e comecei a escrever umas baboseiras com o objetivo de elaborar um texto que discorresse sobre semelhanças entre o ócio criativo e alguns princípios da Análise do Comportamento e deixei-o esquecido no HD. Dias atrás abri esse .doc, e comecei a editá-lo de maneira que nada sobrou do que estava escrito antes. Hoje nesse .doc consta esta postagem que você está lendo.

Dez anos atrás eu  me deparei com algo que parecia muito útil e guardei o papel que quase todos (ou todos mesmo) os meus colegas de classe jogaram no lixo (e não no chão, espero eu). Se eu tivesse jogado fora também, talvez nem lembrasse do nome do sociólogo, nem da sua proposta e agora você não estaria lendo esta postagem e não ficaria sabendo que nesse exato momento você está praticando o ócio criativo. Isso mesmo! Mas agora feche essa janela e vá transformar algumas funções do seu repertório trocando uma ideia com alguém sobre o que você leu.

Até a próxima!
Rubilene.
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Referências

De Masi, D. (2000). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante.

Epstein, R. (1996). Cognition, creativity and behavior: selected essays. Westport, CT: Praeger Publishers.


Nota:  O título “O homem que trabalha perde tempo precioso” é uma frase que pairava na tela do computador de Domenico De Masi na época da elaboração do livro “O Ócio Criativo”, segundo diz-se no próprio livro.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sherlock Holmes: o avô de Watson


Onde a psicologia estaria hoje se o investigador mais consagrado na literatura universal tivesse se autointitulado behaviorista?

Não, o Baboseiras não virou site de fofoca de novelas clássicas nem espaço pra FanFics. Continuamos em busca do mantra científico moderno – empírico, reflexivo e longe de ser divertido. De fato o primeiro início que pensei para este post era:

 “Um dos grandes desafios do analista do comportamento neste início de século XXI é o de identificar as relações de controle em vigor para um organismo entre os três níveis de seleção definidos por Skinner”.

Quase um bom começo de capítulo. Mas o interesse em publicar no blog (aliada a falta de dinheiro para publicar um livro), me conduziram à uma abordagem um pouco diferente.

Podemos começar com a pergunta lá em cima: você já parou para pensar onde a psicologia estaria hoje se o investigador mais consagrado na literatura universal tivesse se autointitulado behaviorista?

Para quem ainda não se aventurou formalmente nas aventuras de Sherlock Holmes (digo formalmente pensando na série de contos e novelas, mas se você já conheceu a versão lutador de MMA – embora não menos dependente de entorpecentes – de Robert Downey Jr. já serve como ilustração), eu diria que vale à pena, principalmente se você está numa etapa inicial de seus estudos sobre o behaviorismo e a análise do comportamento.

Sherlock lança mão de diversas habilidades imprescindíveis ao analista do comportamento que podem ser observadas em diferentes momentos da obra de Arthur Connan Doyle. Para elencar algumas, tem-se: a  preocupação com uma explicação externalista, a inferência das relações de controle dos fenômenos sobre os quais ele se debruça a partir de evidências ambientais e a análise funcional em diferentes níveis de complexidade.

Para destacar a primeira habilidade, segue um pequeno trecho do conto A Liga dos Cabeça Vermelhas ao dirigir-se a seu amigo, Dr. Watson, diz  que “se quisermos encontrar efeitos estranhos e combinações extraordinários, devemos procurar na própria vida, que vai sempre muito mais longe do que qualquer esforço da imaginação” (Doyle, 1892/2011). Parece satisfatoriamente claro o objetivo de Holmes em buscar a solução dos inúmeros casos que lhe chegavam a partir de uma atenção sobre o contexto em que eles se passaram bem como da história dos acontecimentos e relações humanas possivelmente envolvidas. Percebe que em nenhum momento pôs-se de fora o papel exercido pelos personagens de qualquer um dos enredos trazidos até nosso investigador, mas apenas que a especulação restrita sobre os motivos de cada um desses personagens é tão desaconselhável quanto infértil.

Mais valeria, assim, investir na observação das evidências ambientais que dão pista à descrição das relações de controle do comportamento (as contingências, em behaviorês). Sobre este ponto, nenhuma outra história me parece tão pictórica quanto à do “Homem da Boca Torta” (Doyle, 1891/2011). A conclusão de Holmes que culmina como desmascaramento do Sr. Neville St.Clair – um notável que se passava por mendigo para tirar um extra para a família e que, ao quase ser apanhado em flagrante por sua esposa, acaba vendo-se como acusado do próprio assassinato – parece não apenas improvável como inimaginável ao desatento. Mas, com a demonstração de um excelente repertório dedutivo, o mito da genialidade se dissipa e não sobre nada além de uma cadeia comportamental encadeada e que o conduza solução, agora, óbvia para o caso, que devolve a liberdade à nosso notável impostor.

Por fim (deste texto e não das possibilidades interpretativas), o caso da “Banda Malhada” (Doyle, 1892/2011) releva um exercício de análise, por parte de nosso herói, que leva em conta a articulação de conhecimentos múltiplos. É verdade que não será possível dizer que ele já praticava algo como uma análise em níveis de seleção do comportamento como seria proposto por seu tataraneto intelectual – B. F. Skinner –, mas acredito que se valer de conhecimentos em biogeografia e antropologia para condução de um caso será suficiente para sugerir que ele já ensaiava uma abordagem transdisciplinar para as ciências do comportamento. Para constar, neste caso Holmes é conduzido à mansão dos Roylott de Stoke Moran – uma família fictícia de tradição secular na Inglaterra – onde o último representante desta linhagem nobre é descoberto por nosso detetive como o algoz cruel de um crime que envolve o veneno de uma víbora do oriente, a sagacidade do raciocínio de um médico e as práticas de um povo cigano.

A esta altura, simplesmente sugerir a leitura de Holmes parece inevitável. Mas não é apenas com isso que podemos concluir. As histórias desse personagem podem ser ainda infinitamente frutíferas para posteriores ensaios e alguns dos temas quenãome ative a tratar são: os limites e possibilidades do método observacional-dedutivo de Holmes e seu uso na AC, o por que da incompreensão constante do médico Watson em relação aos métodos de seu genial amigo, além de outros que eu possivelmente não serei capaz de elencar.

Realmente devo pedir desculpas se não respondi a pergunta que me lancei logo no início do texto. Mas deixo, em seu lugar, que a própria fala de Sherlock Homes encerre esta reflexão com a sugestão de um possível desfecho para essa inquietação: “Se pudéssemos sair de mãos dadas voando por aquela janela, pairar sobre esta grande cidade [Londres] remover suavemente os telhados e espreitar as esquisitices que estão acontecendo (...) [e] que atravessam as gerações conduzem aos resultados mais estapafúrdios, toda ficção, com suas convenções e conclusões previsíveis, pareceria extremamente batida e inútil.” (Doyle, 1891/2011).

Um abraço,
Luiz Henrique
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Referência
Doyle, A. C. (2011). As Aventuras de Sherlock Holmes. Rio de Janeiro: Zahar.